segunda-feira, setembro 30, 2024

Autobiografia dos últimos dias

Aprendi de pequeno a não falar muito, na verdade, a não falar nada.

Diziam de mim que era tímido.

Lembro quando deixei de falar a primeira vez.

Andava com um bloquinho pra cima e pra baixo

Era nele que escrevia o importante.

 

Teve amizade que durou só o silêncio

Quando abri a boca,

minha voz saiu assim e

De querido, passei a odiado


Já ouvi que sei tudo

e que não sei nada

Mas desconfio

da ironia de quem fala


Me disseram também

não parecer a idade que tenho

É frase de jovem

Velho gosta é mesmo de ser criança


Eu ainda não sei falar

Mas de tímido ninguém me chama

Esses dias brinquei de teatro

Gostei. Gostei mesmo, de repetir.

 

Só é engraçado.

Quem me levou, faz mímica.

E quase não fala.

Ou fala de outro jeito, né.


Ando amando muito

De brilho no olho

Às vezes é por alguém

 

Descobri como achar

quem me procura

pra não viver também

num caldo de amargura

 

Me ensinou foi a mãe

essa que teve a filha

outro dia desses

 

Hoje paro aqui

que já falei foi muito

e deixo aí o verso

do Miguel não mudo