domingo, dezembro 11, 2022

Dias de uma puta - parte 2

 A primeira vez que Samsa a agarrou foi no corredor de um hotel.


Mas vou do começo. Minha mãe.

Mulher alegre com uma dor dentro dela. Era costume seu dizer que a gravidade sempre empurrava para baixo e que a beleza para brotar na vida da gente exigia esforço. Me esforço todos os dias que nem você ensinou, mãe.

Sinto saudades suas.

Tenho essa lembrança, bem pequena, balançar no pneu do parque enquanto você empurrava. Quando a gente fala de ti, dá vontade de chorar. As muriçocas andam com tudo esses dias, mãe, tem que fechar a porta cedo senão elas passam a noite no quarto.

sábado, dezembro 10, 2022

Diário de uma puta - parte I

Não sei bem se esse é o melhor título para o que vou descrever. Talvez devesse começar pelo final.

Uma mosca me fez companhia durante o dia. Agora à noite, sempre à noite que escrevo, são os mosquitos que me acompanham. Eles zumbem nos meus ouvidos, me mordem, me tiram a paciência e muitas vezes me fazem desistir.

O calor brota das paredes. As portas e janelas perdem a função, ficando sempre abertas. 

Se pudesse moraria num daqueles edifícios altos, claro, lá no topo, onde os bichos não chegam e faz sempre vento. As janelas cantam e as portas batem. 

Mas não é sobre isso que vou escrever.


Quero contar da minha vida. Ou pelo menos dessa presença. 


Um dia. Com menos barulho. Talvez num lugar mais frio e sem ninguém na cama me esperando. Sempre alguém. Ou um besouro, com azar, uma barata. Quem diria, Kafka aparecendo na cama.


Ninguém paga para ver o senhor Samsa.