Eu gosto do desafio.
Pra maioria das pessoas da minha idade, o melhor dos mundos é um amor tranquilo. Montanha-russa não é comigo, dirão.
Eu não.
Gosto quando o touro entra na sala. Essa mesma cheia de cristais preciosos chamados pensamentos. O animal nunca entra tranquilo, é sempre na corrida, portanto a porta já é arregaçada com seus poderosos chifres que miram aquele lá no centro.
Bufando, a besta avança a torto e a direito, derrapa, cai, levanta, investe. A baba pinga de sua boca ofegante, os olhos estão injetados de sangue querendo morte.
Eu conheço muitíssimo bem tal espécime, pois corre em mim a mesma selvageria e barbárie. Descontrolado, me transformo. Somos agora dois numa luta que só pode levar a um final trágico.
Me fascina. Encarando fixamente essa mirada mortal, abro mão da besta que vive em mim e observo, os dois animais são o mesmo. Quanto mais fixo e atento me mantenho, mais fraco e exausto se põe o quadrúpede. Não demora e seus joelhos cedem.
Diante de mim, centenas de quilos feitos para matar se rendem. É o triunfo sobre minha própria mente. Como não se encantar diante do mais nobre dos desafios?