Uma dor aguda no ouvido direito dobrou os joelhos da velha matriarca; caíra, sem som para si, em cima da laje vermelha que sempre tivera medo nos dias de chuva.
Os cabelos passaram a transmitir uma sensação molhada e, enquanto levava a mão lentamente à cabeça, focou o olhar numa pequena esteira de plástico; crescia nela os maracujás, e que deles se faziam doces e aromatizavam a casa já se é sabido, muito mais interessante naquele momento foi a revelação da flor que crescia entre os vãos da esteira.
Por acaso lembrou de quando fizera dezoito, com uma sensação rápida, súbita, de saudade da energia que a vida tinha e que agora se esvaía, docemente, através dos então melados dedos de sangue. O bolo, preparado naquele mesmo dia, tinha um cheiro forte; riu, daquele que trocara a canela por noz-moscada, fora doce com ele, lhe sorrira, afagara a face, aquela bochecha então rosada com poros tão grandes e resquícios de uma barba mal conduzida.
Talvez como a vida, lhe sobrava amor àquela época, numa entrega que prometera, por que, óbvio, assim lhe parecera, ser eterna.
Sentia o cheiro da noz-moscada, tão forte, tão forte, e aquela sensação de calor por entre os cabelos escassos principiara a invasão do resto do corpo, aquecendo todo o tato que lhe restara nessa idade já tão avançada, e, por mais que soubesse do desespero dos familiares gritando e correndo para lhe acudir, por mais que soubesse da carícia que a morte lhe fazia com o seu calor, não tirava, e jamais tiraria, os olhos daquela flor, porque era a mesma, a mesma flor que um dia recebera de coração tão aberto de um gurizinho coradinho, que agora lhe parecia esperar, denovo, com o sentimento na mão.