Aprendi de pequeno a não falar muito, na verdade, a não falar nada.
Diziam de mim que era tímido.
Lembro quando deixei de falar a primeira vez.
Andava com um bloquinho pra cima e pra baixo
Era nele que escrevia o importante.
Teve amizade que durou só o silêncio
Quando abri a boca,
minha voz saiu assim e
De querido, passei a odiado
Já ouvi que sei tudo
e que não sei nada
Mas desconfio
da ironia de quem fala
Me disseram também
não parecer a idade que tenho
É frase de jovem
Velho gosta é mesmo de ser criança
Eu ainda não sei falar
Mas de tímido ninguém me chama
Esses dias brinquei de teatro
Gostei. Gostei mesmo, de repetir.
Só é engraçado.
Quem me levou, faz mímica.
E quase não fala.
Ou fala de outro jeito, né.
Ando amando muito
De brilho no olho
Às vezes é por alguém
Descobri como achar
quem me procura
pra não viver também
num caldo de amargura
Me ensinou foi a mãe
essa que teve a filha
outro dia desses
Hoje paro aqui
que já falei foi muito
e deixo aí o verso
do Miguel não mudo