domingo, janeiro 31, 2010

Livre

Pronto, me livrei de todas tuas coisas.

Joguei FORA todas aquelas cartas de amor, TODAS as fotos que tu tiraste, até aqueles cartões postais que eu cheguei a gostar tanto... foram rasgados, queimados, esvaziados.

Agora está tudo limpo, sem mais esses sentimentos ridículos.

Tudo ridículo, é assim que me senti quando decidi te limpar da minha vida. Como se tivesse perdido o propósito e toda essa dor fosse ridícula. Pensar em morrer, correr atrás, limpar o prato com o guardanapo, me alongar quinze vezes antes de sair do banho, tudo isso, toda essa obsessão se desencontrou, descarrilhou em cima de um resto de fígado.

Agora, finalmente liberto de ti, posso fazer minhas próprias manias, me tornar denovo sozinho, sem me entregar, sem confiar, sem me sentir ridículo.

E a primeira coisa que meu corpo pede nessa manhã de calor insuportável é viagem. Deixar pra bem, bem, bem longe vocês. Não me interessa saber da tua paixão por um cara quarenta anos mais novo, não quero ouvir teu problema de hospedagem, não quero saber da tua relação com a minha amiga que não lembra o nome, não quero encostar nesse gênio ruim que se apoderou de ti quando deitei na cama.

Só quero tomar meu ácido e viajar até o Rio de Janeiro, andar por copacabana, as praias do leblon, visitar a orla de Miami, bater uma punheta olhando a prostituta em Amsterdã, ficar impressionado com a quantidade de cores da plantação de pimenta na China, enfim, passar da parede.

Amanhã, ou talvez depois de amanhã, vou ter ido tão longe sem me mexer, que vou ter atravessado essa primeira parede, vou me sentir como aqueles corredores dando depoimentos ridículos pra TV: "Chega uma hora que você bate numa parede, ali é só tua força de vontade que pode te empurrar pra frente e te fazer vencer a corrida"; é isso, vencer a corrida, chegar no estádio campeão, marcar gol, credo, nem quero pensar que ainda faltam sete metros pra essa barreira.

E todo mundo me tem como favorito, vai lá campeão, certo, como se eu não fosse parar na frente da parede e chorar como uma criança, me sentir tão ridículo como daquela vez na 1a série que mijei as calças.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Na esquina que mora meu sentimento

Meu amor é um gato preto que me espera na porta de casa todo dia.

Quando chego bêbado, tudo que ele faz tem sentido.

Se me vira a bunda e nem fala comigo ou se vem ronronando ao redor das minhas pernas, é sempre cheio de significado.

domingo, janeiro 24, 2010

A respeito da tranqüilidade

O sol respirou entre a copa das árvores pela primeira vez, o verde das folhas borbulhando de felicidade em receber essa lufada de ar quente. Até que, entre o chão e a copa das árvores, refletiram sobre tudo.

E foi desse jeito mudo que impressionaram os transeuntes, que pararam numa grande contemplação sobre o mistério que aquelas folhas já não tão verdes tinham resolvido.

Queriam saber como conseguiam ser tão tranqüilas, não se perdiam em lamúrias, simplesmente se jogavam em direção do vazio, sem se prender mais a nada. E todos, mantendo a atmosfera muda, se curvaram em reverência.

Vera

Cada vez sinto menos frio quando penso no que aconteceu.
E aproveito mais o sol batendo na janela, as flores caindo, o cheiro do pão quentinho, o café sem borra, esse dia tão bonito que me nasceu.

Ainda é fresco o sofrimento que impliquei e de tão fresco é violento. Me atormenta, me faz lágrimas, mas já me deixa nascer o dia.

Queria ter uma forma de dizer que não precisa de tanto; mas precisa e muito.
Acho que se a gente não sentisse, não teria sentido, não só o que passou, mas tudo isso que é a vida.

sábado, janeiro 23, 2010

Sobre esquecer

A bebida não foi feita pra acompanhar vocês em festas, deixar o corpo solto, a conversa leve. Não.

Foi feita com a clara intenção de suicídio.
Se bebe pra matar uma parte de si; deixar a vida com um slot livre, pronta pra ser preenchida por algo rápido no meio da noite. Leve e fútil.

E.T.

Um brinco

O cachecol continua ali, com um pouco do teu cheiro. Os livros e as calças parecem dizer quem tu é. E o amor se partiu em duas metades desiguais.

Hoje é quase como se o sofrimento fosse diferente, tua metade pesando tão mais, te puxando tão.. forte.

Daqui uns anos vai restar pouca coisa, como um brinco quebrado numa gaveta. Mas todo o sofrimento vai fazer sentido; o amor não foi embora com facilidade, foi se agarrando em tudo pelo caminho. E te puxou as entranhas até rearranjar tudo de forma completamente diferente da que estava antes.

Amassada pelo namorado

Foi embora sem deixar nada. Quase nada.

Deixou uma camiseta com um cheiro maravilhoso.

Que durasse pouco mais de três dias, pouco importa; o forte é o sofrimento da camiseta que restou de noite tão intensa.

Ganas

Queria tua marca de cigarro no meu braço pra sempre, pra companhia.
Pra correr atrás de ti por um gosto na tua boca; salgado, de quem fuma.

Eu não tenho saudade, tenho necessidade de ti.
Me mostra o mundo feito de beijos transbordando sentimentos.
Denovo.

Faz me sentir menos só no meio de tanta gente puta.

Por favor?

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel

Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel.
Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel.
Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel.
Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel.
Uma dose de cogumelos, açúcar e bastante mel.

A vontade toda é só repetir e repetir o que já disse ontem e anteontem e repetir pra não esquecer de repetir amanhã.

terça-feira, janeiro 12, 2010

Ultimamente o que me faz levantar todo o dia,
não são as mulheres na rua, na tv ou na minha casa
não são os amores perdidos, refeitos ou ainda por vir
não é meu trabalho
não é.

É essa vontade, insaciável, de escrever.
Me é a única alegria nesses dias tão escuros.
Só, sou só. E, só, não me decepciono.

Não é preciso pagar, controlar, vigiar, atender, se portar, fingir, atuar, voltar, refazer, implorar.
Não há direções. Nem vontades. Nem nada.

Só estar só e isso basta.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

domingo, janeiro 10, 2010

Saudade

Hoje ela perdeu o trem e chorou com tanta vontade.
Que toda a estação ficou com um desejo secreto
de também poder chorar assim.

Pensaram em toda gente que já não é o que era antes; tentaram.
Mas faz tempo que secaram as lágrimas,

tudo que resta é a saudade de um sentimento
esquecido, guardado, no fundo da gaveta de um armário
da casa da vó, quando
crianças.

Desconhecido

Nesse exato momento tem alguém por aí fingindo que sou eu.
Não me preocupa; me incomoda mais
tanta mentira, tanta maldade,

saindo pela minha boca,
com a maior sinceridade.

Queria fingir alguém que falasse das próprias verdades.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Especulação

Marta tem vinte anos, secretamente acredita no amor, mas se porta que nem uma vadia.
Já ouviu de onze pessoas "eu te amo". E não se importa, tem sede de sentimentos. Necessita de sentimentos.

Precisa preencher o vazio. Quando não está ouvindo "eu te amo", procura encher a cara dentro de caixas pretas (bem, fora das caixas e depois dentro).

Gosta de homem, mulher e o que tiver pela frente. Até agora só transou com homens, apesar de ter muita curiosidade.

Curte violência. Pensa com freqüência nas colegas sendo torturadas; mas jamais faria algo com elas. E violência só com os outros, não gosta de apanhar (no sexo), mas gosta de bater. Quer dar um soco em alguém um dia (no sexo).

Conheceu um homem peludo semana passada e se apaixonou. Não sabe dizer por quê, acha que é um instinto primitivo. Eu acho um nojo.

Vão sair essa semana denovo. Criou muita expectativa, vai se frustar.

Não, parece que ele surpreendeu de um jeito positivo. Difícil. Talvez seja o pênis.

Hoje faz três anos que saíram juntos da caixa preta. Fico pensando se vão ter filhos. Ele quer. Se tiverem uma menina, vai ser uma pena. Já escuto os coleguinhas chamando ela de lobisomem. A Marta iria engordar, certamente. Já tá meio gorda. De uns tempos pra cá, parou de se preocupar com a aparência. Ele vai ficar gordo com o tempo. Vai ser engraçado quando for velhinho, todo aquele pêlo branco e a barriga sem nada. Como um daqueles orangotangos de filme ruim da sessão da tarde.

Nunca mais perguntei sobre o vazio dela; não consegui. Acho que ela pensa ainda sobre isso, na fila do supermercado. Toda aquela variedade de produtos e ela só pode levar o que o dinheiro permite. É a filosofia besta da vida dela.

Às vezes tenho vontade de invadir a casa deles e me comportar que nem um animal, quebrando coisas, fazendo barulho de macaco. Já estão acostumados com o que mostro pra eles; o único jeito de me libertar dessa prisão que é a expectativa em cima de mim... é me portando de uma forma não racional, não linear, instintiva, bestial.

Nunca mais foram os mesmos depois. Ficaram acuados. Não falam direito comigo. Não se tem o que esperar de alguém que, a qualquer momento, pode se transformar na miniatura do King Kong.

Meu amor por você

Ir até tua casa, trespassar tudo isso. Pular de uma vez.
Sem rodeios, sem flerte, sem nada. A gente já sabe no que vai dar.

Nos consumiremos rapidamente, com muita paixão. Seria o melhor sexo. E único.

Não poderíamos nos encontrar mais. Nem conversar. Nada.

O ideal seria nos mudarmos pra lados diferentes.

Teríamos a lembrança de um perfeito entendimento entre duas pessoas e então poderíamos começar do zero, sempre. Se entregar completamente e fazer tudo que nos é incontrolável funcionar.

O único problema seria acreditar na nossa mentira, de não saber por que.