terça-feira, setembro 30, 2008

As noites de Amelie

A Escada

Sobe os degraus, corre, corre, a torre, meu deus, corre.
O barulho dos passos atrás, próximos, fortes e duros, mais rápido e mais rápido, mais rápido, mais rápido, dizia para si mesma. As botas de couro batendo contra o assoalho, a risada, meu deus, a risada, a gargalhada que vomitava, escorria pela barriga protuberante de anos de comilança, escorria pelo casaco de veludo vermelho aberto para respirar, escorria pelas calças arriadas e escorria, principalmente, pelo vermelho duro e latejante entre suas pernas.

A Porta e o Quarto

A porta, enfim. Abriu e se trancou. Os passos deixaram de soar do lado de fora. Um silêncio tão estarrecedor comprimiu o ambiente, fez as narinas dela se dilatarem e sorverem o ar na busca do perigo. Uma tontura, como uma onda indo e vindo, cada vez mais forte, mais forte, mais forte, meu deus, a janela, meu deus!

A Janela

A janela refletia o quarto. Do lado de fora fazia frio.
Aproximou-se e olhou. Abriu e uma corrente fria entrou, passou pelo seu vestido rasgado, crispou seus pêlos. Não era só a corrente fria que lhe deu um arrepio quando abriu a janela.

Era a multidão parada em fronte.
Maria, mãe de dois, prostituta, pecadora, desgraçada, pega, vadia, mata.
Uma multidão silenciosa que se movia de um lado ao outro da movimentada borges de medeiros, enquanto Maria esquadrinhava a rua assustada pela janela da escola.

terça-feira, setembro 23, 2008

W.

Era comovente, não, era chocante, a impiedade, a falta de tato, a busca pelos prazer fugazes.

Se tratava de um rato, fumante passivo de ciganas no centro. Dia sim, dia não, faziam-lhe um agrado e lhe contavam seu futuro olhando para suas mãos. Uma brilhante carreira como jornalista, psicólogo, médico, maratonista, cineasta, ator, biólogo, farmaceutico, mas, gostavam de enfatizar, somente se largasse seu vício.
Um rato poderia ser viciado em queijos, álcool, drogas, sexo, festas, e muitas outras coisas que seriam possíveis de listar, mas tornariam o texto enfadonho.
Não, dizia-lhes o rato. E era um não sincero. Permanecia calado o resto do dia, meditava sobre o que deixava passar e o que ganhava em troca. Olhava seus colegas no balcão do bar, todos acima dos trinta anos, acabados, com roupas surradas daquelas que ganharam anos atrás. Olhava o outro extremo, os crentes fervorosos todos os dias na igreja da esquina de sua casa. Às vezes lhes fazia companhia, mas seu objetivo lá era muito diferente e longe Dele.
O rato olhava para um lado e para o outro.
De um.
Para o outro.
Não compreendia que, entre os dois lados poderia haver um meio. Ora ia à igreja, ora ia ao bar. Não ia à igreja rezar, não ia ao bar beber.

Era muito pior o que fazia.
Sentia-se impelido ao vício. Pensara certa vez se o fazia por vontade própria, mas chegara à conclusão de que só poderia ser um vício genético. Não sabia de outro caso na família, mas era forte demais para não se reconhecer uma, como se diz, predisposição? ao vício.
O rato era um colecionador, ora, um colecionador pode colecionar muitas coisas, selos, moedas, notas de cem, cds do america online. Mas não era nada disso.

Se tratava de um colecionador de pessoas.
Continua.

segunda-feira, setembro 22, 2008

Circo

Rondavam os portões com olhos famintos, como se fossem atacar.
15 anos e três meses depois continuavam com o instinto, embora enfraquecido, da luta pela sobrevivência.

quarta-feira, setembro 17, 2008

A prima Vera rondava os bairros, amava tanto.

Partiu numa noite de breu, séria. Queria que fossemos como dois animais, homem e mulher, e ficou tão triste quando não tive pena. Minha namorada, minha prima Vera, queria que lembrasse de mim, das nossas horas que levamos a paixão na poesia. Estou só e só existe esse lamento triste, que de um momento para outro surge e vira uma palavra, uma frase, algo para se ler, enfim.

Hoje comprei uma xícara e enxerguei prima Vera do outro lado da rua. Esperava o ônibus, olhava para o céu, os pombos, as árvores. Parecia triste, mas um triste alegre, se é que pode, se é que você deixa.

Nos deixa com um outono assim meio primavera.

terça-feira, setembro 02, 2008

Foi assim

E foi assim.. meio ao som de Vitor Ramil, meio à sirene do farol, que a gente ficou assim, meio junto, meio separado. Ali não dava pra ouvir o mar, ali não dava pra ouvir as pessoas, só o Vitor e a sirene, meio como em outro mundo.
Foi no metrô. Meio que num dia de eleições, meio que num dia de trabalho. Eram nove e meia, a gente ia viajar, ia visitar os mundos de sempre de um jeito diferente; um jeito meio assim apaixonado tímido.
No mesmo dia aquele que batemos a cabeça, que pedi teu rosto, que a gente chegou assim meio perto, meio longe.

O sol meio que brilhava entre a gente, aquecia. O silêncio da tarde de domingo, os dois sem roupas, meio que paquerando a janela, meio que rindo o tempo todo. A gente ria tanto de se amar que até esquecia, esquecia e voltava pra casa só tarde.

Oooo

Mãe, olhei na tv.
Aquele ali é filho de ditador, o outro tá na corrupção;
aquele gosta de feijão, o outro de arroz;
aquele tem família, o outro adota crianças;
aquele brinca de bolha de sabão, o outro anda de bicicleta;
Aiai, sei não =/

Romance

Era um desses romances de outubro ou novembro, não sei bem, talvez fosse janeiro ou fevereiro. Num desses bares, talvez não fossem bares, que a gente finge que não se importa. Numa daquelas mesas, acho que eram mesas, com aquelas cadeiras, que não são bem cadeiras. Não importa. A gente tinha uns comprimidos, talvez fossem cinzas, talvez fossem rosas, enfim, comprimidos, que caem bem a qualquer pessoa com mais de trinta anos. Um prazer caro com uma droga barata, gostava de falar isso como se fosse rima, e a gente achava graça toda vez que o outro ouvia o outro e pedia e ouvia e falava. Eu pensava e ele pensava e os pensamentos iam os pensamentos vinham, ah, a gente delirava, naquelas mesas que não eram bem mesas com cadeiras que achavam que eram gente. Foi tudo assim, de sopetão, eu não entendia, minha pele ficava de marfim. Não se mexia, não falava, só ouvia. Os elefantes tinham cruzado a sala e a gente, que tava ali pra não sei bem, olhava e olhava e pedia e pegava. Umas asas de marfim, que vinham não sei bem donde, uma coisa meio elefante assim. E a gente pensava e pensava. E um dia acordava.
Num dia de trabalho.
Numa sala.
Numa mesa.
Como quem nunca tinha falado assim.
Como quem é assim.
O computador ali.
A gente aqui.
E a gente trabalhava.
Em novembro ou fevereiro, a gente conseguia.
Conseguia.