quarta-feira, setembro 29, 2010

A's Monologue

"And I want to play hide-and-seek and give you my clothes and tell you I like your shoes and sit on the steps while you take a bath and massage your neck and kiss your feet and hold your hand and go for a meal and not mind when you eat my food and meet you at Rudy's and talk about the day and type your letters and carry your boxes and laugh at your paranoia and give you tapes you don't listen to and watch great films and watch terrible films and complain about the radio and take pictures of you when you're sleeping and get up to fetch you coffee and bagels and Danish and go to Florent and drink coffee at midnight and have you steal my cigarettes and never be able to find a match and tell you about the the programme I saw the night before and take you to the eye hospital and not laugh at your jokes and want you in the morning but let you sleep for a while and kiss your back and stroke your skin and tell you how much I love your hair your eyes your lips your neck your breasts your arse your and sit on the steps smoking till your neighbour comes home and sit on the steps smoking till you come home and worry when you're late and be amazed when you're early and give you sunflowers and go to your party and dance till I'm black and be sorry when I'm wrong and happy when you forgive me and look at your photos and wish I'd known you forever and hear your voice in my ear and feel your skin on my skin and get scared when you're angry and your eye has gone red and the other eye blue and your hair to the left and your face oriental and tell you you're gorgeous and hug you when you're anxious and hold you when you hurt and want you when I smell you and offend you when I touch you and whimper when I'm next to you and whimper when I'm not and dribble on your breast and smother you in the night and get cold when you take the blanket and hot when you don't and melt when you smile and dissolve when you laugh and not understand why you think I'm rejecting you when I'm not rejecting you and wonder how you could think I'd ever reject you and wonder who you are but accept you anyway and tell you about the tree angel enchanted forest boy who flew across the ocean because he loved you and write poems for you and wonder why you don't believe me and have a feeling so deep I can't find words for it and want to buy you a kitten I'd get jealous of because it would get more attention than me and keep you in bed when you have to go and cry like a baby when you finally do and get rid of the roaches and buy you presents you don't want and take them away again and ask you to marry me and you say no again but keep on asking because though you think I don't mean it I do always have from the first time I asked you and wander the city thinking it's empty without you and want what you want and think I'm losing myself but know I'm safe with you and tell you the worst of me and try to give you the best of me because you don't deserve any less and answer your questions when I'd rather not and tell you the truth when I really don't want to and try to be honest because I know you prefer it and think it's all over but hang on in for just ten more minutes before you throw me out of your life and forget who I am and try to get closer to you because it's a beautiful learning to know you and well worth the effort and speak German to you badly and Hebrew to you worse and make love with you at three in the morning and somehow somehow somehow communicate some of the overwhelming undying overpowering unconditional all-encompassing heart-enriching mind-expanding on-going never-ending love I have for you."

domingo, setembro 19, 2010

Poema em linha reta

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."

quarta-feira, setembro 15, 2010

Meus ex-melhores amigos

Hoje encontrei meus ex-melhores amigos.

Foi assim: constrangido, conversa sobre quem faz o que. Aperto no coração. Uma despedida súbita. A gente ainda esboça quem éramos antes. Só esboça, porque cada um foi pro seu lado. E fica esse ar de tristeza carregado de mágoa entre o taco de sinuca e as bolas.

Boa sorte ex-amigos. Queria poder estar com vocês, mas tudo que a gente tem é a sombra de uma lembrança. Faz frio entre nós.

Quem sabe bebemos. Tanto, que vamos cair. Tanto, que vamos ser aquilo que já não somos. Tanto, que vamos nos arrepender no outro dia. Com uma dor dessas de coração que não passa, só amargura.

Quando tivermos cinqüenta anos ainda podemos nos encontrar. E cair do topo da nossa amargura pra chorar abraçados um nos outros, como quem perdoa aquilo que ninguém tem culpa.

quarta-feira, agosto 25, 2010

Eleições

Jealous Guy

"I was dreaming of the past
and my heart was beating fast
I began to lose control
I began to lose control

I didn't mean to hurt you
I'm sorry that I made you cry
I didn't want to hurt you
I'm just a jealous guy.

I was feeling insecure
You might not love me anymore
I was shivering inside
I was shivering inside"

(John Lennon)

quinta-feira, agosto 05, 2010

Da vida

Queria fazer entender.

O mais bonito que pode ocorrer numa pessoa é transformação. Transformar aquele sentimento padrão em algo aqui e agora. Difícil.

Ainda mais difícil explicar. E ver que no fim das contas não mudamos tanto assim.

quinta-feira, julho 08, 2010

Astral

É tudo verde. Luzes fortes ao redor do meu corpo sem me tocar.
Quando entram em foco, um pouco, aparece a lateral de um carro.

Depois estou conversando com vocês na sala. Na sala de estar, apesar de ninguém parecer ter a menor idéia de como é pra estar na sala. É uma conversa agradável, falamos sobre os princípios da maconha e rimos muito, porque nossos corpos se sentem exatamente como falamos.

Lembro que preciso almoçar.

E, quando acordo, preciso de muita coisa, claro, e tudo isso me incomoda, claro, então eu fico cansado. E não tenho mais vontade de precisar de coisa alguma.

segunda-feira, junho 28, 2010

A vida profissional / 2

"Têm o mesmo nome, o mesmo sobrenome. Ocupam a mesma casa e calçam os mesmos sapatos. Dormem no mesmo travesseiro, ao lado da mesma mulher. A cada manhã, o espelho lhes devolve a mesma cara. Mas ele e ele não são a mesma pessoa:

— E eu, o que tenho a ver com isso? — diz ele, falando dele, enquanto sacode os ombros.
— Eu cumpro ordens — diz, ou diz:
— Sou pago para isso. Ou diz:
— Se eu não fizer, outro faz. Que é como dizer:
— Eu sou o outro.

Frente ao ódio da vítima, o verdugo sente estupor, e até uma certa sensação de injustiça: afinal, ele é um funcionário,um simples funcionário que cumpre seu horário e suas tarefas. Terminada a jornada extenuante de trabalho, o torturador lava as mãos.

Ahmadou Gherab, que lutou pela independência da Argélia, me contou. Ahmadou foi torturado por um oficial francês durante vários meses. E a cada dia, às seis em ponto da tarde, o torturador secava o suor da fronte, desligava da tomada a máquina de dar choques e guardava os outros instrumentos de trabalho. Então se sentava ao lado do torturado e falava de sua mulher insuportável e do filho recém-nascido, que não o deixara grudar o olho a noite inteira; falava contra Orã, esta cidade de merda, e contra o filho da puta do coronel que...

Ahmadou, ensangüentado, tremendo de dor, ardendo em febre, não dizia nada."

(O Livro dos Abraços - Eduardo Galeano)

quinta-feira, junho 10, 2010

Fernando Pessoa anuncia fusão de heterônimos


Flagrado na Ilha de Caras, Fernando Pessoa disse que está bem mais leve
depois que passou a ser um só. “Além de mala, aquele Alberto Caeiro não
pegava ninguém.”
















LISBOA – Em pronunciamento que pegou de surpresa o mercado editorial, o poeta e investidor Fernando Pessoa anunciou ontem a fusão dos seus heterônimos. Com o enxugamento, as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro passam a fazer parte da holding Fernando Pessoa S.A. “É uma reengenharia”, explicou o assessor e empresário Mario Sá Carneiro, acrescentando que “de uns tempos para cá ficou claro que era preciso fazer um streamlining na nossa operação se quiséssemos sobreviver num ambiente poético cada vez mais competitivo.” Pessoa confessou que a decisão foi tomada “de coração pesado”, mas o seu CFO não lhe deu alternativas. “Drummond sempre foi um só. A operação dele é enxutinha. Como competir?”, indagou. O poeta chegou a pensar em terceirizar os heterônimos através de um call-center em Goa, mas questões de gramática e semântica acabaram inviabilizando as negociações. “Eles não usam mesóclise”, explicou Pessoa.

A notícia dividiu o mercado editorial. Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, disse que a eliminação dos heterônimos ajudará a diminuir os custos de marketing: “O brasileiro médio sabe quem é Fernando Pessoa. Mas as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nunca chegaram a se firmar.” Já a Central Única dos Poetas, sindicado ligado à CUT, declarou, em nota, que a medida é “mais um exemplo da brutalidade do mercado”, e confirmou para amanhã uma greve de 48 horas, na qual nenhum poeta fará rimas e Gilberto Gil dirá coisas compreensíveis.

Mario Sá Carneiro declarou que, uma vez consolidada a fusão, a holding Fernando Pessoa S.A. pretende adquirir as marcas T. S. Eliot, Albert Camus, Jean Paul Sartre e Friedrich Nietzsche. “E claro, no futuro, se tivermos bala, toda a obra poética de José Sarney.”

Fonte: The Piaui Herald - http://www.thepiauiherald.com.br/

segunda-feira, junho 07, 2010

Fim

Palhaço do meio da noite, quantas vezes mais precisa pra chegar no ponto que tu me toca e eu te toco e a gente morre tudo junto sem problema?

Não é essa paz que tu queria?

Agora que a gente já chegou até aqui só precisa dar mais esse passo e cai junto, junto do pilar, prédio de concreto, reto e alto como todos os prédios e que machuca quando o chão vem até em cima.

Mas ele não quer que a gente pule, porque ele sempre surge quando tu pensa em pular e daí é sempre assim, até um dia que a gente pensa foda-se e pula mesmo com ele ali tentando nos segurar e daí acaba tudo e fica triste por que ele não queria pular contigo.

Ahmsterda

Num delírio da madrugada achei que a privada tivesse herpes e me encantei com esse pensamento bobo pra não sentar a bunda num lugar qualquer. Fiz pingar no chão pra fazer parte daquela poça amarelo incolor que já tava se acumulando desde o início da noite.

Dei risada, talvez fosse da maconha, talvez porque sou muito engraçado comigo mesmo, olhei pra poça denovo e pensei que aquela mesma poça podia estar no outro bar lá de Londres e naquele em Sidney e em todos esses lugares legais com bares.

E a bateria tava tão alta e ritmava a minha cabeça fazendo pressão pra expulsar meu cérebro pra fora. Mas aí minha risada alta tocou no meu ouvido e não doeu e de repente ficou tudo bem denovo.

Gemi

Eu tenho algo pra te dizer
e não é sobre tu mijar no jornal
nem sobre quando a gente tomou banho.

Tua verruga na boca me dá nojo.
Mas também não é isso.

Existe uma angústia.
Eu não sei como, nem porque.

Se a gente não tivesse comido. Se a gente não tivesse bebido, fumado, cheirado.
Se alguma coisa. Quem sabe eu fosse menos cão.

terça-feira, junho 01, 2010

Da fogueira do nosso alimento

Queima.

Queima tudo aqui dentro.

Não entendo como não enxergam quando cuspo fogo e meus olhos refletem labaredas.

Mentira. Também ignoro quando enxergo vocês com o mesmo fogo comendo por dentro.

E assim nos alimentamos uns dos outros.

Cansei de ser cínico

Depois de três meses e alguns dias, cansei.

Não tenho mais força pra bater pé nas minhas idéias, já abri mão de todas.

Cada dia fica mais claro, brutal e forte esse redemoinho. Me traga por inteiro, minha expressão magra, com a barba por fazer, os olhos cansados.

Algo lá no fundo ainda grita. E quanto mais fundo, maior o barulho. Me esforço pra conter esse demônio (se bem que me diz que demônio é aquele lá fora), porque ainda tenho medo do que acontece depois.

Mantenho essa atitude cínica. Bom dia, boa tarde e boa noite.

E toda palavra fere esse monstro que ruge.

sábado, maio 15, 2010

O brilho da lâmpada de freon

Na borda da xícara de café vazia,
a tarde virou noite que virou dia que virou

semana de alegria.

Performance

XXIX

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más.
Caminante, no hay camino
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se volverá a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
(Antonio Machado)

Em meus textos quero chocar o leitor, não deixar que ele repouse na bengala dos lugares-comuns, das expressões acostumadas e domesticadas. Quero obrigá-lo a sentir uma novidade nas palavras!
(João Guimarães Rosa)

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.
(José Saramago)

De noite, como
a luz é pouca,
a gente tem impressão
de que o tempo não passa
ou pelo menos não escorre
como escorre de dia
(Ferreira Gullar)

E nem entendo aquilo que entende: pois estou infinatamente maior que eu mesma, e não me alcanço.
(Clarice Lispector)

domingo, maio 09, 2010

mãe

Hoje saí para almoçar com a minha mãe, falei das coisas que tavam acontecendo na minha vida, ela falou das dela, fomos no cinema, assistir àquele "It's Complicated", engraçado, mas o mic não parava de entrar em quadro, o áudio tava ruim e não era projeção 16:9. Rimos muito no cinema também (antes, durante e depois do filme).

Quando coloquei minha mãe dentro do ônibus, ela me diz que "foi o melhor dia das mães que ela já teve".

Achei lindo. Também foi meu melhor dia das mães.

Recámaras

"La noche después de llover
trae miedos tranquilos, la fiebre
cierra lo abierto cada día.
El abandono tiene una
mujer que pide trabajo
con el cuello caído. No hay fiesta
ni rencor ni cama
doende ella hoy pueda dormir bajo
el esplendor del universo o
un salto verdadero de tigre.
Ella es una resignación.
Su voz carga un secreto
que nadie oye y sólo las
repeticiones del siglo conocen.
El final es igual al comienzo
con delirios de energía perdida
en vieja claridad."

(Mario Benedetti)

Hippie Chique

Os hippies chiques tomam licor na varanda de suas casas.

Os hippies chiques não se importam e não importam. A diferença que fazem é não fazer diferença.

Não são alienados; antes, são bem instruídos, tem quem leia Foucault. Que saiba três línguas, seja professor universitário, tenha doutorado no exterior.


O triste é que Tanto faz. Morrem sem saber por quê.

sábado, maio 08, 2010

Táctica y estrategia

"Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos

mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple
mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites."

(Mario Benedetti)

La Flor

"Tomé un pequeño florero de los de Talavera que me envió de regalo de cumpleaños mi mamá desde México.

Con terunura, introduje en él el tallo largo de la flor de aciano, prueba única de la existencia de Ofelia.

Me senté a contemplarla.

No quería que pasara un minuto sin que la flor me acompañara, de aquí al terrible momento de su propia muerte. Pues la flor de Ofelia prolongaba la vida de Ofelia.

La miré, fresca, azul, bella, esa noche y la siguiente.

Llevo meses mirándola.

La flor no se marchita."

(Carlos Fuentes - El amante del teatro)

B.B.

Teu corpo tá gravado no meu. Todo dia.

Se coloco a mão pra baixo, assim, é como se a tua estivesse ali esperando a minha.

É bonito. Não é perfeito no mundo oficial. E ninguém tem nada com isso.

quarta-feira, maio 05, 2010

Pendientes

"Formas de amor pendientes
del amor, ahogadas
por amor. Ese delito se paga
sin premeditación ni gloria
en los blancos de la desnudez,
en apetitos que florecen
como sonidos del último vuelo.
La inversión de la despedida
que viene y va como pájaro suelto
pide el fulgor de tu saliva fuera
de toda protección. El beso
es una conversación entre
lenguajes que cada uno persigue
ciego en las hierbas que
la noche deja crecer.
El amor de ser amado
nunca abandona su juventud.
Crece en un árbol de oro."

(Juan Gelman)

Combustão

A tua pele tinha um cheiro bom.
Os teus dentes tortos deixavam teu sorriso lindo.

Tinha uma aura de beleza ao teu redor. Exalada sozinha, não precisava se produzir durante horas, era natural.

E isso tudo sumiu. Tua aura agora é queimada e precisa de muito pra esconder esse cheiro e essa fuligem.

Once Upon A Time In The West

Assombração

Tem duas crianças no meu quarto.

Um rapaz gordinho, loiro, com gosto de doce. E uma menina mais velha, morena, também com gosto de doce. De noite gostam de abrir a porta do quarto e sair pra brincar no pátio. Riem durante a noite toda.

Quando durmo, gostam de puxar meu pé pra me assombrar. Puxam e saem correndo pela porta aberta.

Desde que cheguei aqui não me deixaram em paz. Não durmo a noite. Durmo de cansaço. Os sonhos são terríveis. Acordo suando e com esse gosto engraçado de criança na boca.

terça-feira, maio 04, 2010

Liberdade

Abriu a porta e respirou o ar molhado da rua.

Sentiu uma vontade imensa de correr.

Não deu um passo. Morreu ali mesmo, enfarte.

Palhaço

Do que tu tá fugindo, afinal?

Não adianta procurar. Ninguém vai e ninguém pode ajudar.
Vão te ajudar a esquecer.

A vida é puro esquecimento.

De que tá ali. Logo ali virando a curva. Por nada, por muito.

Morreu por que fumava. Por que andava na rua de noite. Por que decidiu sair de casa às três da tarde pra comprar revistas e levou um tiro. Morreu por que tava vivo.

E, enquanto vivo, esqueceu que vivia. E que viver é lembrar de morrer.

Esse papo todo me enche o saco. ENCHE.

Me faz esquecer mais do que já esqueci. Não tem objetivo. É ridículo.

Palhaço.

Babe I'm Gonna Leave You

El escenario

"Allí, recostado, sosegado, con las manos unidas en la nuca, me dije con toda sencillez que mi excitación - ¿mi arrobo? - era natural. ¿No había sido intensa mi relación con la muchacha vecina? ¿No era, precisamente, el amor nunca consumado el más ardiente de todos, el más condenado, también, por los Padres de la Iglesia porque inflamaba la pasión a temperaturas de pecado? Sabiduría eclesiática, esta que pontificaban los jesuitas en mi escuela mexicana: el sexo consumado apacigua primero, luego se vuelve costumbre y la costumbre engendra el tedio... Sus razones tendrían."

(Inquieta compañía - Carlos Fuentes)

segunda-feira, maio 03, 2010

Café da Manhã

Eu queria fazer a melhor torrada do mundo. Quando tu fosse comer outra torrada, não ia ser a mesma coisa e tu ia sentir falta da minha. Teria que voltar pra te fazer mais torradas.

Os tomates tinham um pingo de molho inglês. A alface vinha com um pouco de mostarda. Tudo bem de leve. Gostava do gosto desses molhos.

No começo tu gostava muito das torradas. Depois, quando voltei, já não deviam ter o mesmo sabor pra ti.

Agora quem sente falta das melhores torradas do mundo sou eu.
Queria tanto preparar pra ti. Mas também não teriam mais o mesmo sabor.

Não me dói, só faz falta. Quem sabe passa.

Infância

Era tão bom quando a gente corria com as fraldas na mão e parava no meio da rua pra dizer que se amava. E se beijava e teus lábios eram tão macios e tão vivos que quando tocavam os meus faziam meu coração disparar e bater tão forte e descompassado que ficava tonto.

Mr. Tambourine Man

Aquele

"Amor não é lógico, é uma questão de sorte. E o que acontece não tem volta. Que nem o tubo de pasta de dentes, depois que sai, não tem como pôr de volta. O tubo e a pasta nunca mais vão ser os mesmos. É assim no universo brutal violento indiferente."

(idéias tiradas daquele filme novo do woody allen)

segunda-feira, abril 26, 2010

Cinza

É tudo cinza.

O papel de parede, o céu, o dia, as cores, as pessoas, o amor, a tristeza, a raiva, o ódio, cinza.

Ele roubou todas as cores.

Por isso que o coração na calçada cada dia fica mais cinza. Qualquer dia desses de chuva não vai ter mais coração, vai ser só mais uma pedra acimentada junto de todas as outras. Cinza.

Dói.

Tristeza

Cansa, cansa muito.
O problema, é certo, não são os outros.

É sofrer em demasia. Tudo é motivo! Mesmo aquela ex, aquela de dois, três meses atrás, dá motivo quando transa com um qualquer, com uma nova paixão, seja o que for. O imposto de renda que agora é preciso pagar. Essa goteira que insiste em cair no meu colchão, mesmo depois de remendada.

E o tempo chove, se entristece comigo. Não busco mais consolo nos outros. Consolo pra quê? Aquela que já conhece fulano, já transou com fulano, o mesmo fulano que já transou com todas as outras, o mesmo que levou embora aquilo que parecia amor. E aquela outra... fácil, sem graça. Nem me desperta.

Dói. De noite, sozinho na cama, com a goteira molhando o colchão, dói. Ou num filme qualquer, numa noite qualquer, com uma qualquer. Sempre a mesma dor. Minha, só minha, ninguém me trouxe, ninguém disse que era aquilo que eu precisava, ninguém além de mim.

Sexo

A pele, coisa bonita, cala essa carne violenta.
E a carne cala o osso.
E o osso. O osso é o que sobra depois de tudo.

Portas

"Yo supe desde el primer momento que Estela era la portadora de una llave. No sabía entonces qué puerta iba a abrir, a dónde daría esa puerta, pero al menos en mi vida ese día había una puerta."

(Últimas Imágenes del Naufragio - Eliseo Subiela)

sábado, abril 24, 2010

Porca

Aquele teu cigarro impregnou o carro todo, levou tempo pra sair. Tua buceta manchou o banco de trás. Teus socos me deixaram roxo. E tu.

Me deu vontade de pegar esse teu cabelo e amassar tua cara contra o chão.

Agora não mais. Só me importo em esfregar buceta o suficiente pra tirar o gosto da tua.

Presentes

Presente é um processo.

É preciso pensar no presenteado. Nos gostos, nos interesses, no cheiro, na língua.
E depois não pensar.

E volta. É tão bonito. O presente vem nesse pensamento que volta.

Dia das Mães

Rebentou com tudo.
Depois que se livrou da placenta, do sangue, do suor, foi embora.

Não é possível conceber o homem essa dor. Uma parte de si, sim, de si, por que não estava lá antes, foi feita, criada, uma extensão do corpo, dentro do corpo. E assim, violentamente, se esforçando para sair, sai.

E depois da placenta, do sangue, do suor, foi embora. Tapas na bunda, graduação no colégio, vai morar sozinho, casa, se separa, vira gay. E a mãe cada vez mais distante dessa parte que foi embora.

Por que vocês filhos são tão cruéis? Não percebem como machucam a mãe de vocês saindo delas desse jeito? E como não amá-las, por deixar vocês irem e, não só, amar vocês com todas as forças? Elas, mais do que qualquer outro, são a extensão dos seus corpos!

Corpo Teimoso

Não quero dias azuis. Quero abrir os olhos e enxergar aquela luz dourada de pôr-de-sol entrando pelos fundos sem medo.

Tomar banho, beber, comer, virar essa luz.

Tenho que esperar, é o que dizem. Não é assim que funciona, dizem.

Eu faço funcionar. Sempre foi assim e sempre vai ser.

segunda-feira, abril 19, 2010

and you feel like you know me...

"thoughts racing through my head. feel like crashing. can't. long night behind but long day ahead. thinking about you for some reason but want it to end. feel like i know you so well but don't know you at all. this will all go away. i don't want to let go but i should. easier this way. better this way. this could have been amazing but it can't be anything. my luck huh? fall for someone who for all means and purposes really couldn't give a shit. you think you do. in all your self-righteous rants but really...you don't know who you are. so how can i understand you? how will you understand me? wish we could be friends but you know me. clean break. it was fun while it lasted."

De Scout (http://myalbion.blogspot.com/)

sábado, abril 17, 2010

Indignado

Tranquem os poetas dentro de suas casas!
Calem essas bocas!

Chega! Basta de mexerem dentro de mim.

Espantapájaros II

"(...)Ésta fue -y no otra- la razón de que me enamorase,
tan locamente, de María Luisa.
¿Qué me importaban sus labios por entregas y sus encelos sulfurosos?
¿Qué me importaban sus extremidades de palmípedo
y sus miradas de pronóstico reservado?
¡María Luisa era una verdadera pluma!
Desde el amanecer volaba del dormitorio a la cocina,
volaba del comedor a la despensa.
Volando me preparaba el baño, la camisa.
Volando realizaba sus compras, sus quehaceres...
¡Con qué impaciencia yo esperaba que volviese, volando,
de algún paseo por los alrededores!
Allí lejos, perdido entre las nubes, un puntito rosado.
"¡María Luisa! ¡María Luisa!"... y a los pocos segundos,
ya me abrazaba con sus piernas de pluma,
para llevarme, volando, a cualquier parte.
Durante kilómetros de silencio planeábamos una caricia
que nos aproximaba al paraíso;
durante horas enteras nos anidábamos en una nube,
como dos ángeles, y de repente,
en tirabuzón, en hoja muerta,
el aterrizaje forzoso de un espasmo.
¡Qué delicia la de tener una mujer tan ligera...,
aunque nos haga ver, de vez en cuando, las estrellas!
¡Que voluptuosidad la de pasarse los días entre las nubes...
la de pasarse las noches de un solo vuelo!
Después de conocer una mujer etérea,
¿puede brindarnos alguna clase de atractivos una mujer terrestre?
¿Verdad que no hay diferencia sustancial
entre vivir con una vaca o con una mujer
que tenga las nalgas a setenta y ocho centímetros del suelo?
Yo, por lo menos, soy incapaz de comprender
la seducción de una mujer pedestre,
y por más empeño que ponga en concebirlo,
no me es posible ni tan siquiera imaginar
que pueda hacerse el amor más que volando."

(Oliverio Girondo)

terça-feira, abril 13, 2010

Werther

04 de agosto

Não sou eu o único a lamentar. Todos os homens são ludibriados em suas esperanças, iludidos em suas expectativas. [...]

21 de agosto

Num piscar de olhos tudo se modifica em mim. Por vezes um doce clarão de vida que voltara a surgir e iluminar-me com uma vaga claridade, mas ah... ele dura apenas um momento! Quando me perco assim em sonhos, não posso expulsar esta idéia: ora, e se Alberto morresse! Tu virias... sim, ela viria a ser... E eu sigo a alucinação, até que ela me conduza ao abismo, à beira do qual me detenho e recuo a tremer.
Se desço em direção às portas da cidade, e me encontro naquele caminho que percorri de carruagem da primeira vez em que fui buscar Carlota para acompanhá-la ao baile, que transformação! Tudo, tudo desapareceu. Nenhum sinal do mundo que passou, e se foi... Até mesmo meu coração já não pulsa mais como pulsava antes. Sou como um espírito que volta ao seu castelo queimado e demolido, o mesmo que mandara construir e ornamentar com toda pompa e circunstância quando era um poderoso príncipe e depois deixou, cheio de esperança, ao filho muito amado quando estavas prestes a morrer.

03 de setembro

Às vezes não posso compreender como um outro pode amá-la, permite-se amá-la, ousa amá-la, quando eu a amo de maneira única, tão profunda, tão plena; quando nada conheço, nada sei, nada tenho senão a ela!

Goethe.

Do peso

Babe,

depois que você disse que não me queria mais, senti um alívio.
Fazia tanto tempo que queria te dizer a mesma coisa.

Claro que não dei a entender isso, tinha que fazer meu papel de magoado.

Mas foi tão bom. Obrigado por tomar essa decisão por nós.

Agora... não sei. Não sinto vontade de outra mulher.
Sinto muita vontade de estar sozinho.

Talvez vá pra floresta. Fazer aquela trilha do trem que você nunca vai fazer comigo.
Antes eu tinha medo de morrer lá, não sei. Tinha uma necessidade de estar vivo e garantir que você estaria bem, que nossos filhos teriam o que comer, onde viver.

Era esse peso. O peso de lhe carregar em cima de outros amores, dos meus amigos, da minha família. Te carreguei muito. E pesava o que eu ainda teria que lhe carregar, como quem olha pra cima da montanha e pensa que precisa percorrer tudo aquilo pra chegar no topo, bem, o peso fica mais pesado.

Agora é vazio. E me pesa a leveza.

segunda-feira, abril 12, 2010

Superstar

don't you remember you told me you love me baby
you said you'd be coming back this way again baby

domingo, abril 11, 2010

Sunday Morning

Amor II

Eu tive a mulher da minha vida e mandei embora. Desde então procuro justificativa.

Quem valia tanto a pena pra acabar assim?

E em toda mulher que procuro resposta, me responde "volta".

Só me digam como. Por favor.

sexta-feira, abril 09, 2010

Amar

Agora, onde você enxerga porto, enxergo só um mergulho. Se prende a respiração e vai até onde o pulmão agüenta. Não tem no que se segurar. Uma hora tem que voltar, é inevitável, é indispensável para continuar vivo.

A ilusão do porto é de quem vive pra morrer lá embaixo. Mergulham e nunca mais voltam, ficam presos nesse canto de sereia. Esses a gente olha daqui de cima, de fora d'água e fala "como ama!".

E sente medo. No fundo se quer morrer do mesmo jeito e isso assusta. Então é preciso se cercar de seguranças.
Uma boa família, dinheiro, saúde. Beleza, beijo, sexo.
Ciúme, poder, casamento.

Até não conseguir mais mergulhar de tanta bóia que se coloca no corpo. Aí se morre aqui em cima mesmo.

Adeus você

Tchau beijo bom, carícia no meio da noite, cafuné na sala da tv.
Vou sentir falta desse cheiro gostoso, daquelas pizzas de frigideira, até do teu cachorro chato.

Vou-me embora. Dá medo.
É uma sensação de sair do porto pra entrar no mar aberto.
Sem essa frescura de bússola, previsão do tempo, imagens por satélite. Só o barquinho monomotor, o anzol e a linha.

Não dá pra contar com a sua carência num dia de chuva, com o amor da outra, com a loucura dessa. Vem e vão. Vem e vão.

Assombrações

Balançou a cabeça bem forte, não queria pensar bobagem.
O pêlo do braço se arrepiou quando o pensamento veio denovo.

Tem quem diga que é assombração. Que no escuro do quarto, sentem a mesma coisa.

quinta-feira, abril 08, 2010

Citação do meu amigo Dado

Dado, vale uma citação.

Loucura

"O fermento que pôs minha vida em movimento, falta; o estímulo que me encorajava à noite já não existe, aquele que me despertava pela manhã se foi".

Agora já não preciso mais de fermento, estímulo. Tenho tudo nas minhas mãos.

Esmago. Faço uma caricatura da tua loucura, sempre nessa tentativa de fazer da minha.
Seguir por ela? E ir até onde? Já fui lá. Já voltei. Fui denovo. Voltei.

O que quero é simples, muito mais simples do que isso que tenho feito.
É só parar de me tocar pela minha e pelas tuas, vossas, loucuras.

segunda-feira, abril 05, 2010

Álcool II

Várias pessoas vieram me visitar e fiquei cansado.
Quis estar sozinho.

Ninguém entendeu. A única solução foi beber.

O tempo dos glaciares

Babe,

não quis te magoar. Mas tive que foder com aquela loira, tu sabe da minha queda por esse "tipinho". E vamos combinar que tu também não é santa, andou fudendo com meio mundo que eu sei.

Sabe que manchei todo teu piso de madeira com marca de camisinha.
O carro também tá cheio de secreção vaginal.

Acho que esse negócio de lugar "puro" foi pro saco, né?

Até por que vai saber quem tu não levou pra onde.

Mas agora que as coisas estão mais claras, que a única buceta é a tua, acho que podemos combinar de esquecer onde a minha e as tuas porra estão e sentir um mundo novo, né.

Tua buceta já me fez falta essa semana. Queria muito dar uma trepada e tu viajando. Mas resisti, não fui atrás daquela vagabunda.

Me sinto ridículo, porque tu deve ter ido atrás dos teus puto. Um dia ainda te trato como mulherzinha pra tu saber como me sinto.

Esqueci o que queria dizer nesse postal de merda. Que se foda. Meio mundo já deve tá lendo nossa vida.

Acho que a idéia principal é: gosto de foder contigo. Então chega dessa pica de tempo, volta pra cá e vamos trepar no chão da sala que nem tu gostava de fazer.

Das classificações do mundo feminino

Tem certas mulher que deixa o cara assim de pica dura só de roçar no ônibus, tá ligado?

E tem outras que brocham o cara só de chegar perto.

Então tem mulher que dura e mulher que brocha.

A primeira vez que me masturbaram

A gente acordou junto naquela cama grande, era grande pra nós, de casal.
Na verdade eram duas camas de solteiro juntas, assim nós três podíamos dormir com relativo conforto.

Não sei por que, acabei ficando no meio da cama. O que foi bom, no final.

Acordei contigo fazendo carícia em mim. Me senti extremamente envergonhado. Há quanto tempo será que estava de pau duro? Não sei. Mas tu não parava.

Me virei, envergonhado, pra baixo.
E tua perna continuou esfregando a minha, nesse frenesi erótico. Fui me enfiando entre as duas camas até abrir um buraco largo o suficiente para cair entre elas.
Então rolei por baixo da cama e fui para o banheiro.

Meu coração batia forte. Isso nunca tinha me acontecido antes.

Decidi tomar um banho. E bati punheta pensando em ti, prima.

Álcool

Essa garrafa de úisque, rédleibel.
Minha amiga, minha amante, minha puta.

Ela não se importa que eu bata, insulte, grite. Sempre me responde o que eu preciso ouvir, o som da minha embriaguez vindo de mansinho, adormecendo meu corpo, afogando esse sentimento ruim engasgado na garganta.

Dou risada. Agora, agora eu posso sair daqui.

terça-feira, março 30, 2010

A importância das histórias de janelas

Esse vento doido batia na janela querendo entrar a todo custo, mas a persiana não arredou pé.

Tinha algo frio, escuro, pegajoso, lá dentro.

O vento cansou de bater. Ninguém abriu.

segunda-feira, março 29, 2010

Inverno

A gente se sentou muito cansados naquelas cadeiras gastas pelo tempo e ficamos olhando o mar até amanhecer. Ninguém ia na praia naquela época do ano, era tudo tão vazio, calmo e bonito.

Fazia falta um cobertor e bati os dentes de frio.

Ninguém falou nada por muito tempo. Uma gaivota daquelas com penas muito brancas, voou até perto do quiosque e bicou algumas vezes no assoalho esburacado de madeira. Comentei algo sobre ela procurar comida ali embaixo. Não lembro direito o que tu disse, acho que era algo sobre gaivotas não fazerem esse tipo de coisas, que buscavam a comida no mar.

Tu gostava de me ensinar umas coisas. Era importante pra ti se sentir assim. Nunca comentei muito, queria alimentar esse teu sentimento, mas às vezes te deixava presunçosa.

No caminho de volta tu dormiu. Foi tão bom te levar pra casa dormindo. Era uma das primeiras vezes que experimentava essa sensação gostosa de confiança. Depois comecei a sentir mais e mais, em momentos bem diferentes. Mas obrigado por essa primeira vez.

quinta-feira, março 25, 2010

Doce

É só ilusão isso de compreender os outros.
Ninguém se entende, estamos todos perdidos patetas procurando fazer o outro nos ouvir. Besteira, ninguém tem tempo.
Nem sequer quer.

Querem tua atenção. Escuta, consegue, escutar os meus problemas, o que estou falando de verdade e não o que sai por essa boca suja cheia de porra? Claro que sim. Estou te ouvindo. Estou olhando nos teus olhos, mirando aquele brilho que reflete quando tu balança a cabeça daquele jeito. E tu me pergunta o que fico olhando pro teu rosto, meu deus, é tão lindo, tão lindo esse brilho no fundo do teu olho, que mesmo quando machuca, e machuca muito, eu quero continuar olhando, quero saber que existe alguém além de mim no mundo, que é possível compreender mais alguém além de mim, que existe diálogo, que existe amor, que existem sentimentos, que não sou eu e eu.

E tu me machuca dia após dia, vai, trepa com ele, janta com a família dele, dorme com ele, assiste filme com ele... e eu aqui chorando pra ninguém, sei que tu nem vai ligar, sei que tu acha que eu vou ficar super bem com isso denovo.

Eu queria ter a mesma certeza. De que posso ser o quão filho da puta puder e que tu vai continuar do meu lado, mas desculpa, não dá. Não. Eu sei que não dá. Tenho certeza. Tu já mostrou mais de uma vez.

Tenho que continuar pateta, idiota, mais bonzinho que a guria das chiquititas, sem te fazer mal. Por que no menor sinal tu vai embora. E isso só mostra o quão frágil e ridículo somos. Eu te dando tanto amor e tanta compreensão e tu exigindo nada menos que perfeição.

Quero que tu saiba: vai tomar no cu. No cu mesmo. Cansei de ser otário. Agora quero me vingar. Quero te fazer sangrar e vou fazer o possível pra isso. Quieto. Fingindo a tua amizade.

Tenha uma boa noite, doce.

quarta-feira, março 24, 2010

If I Fell

Sei lá

Ela tentou ser grossa, ser o mais brutal, o mais límpido, selvagem, possível.

Não conseguiu, óbvio.

Quando, ele se pergunta, vai se tocar do necessário. Da essência. Do Daime.
Nunca, pensa. É um pensamento raivoso, nunca, ora.
As pessoas mudam, conseguem crescer, viver.

Então vai, amor. Muda.

Eu sei do teu brilho no fundo do olho. E tu esconde.
Guarda no fundo do coração esse brilho. Qual é o teu problema, porra?
Que eu te fiz pra não me deixar tocar nisso?
Ou tu ainda pensa que te tocar vai te encolher?

terça-feira, março 23, 2010

Masturbação, um método de vida até 2012

Homem:

É possível atingir um nível mental razoavelmente saudável com a masturbação.

Problemas com traição? Masturbação neles!
Morte na família? Masturbação neles!
A pessoa não lhe dá bola? Masturba bem. Tira umas fotos dela. Rouba uma calcinha se puder.

Se bem que me ligo mais em meias. Todas têm aquela deliciosa consistência de seda na ponta, uma mancha amarelada, aquele cheiro de chulé, é, chulé. Tenho um par de meias de cada namorada que já tive. E não só namorada, essas trepadinhas esporádicas também.

"Tua meia deve estar suja, usa essa minha ó". E deixa a tua que eu lavo, guardo, devolvo depois. É tudo mentira, gente, a meia vai pro saco. No inverno é gostoso usar uma em volta das bolas, dá aquele quentinho agradável. Eu devia ser responsável por uma fábrica de meias para bolas, ia fazer grande sucesso e colaborar nos métodos contraceptivos.

E masturbação não significa chegar nos finalmentes sempre. Pode ser bem mais simples e empolgante, como ficar de pau duro dentro de um ônibus lotado. Ah, delícia esfregar o tico na bunda dessas mulheres do ônibus, às vezes num ombro desprotegido e santo.

Nesse sentido o verão foi uma grande invenção. Esse negócio de ficar pelado na praia e mar, meu deus, dá pra pintar o oceano de branco. Não dava pra fazer isso lá nos anos 50 com aqueles maiôs enormes. Aquilo era capaz de brochar um homem. Ainda bem que proibiram e agora temos peladas.

Pensando numa retrospectiva, teve várias coisas legais acontecendo. Acho que uma bem importante foi todo esse lance do feminismo, agora é tão mais fácil tratar a mulher que nem um objeto feito pra trepar - e ela nos tratar da mesma forma! Fora que abriu a possibilidade das mulheres pensarem e agirem como homens, então elas também estão prontas para a masturbação do século XXI.

Tem uma galera religiosa por aí dizendo que depois de comer a fruta aquela do jardim do éden, teve uma orgia generalizada, pessoal ficou trepando durante dias, meses e anos. Acho que não foi bem assim. Depois da fruta, começaram a bater punheta. E como nunca, NUNCA, tinham gozado, e isso fazia mais tipo uma eternidade, devem estar gozando até agora. Daí o fim do mundo, agora em 2012, é quando finalmente vai parar a ejaculação.

Isso pode significar vários lances. Tem um lado que diz estarmos prontos para conhecer outras pessoas agora que conhecemos a nós mesmos (pelo menos no que toca ao sexo). Outro diz que toda essa porra vai ser roubada por feministas, que através de um banco de espermas e um vírus mortal para o cromossomo Y, vão exterminar os homens restantes.

De qualquer forma, a masturbação acaba em 2012. Seja por não estarmos aqui ou por ter alguém pra fuder o tempo todo (por que se o cara leva uma eternidade pra gozar se masturbando, imagina trepando). Então vamos aproveitar até lá,

abraços brancos de um pinto masturbador.

Carta de Outro País

Querida,

todas essas coisas que eu disse foram pra te fazer melhor.
Não que tenham dado muito certo, afinal, tu seguiu o oposto de tudo que mandei fazer.

Continuo aqui te esperando. Tenho certeza que tu vai voltar.

Ô coisinha tão bonitinha do pai

sábado, março 20, 2010

Sobre deixar ir

Sempre comentei que o objetivo de se ter filhos era deixar eles irem embora.

Por causa da minha mãe, no começo. Sempre tão presa a mim, tão grudada, tão apaixonada. Só queria que ela largasse do meu pé.

Mas me dei conta: não se trata de ter filhos e deixar eles irem embora. É deixar tudo ir embora. A namorada, o gato, o trabalho, o dinheiro, os pais, os filhos, o carro, a casa, a cama, o postal, o gosto por roupas, o favorito do sorvete, a intransigência, os sentimentos, os pensamentos, a vida.

É difícil abandonar a esperança de que alguma dessas coisas é pra sempre, é durável, é confiável, mesmo que essa coisa seja eu mesmo. Vai chegar o fim da vida, na velhice, num acidente de carro, num ataque cardíaco, e vou me agarrar com todas as forças no que tiver ao meu alcance. E não vai adiantar.

Me dá vontade de sair correndo. Enxergar: estou me agarrando NISSO e correr muito rápido e pra bem longe. Pra que, pra me agarrar na corrida. Não vai adiantar também.

Então que seja bom. Agradável. Feliz. Enquanto dure.

sexta-feira, março 19, 2010

Perdão

Nesse sol amarelado da noite, a gente correu pelas ruas brincando.

Sem restrições. Até sangrar mesmo.

E daí, quando tu enxergou esse sangue todo, quis se despedir.

Não quis te deixar ir. Brigamos.

quarta-feira, março 17, 2010

Jesus Beethoven

Aposto que você não reparou que sempre deixava o lugar da janela pra ti. Não deve ter visto também quando fiquei encarando o chão. Não ouviu quando desviei meu pensamento daquilo. Quando fechei a porta.

Não.

Sou um filho da puta. E não Jesus Cristo.

terça-feira, março 16, 2010

La Donna è Mobile

La donna è mobile
qual piuma al vento
muta d'accento
e di pensiero

Sempre un'amabile
leggiadro viso
in pianto e in riso
è menzognero

La donna è mobil
qual piuma al vento
muta d'accento
e di pensier
e di pensier
e di pensier

È sempre misero
chi a lei s'affida
chi le confida
mal cauto il core

Pur mai non sentesi
felice appieno
chi su quel seno
non liba amore

La donna è mobil
qual piuma al vento
muta d'accento
e di pensier
e di pensier
e di pensier

segunda-feira, março 15, 2010

O olhar da Larissa

Youth

Não quero vocês ao meu redor. Isso não quer dizer que vocês homens deveriam se atrever, pelo amor de Deus, saiam de perto.


Só quero ficar só.
Não me atormentem. Do jeito que vocês fazem, vocês sabem que fazem.

domingo, março 14, 2010

N'antes

Sabe quando se sente aquela palavra que não existe?

É assim que me sinto quando tenho que te responder.
N'antes é.

A questão no agora é brutal. Não existe meio termo para o que preciso te dizer.
É direto, cru, sem se importar contigo.

sábado, março 13, 2010

Vazio

Às vezes é tão horrível estar sozinho que me dá
vontade

de chorar.

Esboço

As paredes vazias, o teto sem lâmpadas, a cozinha sozinha,

o banheiro super ocupado, vaso, pia, chuveiro.

terça-feira, março 09, 2010

Do meu carpete verde

Embaixo do carpete existem tábuas antigas de madeira.

Não lembro mais delas, se é que posso.

Tinha meus bonecos de um lado, o Black Kamen Rider, ou seja lá como se escreve, era um dos favoritos. Perto deles tinha uma televisão, passei algumas noites assistindo à "Praça é nossa".

Meu pai, ao contrário da minha mãe, não gostava muito de contar histórias, talvez daí essa programação. E não sabia coçar minhas costas, era daqueles que usava só as pontas dos dedos, sem as unhas.

Uma vez pediu que eu contasse uma história (sempre pedia uma pra ele, apesar dele nunca contar - e não quero mentir, é verdade que quando a história estava num livro, até dava uma lida e improvisava umas vozes, mas quando se tratava de inventar algo novo...) e fui contando, conforme minha mãe me ensinou a contar histórias.

Dormiu.

É uma história boa, fez o papel de adormecer.
E é uma péssima história, não foi capaz de manter meu pai acordado até o fim, que nem minha mãe sempre fez comigo.

segunda-feira, março 08, 2010

Cheiro

Quero, como quero, lembrar dele.
E do teu.
E da tua.
E do jeito que. Quando.

Bento Gonçalves

Foi dia de reinventar.
Me senti limpo.

Agora fico triste de pensar em voltar ao ar sujo de Porto Alegre.

sábado, março 06, 2010

Gabriela II

Mas que porra, sabe.

Gabriela

Escuta: queria não sentir.

Não é um desejo verdadeiro - por que preciso sentir, preciso provar que dói.

Mas, superficialmente, queria mesmo.
Ser capaz de ignorar, assim como todas as outras, você.

Acontece, maravilhosamente, que não sei fazer isso. Não sei colocar essa parede, que nem você, entre nós. Não sei não deixar você tocar em mim.

Claro, logo quem fui escolher, os amigos e os pais já me disseram com quem estou. Que estupidez. Mas estou satisfeito de ter escolhido a si.

Me sinto completo quando diz que não me quer. Finalmente, depois de tanto tempo, consigo chorar por alguém. Sentir dor de cabeça de tanta lágrima que resvala pelo canto dos olhos. E lhe enxergo toda vez que me miro no espelho. Que converso sozinho no banheiro, aliás, não sozinho, consigo.

Me diz que tem certeza, mesmo com tanto amor. Me mata, vai, diz.

sexta-feira, março 05, 2010

Laços

"Eles estão jogando o jogo deles.
Eles estão jogando o jogo de não jogar um jogo.
Se eu lhes mostrar que os vejo tal qual eles estão,
quebrarei as regras do seu jogo
e receberei a sua punição.
O que eu devo, pois, é jogar o jogo deles,
o jogo de não ver o jogo que eles jogam"

R.D. Laing

Roda Viva

quinta-feira, março 04, 2010

Avant La Haine

"Sais-tu ma belle que les amours
Les plus brillantes ternissent
Le sale soleil du jour le jour
Les soumet au suplice
J'ai une idée inattaquable
Pour éviter l'insupportable
Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout
Brisons-là s'il te plait
Mais je t'embrasse et ça passe
Tu vois bien
On s'débarrasse pas de moi comme ça
Tu croyais pouvoir t'en sortir
En me quittant sur l'air
Du grand amour qui doit mourir
Mais vois-tu je préfère
Les tempêtes de l'inéluctable
A ta petite idée minable
Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout
Brisons-là dis-tu
Mais tu m'embrasses et ça passe
Je vois bien
On s'débarrasse pas de toi comme ça
Je pourrais t'éviter le pire
Mais le meilleur est à venir
Avant la haine, avant les coups
De sifflet ou de fouet
Avant la peine et le dégout"

Canto IX

O RELATO DE ODISSEU

CÍCONOS, LOTÓFAGOS E O CICLOPE

(trecho)

"Por nove dias dali me levaram os ventos funestos,
por sobre o oceano piscoso; somente no décimo à terra
nos foi possível descer dos Lotófagos que comem flores.
Nessa paragem descemos, a fim de fazermos aguada.
A refeição junto às naves velozes os sócios fizeram.
Mas, tendo assim, a vontade da fome e da sede saciado,
sócios escolho e os envio, com o fim de notícias obterem,
sobre que gente aí morava, e se vive de pão, como todos,
tendo escolhido dois homens e o arauto, o terceiro, por sócio.
Ei-los que vão, sem demora, e se mesclam aos homens lotófagos.
Esses Lotófagos não empreenderam fazer nenhum dano
aos nossos homens, mas logo fizeram que loto comessem.
Quem quer que viesse a provar uma vez desse fruto gostoso
nunca a resposta haveria trazer, nem de novo empregar-se;
desejaria, isso sim, morar sempre com os homens lotófagos,
a comer loto somente, esquecido, de vez, do retorno.
Mas, apesar de suas lágrimas, trouxe-os à força, de novo,
para as naus côncavas, onde os atei sob os bancos dos remos,
tendo, em seguida, ordenado aos queridos consócios de viagem
que para as céleres naves, sem perda de tempo, subissem.
Não fosse a alguém esquecer o retorno por causa do loto.
Sobem, por isso, os demais para bordo e se sentam nos bancos,
todos em ordem, batendo com os remos nas ondas grisalhas.
O coração apertado, vogamos daí para diante."

Odisséia - Homero

Chan Chan

quarta-feira, março 03, 2010

Desaparecendo

Queria me esconder atrás das palavras, dar uma forma bonita para todo essa dor que insiste em viver dentro de mim.

Mas tudo que faço é beber, tentando amenizar, apagar.

E tudo que consigo é sumir cada vez mais de mim.

segunda-feira, março 01, 2010

Linhas

Começou com a falta dos teus lábios molhados entre os meus e foi se espalhando pelo resto do corpo. Não demorou muito para chegar nas extremidades, entre os dedos dos meus pés e das minhas mãos.

Meu corpo pulsava, pleno, pela tua carícia, teu toque, teu cheiro, tua sensação.

Guiado por isso te visitei. Nosso bom-dia foi formal, um leve aceno da cabeça e umas palavras mal formuladas nas bocas. Imediatamente senti um cansaço. Não queria batalhar por algo que já era meu, queria ter a certeza de te chegar com a boca sedenta e nos jogarmos numa espiral de prazer até o fim da noite.

O ar ao teu redor se modificou, pareceu mais seco, teus lábios e teus olhos de súbito ficaram levemente roxos, tua expressão mais séria. Óbvio que sentias o mesmo.

Fomos para dentro da casa. Comentários vagos sobre o dia, não quero água, obrigado, sentei no sofá, enquanto te arrumavas no banheiro. A TV queimada. Olhei o aparelho da cabo ligado, canal 46. Não senti vontade de me levantar mais. Algo me dizia que devia desligar teu aparelho, não era certo isso de ficar ligado se nem podia funcionar. Apoiei a cabeça no encosto do sofá e fechei um dos olhos.

Fechei um dos olhos para descansar. Fiquei observando a mudança na perspectiva dos móveis, enquanto te sentavas logo à minha frente. Culpa do cansaço que sentira antes, comecei a sentir mudanças em ti, físicas.

Era difícil focalizar algo que não teu rosto e, ao mesmo tempo, parecia que ele se afastava cada vez mais. Reparei que não sentia mais o sofá abaixo. Se mesclara ao meu corpo, numa sensação quase prazerosa. Meu rosto adquiria linhas fortes, costuravam minha boca, meu nariz, meus ouvidos, meu cabelo, me puxando para junto do sofá.

Como a tua falta, teu sofá me sugou e logo sentia linhas trespassando meu corpo inteiro. Deixei de ouvir teu assunto, de sentir teu cheiro excitante na sala, de sentir meu pênis duro dentro da calça. Cada um dos sentidos me faltou, exceto os olhos.

Ainda te enxergava. Vaga, quase desfocada, distante, mas ali.

Depois de um tempo levantaste, parecia que tinha se dado conta de alguma coisa e saiu da sala. Restou uma mobília marrom desfocado e o cansaço e o prazer.

Só fechei meu outro olho.

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

(19)69

In 1968 Gainsbourg had written "Je t'aime, moi non plus", an explicitly erotic song which he had recorded with Brigitte Bardot. After the pair's relationship had ended, Bardot begged Gainsbourg not to release the recording as a single and Gainsbourg, the perfect gentleman, respected her wishes. However, in 1969 Jane recorded the notorious song as a duet with Gainsbourg and it appeared on the pair's joint album "Jane Birkin Serge Gainsbourg".

Tututa

Talvez houvesse algo errado com ele, não sei, aquele jeito de ficar encarando um ponto fixo enquanto a gente caminhava sempre me passou algo ruim.

Sabe, quando ele fazia isso, parecia muito sério, brabo até.
Dizia que era bobagem da minha cabeça, que só tava pensando - eram sempre coisas estranhas: o trem da Björk, um campo verde com chuva caindo nos olhos, um ferro de passar roupa antigo - e voltava como se aquilo nunca tivesse acontecido.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Espantapájaros

"No se me importa un pito que las mujeres
tengan los senos como magnolias o como pasas de higo;
un cutis de durazno o de papel de lija.
Le doy una importancia igual a cero,
al hecho de que amanezcan con un aliento afrodisíaco
o con un aliento insecticida.
Soy perfectamente capaz de soportarles
una nariz que sacaría el primer premio
en una exposición de zanahorias;
¡pero eso sí! -y en esto soy irreductible

- no les perdono, bajo ningún pretexto, que no sepan volar.
Si no saben volar ¡pierden el tiempo comigo(...)!"
(Oliverio Girondo)

sexta-feira, fevereiro 12, 2010

Os negros

Os negros na rua, no buteco, enfim, onde.

Da minha insônia

Não quero que tu penses que precisas preencher essas duas páginas de folha em branco,
não quero que tu penses que precisas preencher esses 20 anos de coração em branco,
não quero que tu penses que precisas preencher esses 40 anos sem meus pais.

Tu não tens que preencher nada, tu quase não precisas existir.

Só preciso de ti ao sustentar que existe algo além de mim mesmo e que não é uma onda solitária, depressiva, afogativa (se é que existe); estou sozinho, verdade.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

Um homem muito bom

"Era uma vez um homem muito bom
que gostava de desenhar com giz-de-cera.
Então um dia resolveu mudar e fazer
tudo que queria era um pouco de
café. Foi até os confins do universo bus-
cando por muitos lugares. Mas era Natal,
então um marciano veio até ele e
disse: Ho-Ho-Ho! Isso deixou tudo
mais claro, pois a lâmpada era de 60W
e não podia deixar de comprar seu
café."

sábado, fevereiro 06, 2010

Angústia

Quero não-sei-o-que de ti; preciso de te tirar um pedaço, te esfolar, te escalpelar até.

Tenho vontade de gritar, de xingar, de espernear, de serenar, de me acalmar, de não-sei-o-que.

Tenho ânsia; estou pra vomitar. Quero te resolver, me resolver, resolver o mundo.
E não quero também. Quero um não-sei-o-que.

Brilho

O meu brilho se esconde lá
onde enterraram meu coração,
fica junto do rio, na curva,
onde a água passa forte.

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Inacabado

Gosto quando tu fazes a barba com tanto cuidado, mas sempre descuida no canto dos lábios ou na dobra do teu queixo.

Gosto da tua lareira, de tanto trepar na frente dela teu cheiro se mesclou na lenha, no fogo, até naquele ferro retorcido que tu usavas pra mexer e hoje tu não existes na minha memória sem um pedaço disso.

Eu queria continuar até amanhã falando de ti; mas não posso.

Tua vida se separou da minha e agora preciso ficar só.

Só no meio desses putos e putas, derramando teu vinho caro no chão e chorando, chorando, chorando de RAIVA talvez, mas depois tristeza.

Dessa falta que tu me fez.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Estupidez

Me incomoda essa tua falta de tato sua puta estúpida.

Quero chegar e escarrar na tua cara, ter liberdade de te socar no beiço, fazer voar dente e sangue.

Não quero olhar na tua cara.
Não te quero perto da minha irmã.
Não te quero perto do meu pai.

Um dia toda essa tua criancice que meu pai comprou de ti vai te comer o cu.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

O Castelo

"- Não, disse K., - não havemos de nos confundir; eu, com todos os meus pensamentos, ainda estava muito longe de ter chegado onde a senhora supõe, se bem que, a dizer a verdade, para ali me encaminhasse, Mas, no momento, apenas estranhava o fato de que a parentela de Hans esperasse tanto dêsse matrimônio, e que tais esperanças ficassem efetivamente cumpridas, embora, isso não se pode negar, pondo a senhora em jôgo seu coração e sua saúde. A conexão dêsses fatos com Klamm impunha-se, certamente, em minhas reflexões, mas não - ou ainda não - na forma grosseira em que a senhora a apresenta, com o único fito sem dúvida de poder execrar-me ainda uma vez, já que isto lhe dá prazer. Seja, tenha a senhora seu prazer! Mas meu pensamento foi êste: de imediato, é Klamm, segundo pode se ver muito bem, o motivo dêsse casamento. Sem Klamm, a senhora não se sentiria infeliz, não permaneceria sentada, inativa, no jardinzinho; sem Klamm, não teria visto ali Hans; sem essa tristeza sua, o tímido Hans jamais se teria atrevido a falar-lhe; sem Klamm, nunca se teriam encontrado a senhora e Hans no pranto comum; sem Klamm, êsse velho e bom tio estalajadeiro jamais os teria visto a Hans e à senhora pacificamente unidos ali; a não ser por Klamm, não teria sentido a senhora essa indiferença diante da vida, de modo que não se teria casado com Hans. Já vê, em tudo isto há Klamm demais, ao menos êste é meu parecer. Mas a coisa ainda continua. A não ter procurado a senhora êste esquecimento, sem dúvida não teria trabalhado tão desmedidamente para consigo mesmo, e não teria conduzido esta estalagem a um esplendor semelhante. Também por aí anda, pois, Klamm. Mas Klamm é também, tudo isto à parte, a causa de sua enfermidade, pois seu coração já estava esgotado mesmo antes de seu casamento, devido a essa infeliz paixão. Fica, portanto, tão-sòmente, a questão a respeito de que era o que tanto seduzia os parentes de Hans, com respeito a êste casamento. A senhora mesma afirmou que implica uma irrevogável elevação de posição o fato de ser amante de Klamm; nem, será talvez isto o que tanto os atraía. Mas creio que foi, além do mais, a esperança de que a boa estrêla que a conduziu até Klamm - supondo-se que fôsse uma boa estrêla, já que a senhora assim o afirma - formava parte integrante da senhora, isto é, que à força seguiria acompanhando-a, e não a abandonaria talvez tão depressa e tão sùbitamente como Klamm.

- O senhor diz tudo isto sèriamente, - perguntou a estalajadeira.

- Sèriamente, está claro, - disse K. rápido; - apenas acredito que a parentela de Hans nem teve plenamente razão ao alimentar suas esperanças, nem deixou de tê-la, e creio descobrir também o êrro que cometeu. Exteriormente, tudo parece alcançado, por certo: Hans está em boas mãos, tem uma mulher disposta, tem prestígio, a estalagem está livre de dívidas. Mas na verdade nem tudo está alcançado; teria chegado a ser muito mais feliz, sem dúvida, com uma môça simples, à qual êle poderia ter inspirado um grande amor; e se, coisa que a senhora lhe censura, fica às vezes parado e como perdido em meio do salão, isto acontece porque realmente êle aí se sente perdido - sem que por isso chegue a se sentir infeliz, isso é certo, até êsse ponto já o conheço - mas é igualmente certo que êste rapaz bem simpático, compreensivo, teria chegado a ser mais feliz com outra mulher; com o que quero dizer ao mesmo tempo: mais independente, mais aplicado, mais varonil. E a senhora mesma não é também feliz, que dúvida pode-se ter? E como já disse antes, sem essas três recordações não queria continuar vivendo; e além do mais é cardíaca. Não teve, pois, razão a parentela com suas esperanças? Creio que sim, teve-a. A benção estava com a senhora, estava suspensa sôbre a senhora, mas êles não souberam fazê-la descer.

- E que descuidaram? - perguntou a estalajadeira. Jazia novamente prostrada de costas, e olhava para o teto.

- Perguntar a Klamm - disse K."

Franz Kafka
Tradução de Torrieri Guimarães.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Segurança

As trancas na porta lhe falavam do medo. Não de que alguém entrasse, isso seria ridículo, é claro; mas de que saíssem.

Nada poderia ser pior que perder o filho amado por virtude de sua própria vontade. Lhe perguntaria o que havia de tão errado no modo que lhe destinavam seu maior sentimento.

Não haveria necessidade de resposta, uma vez compreendida a situação estabelecida. Lhes fugia e fugiria em cada uma das crianças que nascesse, isto era óbvio, não a ele, mas a eles; seu constante aprimoramento de trancas, através dos seus diplomas, do seu sustento, da sua responsabilidade, de nada adiantavam a não ser para evidenciar a verdade da fuga.

O que pensava ele, então? Uma vez reconhecida a tranca e a verdade que lhe ocultavam, o que haveria de ser feito?

Não havia possibilidade de proceder à outra maneira? Poderia tentar se resignar, aceitar sua condição de claustro; seria como havia procedido até então, com a diferença de agora reconhecê-lo.

Porém, agora se dava conta, a fuga não era física, assim como a tranca na porta também não o era; já lhes tinha fugido, por mais que tentasse agir como outrora e o fizesse de forma tão fiel a ponto de todos lhe reconhecerem, havia agora uma ruptura no seu íntimo, que lograria escapar em qualquer momento de desaviso.

Pois, então, o único remédio seria aceitar sua condição. Sentia, agora, de forma absoluta, que sua fuga não podia ser supérflua, devia tratá-la da mais profunda raiz de si, reconhecendo que a tranca não fora colocada apenas por seu pai, senão com sua força e consentimento.

Ora, seria impossível uma fuga apenas aparente, uma vez que operava a níveis tão profundos que estremecia ao senti-la, como se um passo em falso pudesse forçá-lo a uma existência fora de si, como se fizesse seu corpo vagar a esmo, esperando que lhe tomassem a vida e sentindo um fracasso patético.

Vento

O vento falou ao ouvido do cata-vento com muito rancor:

Larga da tua grandeza, porque eu ainda hei de achar pás maiores que as tuas, engrenagens melhores, amores mais puros.

E assim foi.

Até hoje quando chego à beira do mar e sinto o vento ora violento, ora muito calmo, percebo que não fui eu o único que se sagrou do sabor dele; muito diferente, foram todos visitados e com ninguém se contentou.

Ora, que coisa mais burra, buscar a perfeição.

Quando vovó morrer

Uma dor aguda no ouvido direito dobrou os joelhos da velha matriarca; caíra, sem som para si, em cima da laje vermelha que sempre tivera medo nos dias de chuva.

Os cabelos passaram a transmitir uma sensação molhada e, enquanto levava a mão lentamente à cabeça, focou o olhar numa pequena esteira de plástico; crescia nela os maracujás, e que deles se faziam doces e aromatizavam a casa já se é sabido, muito mais interessante naquele momento foi a revelação da flor que crescia entre os vãos da esteira.

Por acaso lembrou de quando fizera dezoito, com uma sensação rápida, súbita, de saudade da energia que a vida tinha e que agora se esvaía, docemente, através dos então melados dedos de sangue. O bolo, preparado naquele mesmo dia, tinha um cheiro forte; riu, daquele que trocara a canela por noz-moscada, fora doce com ele, lhe sorrira, afagara a face, aquela bochecha então rosada com poros tão grandes e resquícios de uma barba mal conduzida.

Talvez como a vida, lhe sobrava amor àquela época, numa entrega que prometera, por que, óbvio, assim lhe parecera, ser eterna.

Sentia o cheiro da noz-moscada, tão forte, tão forte, e aquela sensação de calor por entre os cabelos escassos principiara a invasão do resto do corpo, aquecendo todo o tato que lhe restara nessa idade já tão avançada, e, por mais que soubesse do desespero dos familiares gritando e correndo para lhe acudir, por mais que soubesse da carícia que a morte lhe fazia com o seu calor, não tirava, e jamais tiraria, os olhos daquela flor, porque era a mesma, a mesma flor que um dia recebera de coração tão aberto de um gurizinho coradinho, que agora lhe parecia esperar, denovo, com o sentimento na mão.

Feliz Aniversário

Faria anos dali uns meses, juntaria, jantaria com a família numa celebração sem sentido.

Não dava importância até ali, até o que ainda estava por passar. Talvez fosse efeito do ácido lisérgico já tocando a profundidade da porta que o Caetano, não mais aquele coelho simpático, mostrava.

Depois de afundar porta adentro, não haveria opção de não fazer sentido; tudo, até o escuro da noite, faria parte de si, seria expressão do seu sofrimento.

Que a vida se fazia em sofrimento já se tornara cônscio; o que lhe escapava ainda era da vida SER sofrimento. Essa afirmação final, que só atingiria numa entrega completa e sem esperança, serviria como antídoto.

domingo, janeiro 31, 2010

Livre

Pronto, me livrei de todas tuas coisas.

Joguei FORA todas aquelas cartas de amor, TODAS as fotos que tu tiraste, até aqueles cartões postais que eu cheguei a gostar tanto... foram rasgados, queimados, esvaziados.

Agora está tudo limpo, sem mais esses sentimentos ridículos.

Tudo ridículo, é assim que me senti quando decidi te limpar da minha vida. Como se tivesse perdido o propósito e toda essa dor fosse ridícula. Pensar em morrer, correr atrás, limpar o prato com o guardanapo, me alongar quinze vezes antes de sair do banho, tudo isso, toda essa obsessão se desencontrou, descarrilhou em cima de um resto de fígado.

Agora, finalmente liberto de ti, posso fazer minhas próprias manias, me tornar denovo sozinho, sem me entregar, sem confiar, sem me sentir ridículo.

E a primeira coisa que meu corpo pede nessa manhã de calor insuportável é viagem. Deixar pra bem, bem, bem longe vocês. Não me interessa saber da tua paixão por um cara quarenta anos mais novo, não quero ouvir teu problema de hospedagem, não quero saber da tua relação com a minha amiga que não lembra o nome, não quero encostar nesse gênio ruim que se apoderou de ti quando deitei na cama.

Só quero tomar meu ácido e viajar até o Rio de Janeiro, andar por copacabana, as praias do leblon, visitar a orla de Miami, bater uma punheta olhando a prostituta em Amsterdã, ficar impressionado com a quantidade de cores da plantação de pimenta na China, enfim, passar da parede.

Amanhã, ou talvez depois de amanhã, vou ter ido tão longe sem me mexer, que vou ter atravessado essa primeira parede, vou me sentir como aqueles corredores dando depoimentos ridículos pra TV: "Chega uma hora que você bate numa parede, ali é só tua força de vontade que pode te empurrar pra frente e te fazer vencer a corrida"; é isso, vencer a corrida, chegar no estádio campeão, marcar gol, credo, nem quero pensar que ainda faltam sete metros pra essa barreira.

E todo mundo me tem como favorito, vai lá campeão, certo, como se eu não fosse parar na frente da parede e chorar como uma criança, me sentir tão ridículo como daquela vez na 1a série que mijei as calças.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Na esquina que mora meu sentimento

Meu amor é um gato preto que me espera na porta de casa todo dia.

Quando chego bêbado, tudo que ele faz tem sentido.

Se me vira a bunda e nem fala comigo ou se vem ronronando ao redor das minhas pernas, é sempre cheio de significado.

domingo, janeiro 24, 2010

A respeito da tranqüilidade

O sol respirou entre a copa das árvores pela primeira vez, o verde das folhas borbulhando de felicidade em receber essa lufada de ar quente. Até que, entre o chão e a copa das árvores, refletiram sobre tudo.

E foi desse jeito mudo que impressionaram os transeuntes, que pararam numa grande contemplação sobre o mistério que aquelas folhas já não tão verdes tinham resolvido.

Queriam saber como conseguiam ser tão tranqüilas, não se perdiam em lamúrias, simplesmente se jogavam em direção do vazio, sem se prender mais a nada. E todos, mantendo a atmosfera muda, se curvaram em reverência.

Vera

Cada vez sinto menos frio quando penso no que aconteceu.
E aproveito mais o sol batendo na janela, as flores caindo, o cheiro do pão quentinho, o café sem borra, esse dia tão bonito que me nasceu.

Ainda é fresco o sofrimento que impliquei e de tão fresco é violento. Me atormenta, me faz lágrimas, mas já me deixa nascer o dia.

Queria ter uma forma de dizer que não precisa de tanto; mas precisa e muito.
Acho que se a gente não sentisse, não teria sentido, não só o que passou, mas tudo isso que é a vida.

sábado, janeiro 23, 2010

Sobre esquecer

A bebida não foi feita pra acompanhar vocês em festas, deixar o corpo solto, a conversa leve. Não.

Foi feita com a clara intenção de suicídio.
Se bebe pra matar uma parte de si; deixar a vida com um slot livre, pronta pra ser preenchida por algo rápido no meio da noite. Leve e fútil.

E.T.

Um brinco

O cachecol continua ali, com um pouco do teu cheiro. Os livros e as calças parecem dizer quem tu é. E o amor se partiu em duas metades desiguais.

Hoje é quase como se o sofrimento fosse diferente, tua metade pesando tão mais, te puxando tão.. forte.

Daqui uns anos vai restar pouca coisa, como um brinco quebrado numa gaveta. Mas todo o sofrimento vai fazer sentido; o amor não foi embora com facilidade, foi se agarrando em tudo pelo caminho. E te puxou as entranhas até rearranjar tudo de forma completamente diferente da que estava antes.

Amassada pelo namorado

Foi embora sem deixar nada. Quase nada.

Deixou uma camiseta com um cheiro maravilhoso.

Que durasse pouco mais de três dias, pouco importa; o forte é o sofrimento da camiseta que restou de noite tão intensa.

Ganas

Queria tua marca de cigarro no meu braço pra sempre, pra companhia.
Pra correr atrás de ti por um gosto na tua boca; salgado, de quem fuma.

Eu não tenho saudade, tenho necessidade de ti.
Me mostra o mundo feito de beijos transbordando sentimentos.
Denovo.

Faz me sentir menos só no meio de tanta gente puta.

Por favor?

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel

Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel.
Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel.
Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel.
Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel.
Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel.

A vontade toda é só repetir e repetir o que já disse ontem e anteontem e repetir pra não esquecer de repetir amanhã.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Ultimamente o que me faz levantar todo o dia,
não são as mulheres na rua, na tv ou na minha casa
não são os amores perdidos, refeitos ou ainda por vir
não é meu trabalho
não é.

É essa vontade, insaciável, de escrever.
Me é a única alegria nesses dias tão escuros.
Só, sou só. E, só, não me decepciono.

Não é preciso pagar, controlar, vigiar, atender, se portar, fingir, atuar, voltar, refazer, implorar.
Não há direções. Nem vontades. Nem nada.

Só estar só e isso basta.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

domingo, janeiro 10, 2010

Saudade

Hoje ela perdeu o trem e chorou com tanta vontade.
Que toda a estação ficou com um desejo secreto
de também poder chorar assim.

Pensaram em toda gente que já não é o que era antes; tentaram.
Mas faz tempo que secaram as lágrimas,

tudo que resta é a saudade de um sentimento
esquecido, guardado, no fundo da gaveta de um armário
da casa da vó, quando
crianças.

Desconhecido

Nesse exato momento tem alguém por aí fingindo que sou eu.
Não me preocupa; me incomoda mais
tanta mentira, tanta maldade,

saindo pela minha boca,
com a maior sinceridade.

Queria fingir alguém que falasse das próprias verdades.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Especulação

Marta tem vinte anos, secretamente acredita no amor, mas se porta que nem uma vadia.
Já ouviu de onze pessoas "eu te amo". E não se importa, tem sede de sentimentos. Necessita de sentimentos.

Precisa preencher o vazio. Quando não está ouvindo "eu te amo", procura encher a cara dentro de caixas pretas (bem, fora das caixas e depois dentro).

Gosta de homem, mulher e o que tiver pela frente. Até agora só transou com homens, apesar de ter muita curiosidade.

Curte violência. Pensa com freqüência nas colegas sendo torturadas; mas jamais faria algo com elas. E violência só com os outros, não gosta de apanhar (no sexo), mas gosta de bater. Quer dar um soco em alguém um dia (no sexo).

Conheceu um homem peludo semana passada e se apaixonou. Não sabe dizer por quê, acha que é um instinto primitivo. Eu acho um nojo.

Vão sair essa semana denovo. Criou muita expectativa, vai se frustar.

Não, parece que ele surpreendeu de um jeito positivo. Difícil. Talvez seja o pênis.

Hoje faz três anos que saíram juntos da caixa preta. Fico pensando se vão ter filhos. Ele quer. Se tiverem uma menina, vai ser uma pena. Já escuto os coleguinhas chamando ela de lobisomem. A Marta iria engordar, certamente. Já tá meio gorda. De uns tempos pra cá, parou de se preocupar com a aparência. Ele vai ficar gordo com o tempo. Vai ser engraçado quando for velhinho, todo aquele pêlo branco e a barriga sem nada. Como um daqueles orangotangos de filme ruim da sessão da tarde.

Nunca mais perguntei sobre o vazio dela; não consegui. Acho que ela pensa ainda sobre isso, na fila do supermercado. Toda aquela variedade de produtos e ela só pode levar o que o dinheiro permite. É a filosofia besta da vida dela.

Às vezes tenho vontade de invadir a casa deles e me comportar que nem um animal, quebrando coisas, fazendo barulho de macaco. Já estão acostumados com o que mostro pra eles; o único jeito de me libertar dessa prisão que é a expectativa em cima de mim... é me portando de uma forma não racional, não linear, instintiva, bestial.

Nunca mais foram os mesmos depois. Ficaram acuados. Não falam direito comigo. Não se tem o que esperar de alguém que, a qualquer momento, pode se transformar na miniatura do King Kong.

Meu amor por você

Ir até tua casa, trespassar tudo isso. Pular de uma vez.
Sem rodeios, sem flerte, sem nada. A gente já sabe no que vai dar.

Nos consumiremos rapidamente, com muita paixão. Seria o melhor sexo. E único.

Não poderíamos nos encontrar mais. Nem conversar. Nada.

O ideal seria nos mudarmos pra lados diferentes.

Teríamos a lembrança de um perfeito entendimento entre duas pessoas e então poderíamos começar do zero, sempre. Se entregar completamente e fazer tudo que nos é incontrolável funcionar.

O único problema seria acreditar na nossa mentira, de não saber por que.