quarta-feira, julho 11, 2018

Livrinho

O futuro é incerto,
o tempo é relativo
e cada um faz o que consegue.

É importante se perdoar.

quinta-feira, maio 17, 2018

Sobre objetos

Um objeto é descartável.

Pode ser usado uma vez ou um milhão, pode ser feito de uma infinitude de materiais, ser recente como uma caneta que escreve no espaço ou antigo como argila vermelha na parede da caverna.

Quando se pega um objeto, um telefone, por exemplo, se dá um uso. Uso o telefone para ligar. Depois de um tempo, talvez o telefone não funcione mais ou talvez os meios de comunicação sejam outros. Então o uso é ressignificado, passa a ser item de decoração, de nostalgia, se retiram seus componentes e são utilizados para outros objetos, até que, em última instância, o telefone vai parar num canto esquecido pela humanidade.

Um objeto é descartável. O descarte é o esquecimento, é colocar aquele objeto longe das vistas de tudo e de todos, de preferência em alguma mina abandonada em El-Dorado. Entulhamos as minas com nossos esquecimentos até um ponto que não podem receber mais esquecimentos. É preciso novas minas para novos esquecimentos.

Mina, no popular, é mulher. É gente. Uma frase de propagada num aplicativo de relacionamentos poderia dizer "encontre hoje alguém em quem depositar seu esquecimento". Afinal, são precisas novas minas para novos esquecimentos.

Dirão que é impossível seguir no ritmo atual, que em breve não haverão mais minas onde colocar os esquecimentos e teremos que lembrar de tudo. Talvez seja bom lembrar e não morrer de Alzheimer. Mas que difícil deve ser, anos depois, ver aquele mesmo telefone com quem você conversava até altas horas da madrugada, intocado pelo tempo no fundo de uma mina.

Mais difícil ainda quando aquele telefone tem nome, tem voz, tem até mesmo sentimentos. Difícil quando todo aquele sentimento estagnado ao longo de dezenas de anos soterrado por toneladas de outros esquecimentos vem à tona. E vem pra lembrar, quem sabe, de não esquecer agora.

Oi, tudo bem, não sou objeto. Somos gente.

Recorda que até uns anos atrás quem estava na câmara de gás era tu, não eu que recebo tuas balas.
Recorda quando brigou com teu pai e tua mãe, teu filho agradece.
Recorda de todo privilégio pra chegar esse momento na frente de uma tela, enquanto outros passam fome.

O esquecimento é o talento com os objetos, mas não com a gente.

quarta-feira, maio 02, 2018

Crônicas de um Universo Distópico I

A primeira vez que resolvi fazer uma cirurgia foi porque meus pais inventaram que minhas orelhas não estavam bem alinhadas ao resto do meu rosto, o que mais tarde chamou a atenção das outras crianças e me fez ser conhecido como o burro das orelhas de abano.

Não sei se foi por ter feito uma intervenção no meu corpo tão cedo ou se isso é realmente normal hoje em dia, mas passei a melhorar meu corpo sempre que possível. Hoje vocês vem aqui pra me ouvir e se sentem motivadas porque podem ver o resultado a que vocês mesmos, no fundo, querem chegar.

E é muito positivo esse retorno e que cada um queira o melhor de si para esse mundo. Somente quando todos nós fizermos nossa parte poderemos mudar alguma coisa. Quando meus pais nasceram não tínhamos essas possibilidades, eram comuns doenças como tuberculose, gripe, diabetes, hepatite. Tanta gente sofreu e, por incrível que pareça, ainda sofre por esses males.

As pessoas acreditavam estarem sendo punidas por alguma entidade divina ou, então, que poderiam sair de suas misérias através de um milagre. Existiam milagreiros, uma classe de gente sem escrúpulos que buscava arrancar o mal em troca de favores, serviços e dinheiro. Se tivéssemos nos dado conta antes, imaginem quão longe poderíamos estar hoje, apenas encaminhando tamanha fé e devoção na direção correta. Se eu pudesse voltar no tempo, meramente minha presença talvez fosse vista como o retorno de Cristo, uma intervenção alienígena ou, para os conservadores de então, o que realmente represento, uma ameaça.

Sou uma ameaça.

Ameaço àqueles que insistem na aleatoriedade, os autoproclamados defensores do amor, os hippies, os velhos e os novos com velhas idéias, todas as religiões e todos os paradigmas. Meu ideal nos levará mais longe do que nunca pensamos em ir, é possível conquistar o mais remoto da mente humana e do universo. Mas para isso preciso saber se vocês estão comigo, preciso de toda a fé que já depositamos em falsos Deuses, não em mim, mas no ideal.

Peço que quem não estiver pronto para o próximo milênio se retire do ambiente. Infiéis não serão tolerados.


Mark Robson

sexta-feira, março 23, 2018

Gilmar

Hoje saí do trabalho e decidi que ia parar no bar se tivesse ao menos uma pessoa conhecida, mesmo que não fosse sentar com ela.

Passei, não vi ninguém conhecido, decidi entrar, comprei lá uma bebidinha que a muito custo consegui desconto (trocadalho do carilho) e vi dois conhecidos. Não sentei com eles.

Fui pra rua e me sentei numa cadeira de plástico, onde fiquei tomando meu goró. Apareceu um rapaz de pantufas, me pediu um gole, dei um pouco, não muito, porque não tinha dinheiro pra tomar muito e queria, quem sabe, tomar muito.

Então apareceu Gilmar. Do meio da multidão, cambaleando, com aquele cheiro de quem não toma banho faz uns quantos dias, veio, me viu, sentou do meu lado.

No começo demorei pra entender, a língua enrolada, a ânsia por dizer algo pra alguém.. sei lá. Não nos entendemos no começo. Ou melhor, eu não entendi ele. Porque ele estava atento a tudo que eu dizia.

"Faz tempo que tu mora na rua?"

Vim pra rua com doze anos.

Nisso Gilmar começou a cantar, muito bêbado mesmo, coisas que no começo fiquei constrangido e até o outro morador de rua amigo dele quis fazer parar, mas aí comecei a ver que Gilmar tava me contando uma história.

Ele tava no quarto e a mãe dele chamou, pegou nos cabelos, olhou nos olhos e disse "filho, que Deus te acompanhe. O mundo é teu".

Dia 26 de dezembro Gilmar fez 42 anos. Me disse que no dia anterior, natal, era aniversário da mãe dele e que não foi porque 1. Não pode beber lá; 2. O padrasto fica enchendo a cabeça dele. Que decidiu comemorar na rua.

Olha só.

Um amigo deu uma garrafa de cachaça de presente, outro trouxe um espetão com salsichão, carne, tudo; outra veio até com uma torta! E no fim teve champagne.

Tudo isso de amigos da rua.

Gilmar conserta sapatos. Em um dia, se tu tem um tênis que tá abrindo a sola, ele conserta pra ti, só precisa levar a linha (fio encerado), ele tem a agulha (um cabo de guarda-chuva) e a técnica. Já convidaram pra trabalhar numa sapataria, mas vai fazer o que lá trabalhando?

Falei que era meu aniversário. Me deu os parabéns, ficou feliz por mim. Depois de alguns cigarros que se fumaram sozinhos e mais cantoria, nos despedimos. Disse que sou uma pessoa boa e que vai estar sempre comigo.

Obrigado Gilmar por passar meu aniversário comigo.

sexta-feira, março 09, 2018

segunda-feira, janeiro 22, 2018

Conversas Lacradoras

Tem gente que gosta de lacrar, sabe? Quando faz aquele comentário que todo mundo fica calado porque soa como uma verdade universal.

Tem gente que não aprendeu a brincar sozinha. Já viu aquela criança que o pai vive botando a Pepa e a Galinha Pintadinha? Pois deixa de conhecer o fantástico mundo dos prendedores de roupa, da roupa molhada no varal, das caixas de areia onde se pode criar formigas.

Algumas pessoas não sabem falar. Não que as palavras não saiam, só não sabem o que falar mesmo. É um mutismo extraordinário que tem relação direta com as lacradoras. Se for pra responder, que seja lacrando, porque se abrir pra uma conversa é se abrir pra outro mundo.

E quem nunca se aventurou na própria imaginação acaba tendo muito medo.

Algo. Novo. Original.

Nem pensar.