sábado, setembro 18, 2021

Respostas

Não suporto mais acompanhar a vida dos outros.

Quem me dera me livrar do celular e poder conhecer as pessoas de verdade novamente.


Mas estamos em 2021 e fomos dominados. Sou da geração que viu acontecer.

No futuro, se ainda existirem historiadores, pode muito bem acontecer de eu conceder entrevistas, falando sobre como o mundo era antes. Uma coisa mesmo.

Não que eu seja especial, pode ser qualquer um da minha geração. A questão é que vimos as máquinas nos dominar e, não só, mas desejamos isso com todas as forças.

Quem abriria mão da comunicação com os outros seres humanos em sã consciência? 


Talvez dentro de uma família, que nem aquela pessoa com as crianças e os pais. Ou então num desses lugares sem pandemia, como os antros hippies, as chapadas e coisas do tipo. Vai saber.


Sozinho assim? Impossível. Somos animais gregários. Já enlouqueço falando comigo mesmo no espelho (e fora dele, por vezes), quem dirá se cessar toda a comunicação.

De paixões intranquilas

 O horário das dez é o pior.

Sei que você fica online essa hora, as crianças já foram pra cama ou estão com os pais, é o momento que rola aquele tempo livre.

Pelo menos é o que tenho me dito nos últimos dias, então chega essa hora e fico ansioso, conferindo a caixa de mensagens a cada 5 minutos esperando algo seu.


Tento me convencer de duas coisas.

A primeira é que só eu senti isso. Que não faz sentido esperar algo seu. 

A segunda é da paciência. Você está ocupada, tempo com a família, criança pequena, vamos ser compreensivos, é trabalho de tempo integral sem folga nem descanso. Nem quando se vai ao banheiro. Ou então de repente estou cobrando seu tempo do banheiro, igual a criança que cobra o resto do tempo todo.

 

Seja como for, não há nada a ser feito.

 

E isso é terrível. Como é ruim esperar, que sensação péssima, passar dias e dias esperando, uma mensagem, um oi, um como está, qualquer coisa, na verdade, até figurinha de boa noite. 

 

Outro dia dei um ultimato gentil. Disse: se estou deslocado aqui, por favor me avise.

 

Até hoje espero resposta.

 

Talvez isso seja uma resposta.

terça-feira, abril 27, 2021

Aos Futuros Filhos

Hoje é 27 de abril de 2021. Estamos no ápice de uma pandemia de coronavirus, o covid-19.

Lhes comunico desde uma praia isolada, assisto aos eventos via uma rede de computadores, a internet.

Eu não sei o que vamos encontrar, não conheço vocês e tenho até receio de quem vocês são. Também acredito que se fossem monstros nem teriam oportunidade de ler esta mensagem.

Aqui a ciência sonha com bebês clonados a partir de características pré-selecionadas, incubados in vitro e viajando no espaço através de naves movidas por fusão nuclear. Quando acordarem, quem os cuidará? Uma geração de humanos espaciais? A inteligência artificial? Muito longe para o momento. Temos um pulo civilizatório para dar, o domínio da fusão nuclear. E se formos pra dentro da terra? Com fusão nuclear, aproveitando a rede de túneis que temos em muitos lugares.. abrigados do lixo atômico da superfície.

Talvez uma parcela do mundo sobreviva.

Estamos descontrolados. Perdemos a direção do navio, ninguém consegue parar o trem, o avião vai bater. Estamos agarrados cada qual nas suas angústias, ansiedades, medos e alegrias, ocupados demais. Nossas mãos estão cheias de terra de cemitério, somos o carrasco da nossa própria sepultura.

Assisto passivamente, de forma suave, as nuvens cruzando o céu, a lua nascendo, o sol correndo as estações.

Mando um parabéns por email, escrevo num computador, olho minha obra numa tela, o teclado faz barulho e o mouse é com fio. A internet também é com fio. Muita gente fala do 5g, seria uma revolução na telefonia do país, tecnologia com internet muito mais rápida. Esses dias observei os satélites de Musk cruzando o céu, a promessa é internet grátis para o mundo inteiro.

Talvez.


To future children,

today is 27 April 2021. We are at the peek of a corona virus pandemic, the Covid-19.

I write you from a remote beach, I see all the events throughout the computer network, the Internet.

I don't know what we're gonna find, don't know you and even am afraid of who you are.
I also believe that monsters wouldn't have the opportunity to read this message.

Here Science dreams about cloned babies from previously selected features, such as height, disease control and brain development. Generated inside baby machines and having wonderful paying mothers. Some will travel space, inside our new Starships from fusion technology. We don't really control it yet. Nor the cloned babies. We only dream of.

The marvelous generation, the golden ones, the supreme beings, the humankind frozen in a deadly loop in space. Not for us, that's sure.

Or maybe it's about us. We can move into caves and live all the radioactive millennia, sheltered without sunlight. Talking about sunlight, do you know we only have, like, 1 billion years left? I mean, the sun is going to eat us all. We better get out of here as soon as possible. But "we" don't really decide anything.

We are trapped on our own disillusion. Too busy with our own dilemmas, we couldn't care less. We are humankind persecutors, any attempt to stop the on-going calamity resulted in absurd failure.

I see all of that smoothly, the clouds passing by, the moon's rising and the sun is running.

Maybe.

quinta-feira, março 11, 2021

Da pandemia

Gostaria de conversar sobre contigo.

Como anda teu trabalho? É possível remotamente? Bom, possível deve ser. Bom, essa palavra, já não sei.

Pra mim tem sido bom.

Mas o que tem de bom tem de temporário, inseguro, grosseiro e abusivo. Incrível como dá pra machucar sem falar e ser gentil pisando.

A promoção de ambientes hostis, altamente competitivos, é fundamental para criar uma cultura de medo e submissão. 

Onde as pessoas vivem aparentemente esse é o ambiente de trabalho desejável. Um The Office permanente, se mantém quem possui máscara de gás para os vapores tóxicos do sarcasmo e crueldade. 

E porquê é bom então?

É bom ficar em casa, não precisar se deslocar, poder desfrutar um bom vinho e um bom beck enquanto milhões passam na tua frente. Ajuda a combater o virtual.

E é pouco mais de um salário mínimo, tem carteira assinada, o computador é da empresa, o que mais alguém poderia pedir?

Amanhã seremos demitidos. Todos.

A simpatia fingida sumiu, dando lugar ao abismo de ser ignorado e desprezado, assim que sei.

Quem é fixo tem o seu garantido, mais um ano a vitória é sua, os de fora não ganharam dos de dentro, seja pela idade, competência ou saúde. Mais um ano de sobrevida. 

Existe uma espécie de júbilo interno, contentamento, que é transmitida na superioridade. Somos os vencedores.

E quem coopera não cresce.

terça-feira, março 02, 2021

2021

 Eu não sei o que te dizer.

Faz uns meses (dois? 2021 digamos) que reparei na abertura. De lá pra cá não sei. Perdi as palavras.


Não entendi. No fundo é isso. Por quê? Depois desse tempo todo. E tenho medo também, toda vez que você aparece é uma bagunça. Tenho medo de querer a bagunça. De querer você. 


Um oi? Um oi basta. 


Oi, tudo bem?


Um oi, tudo bem é aceito em diversos continentes, isto é, mesmo não falando a língua do outro isso é visto como sinal de educação, respeito, interesse. 


Demorei pra voltar aqui. Não tenho mais um computador pra sentar e escrever.. isso é no celular. E agora nessas de homeoffice fica pouco tempo, ainda com prova na sequência. 


Enfim, só queria que você soubesse que eu sei.