quarta-feira, fevereiro 24, 2010
(19)69
In 1968 Gainsbourg had written "Je t'aime, moi non plus", an explicitly erotic song which he had recorded with Brigitte Bardot. After the pair's relationship had ended, Bardot begged Gainsbourg not to release the recording as a single and Gainsbourg, the perfect gentleman, respected her wishes. However, in 1969 Jane recorded the notorious song as a duet with Gainsbourg and it appeared on the pair's joint album "Jane Birkin Serge Gainsbourg".
Tututa
Talvez houvesse algo errado com ele, não sei, aquele jeito de ficar encarando um ponto fixo enquanto a gente caminhava sempre me passou algo ruim.
Sabe, quando ele fazia isso, parecia muito sério, brabo até.
Dizia que era bobagem da minha cabeça, que só tava pensando - eram sempre coisas estranhas: o trem da Björk, um campo verde com chuva caindo nos olhos, um ferro de passar roupa antigo - e voltava como se aquilo nunca tivesse acontecido.
Sabe, quando ele fazia isso, parecia muito sério, brabo até.
Dizia que era bobagem da minha cabeça, que só tava pensando - eram sempre coisas estranhas: o trem da Björk, um campo verde com chuva caindo nos olhos, um ferro de passar roupa antigo - e voltava como se aquilo nunca tivesse acontecido.
segunda-feira, fevereiro 22, 2010
Espantapájaros
"No se me importa un pito que las mujeres
tengan los senos como magnolias o como pasas de higo;
un cutis de durazno o de papel de lija.
Le doy una importancia igual a cero,
al hecho de que amanezcan con un aliento afrodisíaco
o con un aliento insecticida.
Soy perfectamente capaz de soportarles
una nariz que sacaría el primer premio
en una exposición de zanahorias;
¡pero eso sí! -y en esto soy irreductible
- no les perdono, bajo ningún pretexto, que no sepan volar.
Si no saben volar ¡pierden el tiempo comigo(...)!"
(Oliverio Girondo)
tengan los senos como magnolias o como pasas de higo;
un cutis de durazno o de papel de lija.
Le doy una importancia igual a cero,
al hecho de que amanezcan con un aliento afrodisíaco
o con un aliento insecticida.
Soy perfectamente capaz de soportarles
una nariz que sacaría el primer premio
en una exposición de zanahorias;
¡pero eso sí! -y en esto soy irreductible
- no les perdono, bajo ningún pretexto, que no sepan volar.
Si no saben volar ¡pierden el tiempo comigo(...)!"
(Oliverio Girondo)
domingo, fevereiro 21, 2010
sexta-feira, fevereiro 19, 2010
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
Da minha insônia
Não quero que tu penses que precisas preencher essas duas páginas de folha em branco,
não quero que tu penses que precisas preencher esses 20 anos de coração em branco,
não quero que tu penses que precisas preencher esses 40 anos sem meus pais.
Tu não tens que preencher nada, tu quase não precisas existir.
Só preciso de ti ao sustentar que existe algo além de mim mesmo e que não é uma onda solitária, depressiva, afogativa (se é que existe); estou sozinho, verdade.
não quero que tu penses que precisas preencher esses 20 anos de coração em branco,
não quero que tu penses que precisas preencher esses 40 anos sem meus pais.
Tu não tens que preencher nada, tu quase não precisas existir.
Só preciso de ti ao sustentar que existe algo além de mim mesmo e que não é uma onda solitária, depressiva, afogativa (se é que existe); estou sozinho, verdade.
quarta-feira, fevereiro 10, 2010
Um homem muito bom
"Era uma vez um homem muito bom
que gostava de desenhar com giz-de-cera.
Então um dia resolveu mudar e fazer
tudo que queria era um pouco de
café. Foi até os confins do universo bus-
cando por muitos lugares. Mas era Natal,
então um marciano veio até ele e
disse: Ho-Ho-Ho! Isso deixou tudo
mais claro, pois a lâmpada era de 60W
e não podia deixar de comprar seu
café."
que gostava de desenhar com giz-de-cera.
Então um dia resolveu mudar e fazer
tudo que queria era um pouco de
café. Foi até os confins do universo bus-
cando por muitos lugares. Mas era Natal,
então um marciano veio até ele e
disse: Ho-Ho-Ho! Isso deixou tudo
mais claro, pois a lâmpada era de 60W
e não podia deixar de comprar seu
café."
sábado, fevereiro 06, 2010
Angústia
Quero não-sei-o-que de ti; preciso de te tirar um pedaço, te esfolar, te escalpelar até.
Tenho vontade de gritar, de xingar, de espernear, de serenar, de me acalmar, de não-sei-o-que.
Tenho ânsia; estou pra vomitar. Quero te resolver, me resolver, resolver o mundo.
E não quero também. Quero um não-sei-o-que.
Tenho vontade de gritar, de xingar, de espernear, de serenar, de me acalmar, de não-sei-o-que.
Tenho ânsia; estou pra vomitar. Quero te resolver, me resolver, resolver o mundo.
E não quero também. Quero um não-sei-o-que.
Brilho
O meu brilho se esconde lá
onde enterraram meu coração,
fica junto do rio, na curva,
onde a água passa forte.
onde enterraram meu coração,
fica junto do rio, na curva,
onde a água passa forte.
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Inacabado
Gosto quando tu fazes a barba com tanto cuidado, mas sempre descuida no canto dos lábios ou na dobra do teu queixo.
Gosto da tua lareira, de tanto trepar na frente dela teu cheiro se mesclou na lenha, no fogo, até naquele ferro retorcido que tu usavas pra mexer e hoje tu não existes na minha memória sem um pedaço disso.
Eu queria continuar até amanhã falando de ti; mas não posso.
Tua vida se separou da minha e agora preciso ficar só.
Só no meio desses putos e putas, derramando teu vinho caro no chão e chorando, chorando, chorando de RAIVA talvez, mas depois tristeza.
Dessa falta que tu me fez.
Gosto da tua lareira, de tanto trepar na frente dela teu cheiro se mesclou na lenha, no fogo, até naquele ferro retorcido que tu usavas pra mexer e hoje tu não existes na minha memória sem um pedaço disso.
Eu queria continuar até amanhã falando de ti; mas não posso.
Tua vida se separou da minha e agora preciso ficar só.
Só no meio desses putos e putas, derramando teu vinho caro no chão e chorando, chorando, chorando de RAIVA talvez, mas depois tristeza.
Dessa falta que tu me fez.
quarta-feira, fevereiro 03, 2010
Estupidez
Me incomoda essa tua falta de tato sua puta estúpida.
Quero chegar e escarrar na tua cara, ter liberdade de te socar no beiço, fazer voar dente e sangue.
Não quero olhar na tua cara.
Não te quero perto da minha irmã.
Não te quero perto do meu pai.
Um dia toda essa tua criancice que meu pai comprou de ti vai te comer o cu.
Quero chegar e escarrar na tua cara, ter liberdade de te socar no beiço, fazer voar dente e sangue.
Não quero olhar na tua cara.
Não te quero perto da minha irmã.
Não te quero perto do meu pai.
Um dia toda essa tua criancice que meu pai comprou de ti vai te comer o cu.
terça-feira, fevereiro 02, 2010
O Castelo
"- Não, disse K., - não havemos de nos confundir; eu, com todos os meus pensamentos, ainda estava muito longe de ter chegado onde a senhora supõe, se bem que, a dizer a verdade, para ali me encaminhasse, Mas, no momento, apenas estranhava o fato de que a parentela de Hans esperasse tanto dêsse matrimônio, e que tais esperanças ficassem efetivamente cumpridas, embora, isso não se pode negar, pondo a senhora em jôgo seu coração e sua saúde. A conexão dêsses fatos com Klamm impunha-se, certamente, em minhas reflexões, mas não - ou ainda não - na forma grosseira em que a senhora a apresenta, com o único fito sem dúvida de poder execrar-me ainda uma vez, já que isto lhe dá prazer. Seja, tenha a senhora seu prazer! Mas meu pensamento foi êste: de imediato, é Klamm, segundo pode se ver muito bem, o motivo dêsse casamento. Sem Klamm, a senhora não se sentiria infeliz, não permaneceria sentada, inativa, no jardinzinho; sem Klamm, não teria visto ali Hans; sem essa tristeza sua, o tímido Hans jamais se teria atrevido a falar-lhe; sem Klamm, nunca se teriam encontrado a senhora e Hans no pranto comum; sem Klamm, êsse velho e bom tio estalajadeiro jamais os teria visto a Hans e à senhora pacificamente unidos ali; a não ser por Klamm, não teria sentido a senhora essa indiferença diante da vida, de modo que não se teria casado com Hans. Já vê, em tudo isto há Klamm demais, ao menos êste é meu parecer. Mas a coisa ainda continua. A não ter procurado a senhora êste esquecimento, sem dúvida não teria trabalhado tão desmedidamente para consigo mesmo, e não teria conduzido esta estalagem a um esplendor semelhante. Também por aí anda, pois, Klamm. Mas Klamm é também, tudo isto à parte, a causa de sua enfermidade, pois seu coração já estava esgotado mesmo antes de seu casamento, devido a essa infeliz paixão. Fica, portanto, tão-sòmente, a questão a respeito de que era o que tanto seduzia os parentes de Hans, com respeito a êste casamento. A senhora mesma afirmou que implica uma irrevogável elevação de posição o fato de ser amante de Klamm; nem, será talvez isto o que tanto os atraía. Mas creio que foi, além do mais, a esperança de que a boa estrêla que a conduziu até Klamm - supondo-se que fôsse uma boa estrêla, já que a senhora assim o afirma - formava parte integrante da senhora, isto é, que à força seguiria acompanhando-a, e não a abandonaria talvez tão depressa e tão sùbitamente como Klamm.
- O senhor diz tudo isto sèriamente, - perguntou a estalajadeira.
- Sèriamente, está claro, - disse K. rápido; - apenas acredito que a parentela de Hans nem teve plenamente razão ao alimentar suas esperanças, nem deixou de tê-la, e creio descobrir também o êrro que cometeu. Exteriormente, tudo parece alcançado, por certo: Hans está em boas mãos, tem uma mulher disposta, tem prestígio, a estalagem está livre de dívidas. Mas na verdade nem tudo está alcançado; teria chegado a ser muito mais feliz, sem dúvida, com uma môça simples, à qual êle poderia ter inspirado um grande amor; e se, coisa que a senhora lhe censura, fica às vezes parado e como perdido em meio do salão, isto acontece porque realmente êle aí se sente perdido - sem que por isso chegue a se sentir infeliz, isso é certo, até êsse ponto já o conheço - mas é igualmente certo que êste rapaz bem simpático, compreensivo, teria chegado a ser mais feliz com outra mulher; com o que quero dizer ao mesmo tempo: mais independente, mais aplicado, mais varonil. E a senhora mesma não é também feliz, que dúvida pode-se ter? E como já disse antes, sem essas três recordações não queria continuar vivendo; e além do mais é cardíaca. Não teve, pois, razão a parentela com suas esperanças? Creio que sim, teve-a. A benção estava com a senhora, estava suspensa sôbre a senhora, mas êles não souberam fazê-la descer.
- E que descuidaram? - perguntou a estalajadeira. Jazia novamente prostrada de costas, e olhava para o teto.
- Perguntar a Klamm - disse K."
Franz Kafka
Tradução de Torrieri Guimarães.
- O senhor diz tudo isto sèriamente, - perguntou a estalajadeira.
- Sèriamente, está claro, - disse K. rápido; - apenas acredito que a parentela de Hans nem teve plenamente razão ao alimentar suas esperanças, nem deixou de tê-la, e creio descobrir também o êrro que cometeu. Exteriormente, tudo parece alcançado, por certo: Hans está em boas mãos, tem uma mulher disposta, tem prestígio, a estalagem está livre de dívidas. Mas na verdade nem tudo está alcançado; teria chegado a ser muito mais feliz, sem dúvida, com uma môça simples, à qual êle poderia ter inspirado um grande amor; e se, coisa que a senhora lhe censura, fica às vezes parado e como perdido em meio do salão, isto acontece porque realmente êle aí se sente perdido - sem que por isso chegue a se sentir infeliz, isso é certo, até êsse ponto já o conheço - mas é igualmente certo que êste rapaz bem simpático, compreensivo, teria chegado a ser mais feliz com outra mulher; com o que quero dizer ao mesmo tempo: mais independente, mais aplicado, mais varonil. E a senhora mesma não é também feliz, que dúvida pode-se ter? E como já disse antes, sem essas três recordações não queria continuar vivendo; e além do mais é cardíaca. Não teve, pois, razão a parentela com suas esperanças? Creio que sim, teve-a. A benção estava com a senhora, estava suspensa sôbre a senhora, mas êles não souberam fazê-la descer.
- E que descuidaram? - perguntou a estalajadeira. Jazia novamente prostrada de costas, e olhava para o teto.
- Perguntar a Klamm - disse K."
Franz Kafka
Tradução de Torrieri Guimarães.
segunda-feira, fevereiro 01, 2010
Segurança
As trancas na porta lhe falavam do medo. Não de que alguém entrasse, isso seria ridículo, é claro; mas de que saíssem.
Nada poderia ser pior que perder o filho amado por virtude de sua própria vontade. Lhe perguntaria o que havia de tão errado no modo que lhe destinavam seu maior sentimento.
Não haveria necessidade de resposta, uma vez compreendida a situação estabelecida. Lhes fugia e fugiria em cada uma das crianças que nascesse, isto era óbvio, não a ele, mas a eles; seu constante aprimoramento de trancas, através dos seus diplomas, do seu sustento, da sua responsabilidade, de nada adiantavam a não ser para evidenciar a verdade da fuga.
O que pensava ele, então? Uma vez reconhecida a tranca e a verdade que lhe ocultavam, o que haveria de ser feito?
Não havia possibilidade de proceder à outra maneira? Poderia tentar se resignar, aceitar sua condição de claustro; seria como havia procedido até então, com a diferença de agora reconhecê-lo.
Porém, agora se dava conta, a fuga não era física, assim como a tranca na porta também não o era; já lhes tinha fugido, por mais que tentasse agir como outrora e o fizesse de forma tão fiel a ponto de todos lhe reconhecerem, havia agora uma ruptura no seu íntimo, que lograria escapar em qualquer momento de desaviso.
Pois, então, o único remédio seria aceitar sua condição. Sentia, agora, de forma absoluta, que sua fuga não podia ser supérflua, devia tratá-la da mais profunda raiz de si, reconhecendo que a tranca não fora colocada apenas por seu pai, senão com sua força e consentimento.
Ora, seria impossível uma fuga apenas aparente, uma vez que operava a níveis tão profundos que estremecia ao senti-la, como se um passo em falso pudesse forçá-lo a uma existência fora de si, como se fizesse seu corpo vagar a esmo, esperando que lhe tomassem a vida e sentindo um fracasso patético.
Nada poderia ser pior que perder o filho amado por virtude de sua própria vontade. Lhe perguntaria o que havia de tão errado no modo que lhe destinavam seu maior sentimento.
Não haveria necessidade de resposta, uma vez compreendida a situação estabelecida. Lhes fugia e fugiria em cada uma das crianças que nascesse, isto era óbvio, não a ele, mas a eles; seu constante aprimoramento de trancas, através dos seus diplomas, do seu sustento, da sua responsabilidade, de nada adiantavam a não ser para evidenciar a verdade da fuga.
O que pensava ele, então? Uma vez reconhecida a tranca e a verdade que lhe ocultavam, o que haveria de ser feito?
Não havia possibilidade de proceder à outra maneira? Poderia tentar se resignar, aceitar sua condição de claustro; seria como havia procedido até então, com a diferença de agora reconhecê-lo.
Porém, agora se dava conta, a fuga não era física, assim como a tranca na porta também não o era; já lhes tinha fugido, por mais que tentasse agir como outrora e o fizesse de forma tão fiel a ponto de todos lhe reconhecerem, havia agora uma ruptura no seu íntimo, que lograria escapar em qualquer momento de desaviso.
Pois, então, o único remédio seria aceitar sua condição. Sentia, agora, de forma absoluta, que sua fuga não podia ser supérflua, devia tratá-la da mais profunda raiz de si, reconhecendo que a tranca não fora colocada apenas por seu pai, senão com sua força e consentimento.
Ora, seria impossível uma fuga apenas aparente, uma vez que operava a níveis tão profundos que estremecia ao senti-la, como se um passo em falso pudesse forçá-lo a uma existência fora de si, como se fizesse seu corpo vagar a esmo, esperando que lhe tomassem a vida e sentindo um fracasso patético.
Vento
O vento falou ao ouvido do cata-vento com muito rancor:
Larga da tua grandeza, porque eu ainda hei de achar pás maiores que as tuas, engrenagens melhores, amores mais puros.
E assim foi.
Até hoje quando chego à beira do mar e sinto o vento ora violento, ora muito calmo, percebo que não fui eu o único que se sagrou do sabor dele; muito diferente, foram todos visitados e com ninguém se contentou.
Ora, que coisa mais burra, buscar a perfeição.
Larga da tua grandeza, porque eu ainda hei de achar pás maiores que as tuas, engrenagens melhores, amores mais puros.
E assim foi.
Até hoje quando chego à beira do mar e sinto o vento ora violento, ora muito calmo, percebo que não fui eu o único que se sagrou do sabor dele; muito diferente, foram todos visitados e com ninguém se contentou.
Ora, que coisa mais burra, buscar a perfeição.
Quando vovó morrer
Uma dor aguda no ouvido direito dobrou os joelhos da velha matriarca; caíra, sem som para si, em cima da laje vermelha que sempre tivera medo nos dias de chuva.
Os cabelos passaram a transmitir uma sensação molhada e, enquanto levava a mão lentamente à cabeça, focou o olhar numa pequena esteira de plástico; crescia nela os maracujás, e que deles se faziam doces e aromatizavam a casa já se é sabido, muito mais interessante naquele momento foi a revelação da flor que crescia entre os vãos da esteira.
Por acaso lembrou de quando fizera dezoito, com uma sensação rápida, súbita, de saudade da energia que a vida tinha e que agora se esvaía, docemente, através dos então melados dedos de sangue. O bolo, preparado naquele mesmo dia, tinha um cheiro forte; riu, daquele que trocara a canela por noz-moscada, fora doce com ele, lhe sorrira, afagara a face, aquela bochecha então rosada com poros tão grandes e resquícios de uma barba mal conduzida.
Talvez como a vida, lhe sobrava amor àquela época, numa entrega que prometera, por que, óbvio, assim lhe parecera, ser eterna.
Sentia o cheiro da noz-moscada, tão forte, tão forte, e aquela sensação de calor por entre os cabelos escassos principiara a invasão do resto do corpo, aquecendo todo o tato que lhe restara nessa idade já tão avançada, e, por mais que soubesse do desespero dos familiares gritando e correndo para lhe acudir, por mais que soubesse da carícia que a morte lhe fazia com o seu calor, não tirava, e jamais tiraria, os olhos daquela flor, porque era a mesma, a mesma flor que um dia recebera de coração tão aberto de um gurizinho coradinho, que agora lhe parecia esperar, denovo, com o sentimento na mão.
Os cabelos passaram a transmitir uma sensação molhada e, enquanto levava a mão lentamente à cabeça, focou o olhar numa pequena esteira de plástico; crescia nela os maracujás, e que deles se faziam doces e aromatizavam a casa já se é sabido, muito mais interessante naquele momento foi a revelação da flor que crescia entre os vãos da esteira.
Por acaso lembrou de quando fizera dezoito, com uma sensação rápida, súbita, de saudade da energia que a vida tinha e que agora se esvaía, docemente, através dos então melados dedos de sangue. O bolo, preparado naquele mesmo dia, tinha um cheiro forte; riu, daquele que trocara a canela por noz-moscada, fora doce com ele, lhe sorrira, afagara a face, aquela bochecha então rosada com poros tão grandes e resquícios de uma barba mal conduzida.
Talvez como a vida, lhe sobrava amor àquela época, numa entrega que prometera, por que, óbvio, assim lhe parecera, ser eterna.
Sentia o cheiro da noz-moscada, tão forte, tão forte, e aquela sensação de calor por entre os cabelos escassos principiara a invasão do resto do corpo, aquecendo todo o tato que lhe restara nessa idade já tão avançada, e, por mais que soubesse do desespero dos familiares gritando e correndo para lhe acudir, por mais que soubesse da carícia que a morte lhe fazia com o seu calor, não tirava, e jamais tiraria, os olhos daquela flor, porque era a mesma, a mesma flor que um dia recebera de coração tão aberto de um gurizinho coradinho, que agora lhe parecia esperar, denovo, com o sentimento na mão.
Feliz Aniversário
Faria anos dali uns meses, juntaria, jantaria com a família numa celebração sem sentido.
Não dava importância até ali, até o que ainda estava por passar. Talvez fosse efeito do ácido lisérgico já tocando a profundidade da porta que o Caetano, não mais aquele coelho simpático, mostrava.
Depois de afundar porta adentro, não haveria opção de não fazer sentido; tudo, até o escuro da noite, faria parte de si, seria expressão do seu sofrimento.
Que a vida se fazia em sofrimento já se tornara cônscio; o que lhe escapava ainda era da vida SER sofrimento. Essa afirmação final, que só atingiria numa entrega completa e sem esperança, serviria como antídoto.
Não dava importância até ali, até o que ainda estava por passar. Talvez fosse efeito do ácido lisérgico já tocando a profundidade da porta que o Caetano, não mais aquele coelho simpático, mostrava.
Depois de afundar porta adentro, não haveria opção de não fazer sentido; tudo, até o escuro da noite, faria parte de si, seria expressão do seu sofrimento.
Que a vida se fazia em sofrimento já se tornara cônscio; o que lhe escapava ainda era da vida SER sofrimento. Essa afirmação final, que só atingiria numa entrega completa e sem esperança, serviria como antídoto.
Assinar:
Postagens (Atom)