domingo, março 05, 2017

Cilada

Uma vez te segurei forte fora da entrada do supermercado, não lembro direito o motivo, lembro de tu me pedir pra soltar porque estava te machucando.

É uma das primeiras memórias que tenho de agredir outro ser vivo. Mas pra ser justo, talvez a primeira mesmo tenha sido com o gato ou a gata em casa, não me lembro bem, que segurei pelo pescoço. Enxerguei as pupilas incharem e ficarem prestes a saltar pelas órbitas. Percebi que mais um pouco, poderia matar. Aí soltei.

Muito tempo depois matei mesmo. Um lagarto apareceu na porta de casa, ferido, mal se mexia. Cortei a cabeça dele com o facão. Na mesma casa, armei ratoeiras que mataram e aleijaram ratos, os quais encontraram o martelo ou o facão depois também.

Quando criança tinha um passatempo que era matar moscas, gostava muito. Às vezes na ausência de um mata-moscas plástico, ia com a mão mesmo. Lembro uma tarde que matei uma centena num clube.

Outra vez dirigindo, um cachorro atravessou a estrada, matei. Esses tempos também ajudei a matar uma vaca. Já matei aranha, bicho-cabeludo, mosquito, besouro, barata, pra falar alguns.

Matei também frangos, porcos, outras vacas e bois, peixes, ovelhas e javalis, comendo carne.

E isso só o que lembro.

O mais marcante dessa seqüência foi a última que participei diretamente, a vaca. A vida foi embora devagar. Não vou detalhar, porque sei que não leria mais a partir daqui. E eu quero que você leia até o fim.

Diretamente creio que nunca participei da morte de outro ser humano. Mas agredi e agrido vários.

Uma época andava me perguntando qual o sentido de tudo? De tomar o ônibus por duas horas até o trabalho, fazer algo sem sentido, voltar, dormir, repetir. No final de semana pegar o papel sem sentido e gastar em coisas sem sentido.

Poucas pessoas entendiam essa pergunta e a resposta do sem sentido das suas vidas. Como sem sentido? As pessoas buscam ser felizes, um trabalho com significado (que pode muito bem ser somente o dinheiro), sair com os amigos, se divertir, conhecer gente nova, viajar, ter experiências fantásticas, gozar muito.

Eu tentei. Mas então o trabalho não pagava o suficiente, os amigos não eram tão amigos como gostaria, a diversão sempre acabava, as pessoas novas sumiam ou decepcionavam, as viagens davam saudade de casa, a casa dava vontade de viajar, o desejo por sexo depois de satisfeito dava lugar a um vazio, vazio que às vezes se preenchia de mais desejo.

Nada é o suficiente.

E isso machuca. Meu amor por ti não é o suficiente? O que faço não é o suficiente? Quem eu sou não é o suficiente?

Quanta gente magoada. Por não ser você, por ser você, por ser nova, velha, bonita, feia, grande, pequena, azul ou preta. Nunca satisfeito, nunca em paz, buscando a felicidade sempre no virar da esquina, no banco do ônibus, em outro país, nesse país.

É uma Cilada. Armadilha do não-amor.
Não é amor. Não é amor. Isso não é amor.



Irônico que depois de tanta morte, tristeza, mágoa e ódio, me dê conta de que o sentido, de tudo, talvez só pra mim, é o amor.

E amar tem sido suficiente. Aqui, agora, do exato jeito que as coisas estão e são.
É engraçado isso de amar. Sempre tive na mente uma idéia boba do esforço em amar os outros. Aí não é amor. Amor brota naturalmente. É espontâneo e é por tudo e por todos. E, cuidando bem, só cresce.

E a partir dessa certeza que o amor brota e cresce, sei que um dia vai chegar aí e que aquele coração radiante vai crescer e pintar dentro de você também.