quinta-feira, janeiro 19, 2023

Diários de uma dona de casa - parte 1

 Limpeza é um trabalho ingrato.


O que as pessoas veem é a sujeira. Ninguém vê limpeza. Você pode sentir limpeza, mas ver, VER mesmo, não. E não venha com exemplo de piso encerado em shopping.

Na casa da mãe existe um negócio mágico que acontece com algumas crianças mimadas chamado "Louça sempre limpa". A magia consiste em depositar qualquer coisa, seja uma xícara suja de nescau ou uma panela queimada de pipoca caramelizada, e, pouco depois, vê-la limpa e pronta para uso dentro da segurança do armário.

Geralmente a criança nesse ambiente leva anos, senão uma vida inteira, para desfazer essa história da sua cabeça. É, sem sombra de dúvida, muito pior do que o Papai Noel ou o Coelhinho da Páscoa. É pior porque exige esforço. O Papai Noel deixa de existir, mas a gente continua ganhando presente. Nem sei se tem alguém que acredita no Papai Noel. Mas na "Louça sempre limpa" tem vários.

E às vezes a pessoa vai se dando conta aos poucos. É um processo de aprendizado lento, doloroso e exige muita paciência da professora (aqui vai no feminino porque infelizmente é a mulher quem normalmente recebe esse papel, mas claro que existem professores de outros gêneros também). 

Existem alguns degraus, como as séries no ensino fundamental, que compõem esse aprendizado.

 

1. Quando ninguém lava a louça e a pessoa tem o primeiro choque de realidade

É um evento traumático na vida de qualquer pessoa. É o fim de toda uma fantasia criada desde pequeno e o começo de uma realidade penosa e de muito esforço irreconhecido.

2. Quando o aluno lava a louça, mas ninguém seca e se acumula no secador / o mistério da pia

Deparado com a dura realidade de precisar lavar os pratos, o vivente até se dispõe a realizar essa árdua tarefa, mas logo percebe que a louça volta a se acumular em outro ponto: o secador de pratos. Geralmente é nesse ponto também que outro mistério surge, o da pia. O que fazer com os restos de comida que ficam acumulados no ralo? Ou com o sabão em cima da bancada?

3. Quando o aluno lava, não seca, mas guarda a louça

Muitas pessoas chegam até este ponto ou param no anterior. Consiste em deixar os pratos secando de um dia para o outro no escorredor para guardá-los depois. Há pessoas que argumentam contra a necessidade de lavar pratos de uso diário, outras que digam passar baratas por cima das coisas durante a noite, entre outras opiniões. É fato comprovado por pesquisas que quem guarda a louça também limpa o ralo da pia.

4.Lava, seca, guarda e limpa a pia até com rodinho

Considerada a graduação do homem hetero adulto, consiste em realizar todas as etapas mencionadas acima com a adição de um instrumento chamado rodinho. O aluno realmente aplicado, que abandonar toda ilusão de ego na tarefa da louça, sentirá uma verdadeira onda de compreensão ao usar o rodinho para remover a água acumulada em cima da pia e desaparecer com todo o sabão e impurezas remanescentes da sua mente/bancada.

5. As especializações

Como todo curso que se preze, há níveis avançados para quem deseja se dedicar à arte da limpeza de pias. Vou citar apenas os dois mais conhecidos.

5.1 O professor

Atingido o grau de maestria ao passar anos lavando louça, muitas vezes o aluno se sente tocado a passar adiante o conhecimento e toda a iluminação advinda dele. A transmissão do conhecimento pode se dar de muitas formas, variando conforme o aluno e o grau de relação estabelecido. Há também professores involuntários, muitas vezes chamados de pais, embora nem sempre tenham parentesco com seus filhos ou nem mesmo idade para serem seus pais. É o caso, por exemplo, de amigos que moram juntos.

5.2 O fã de tecnologia, a.k.a. o preguiçoso

Certas pessoas, mesmo com a esponja e o detergente na mão, optam por ir contra os princípios passados pelos mestres mais antigos e se dedicarem a um novo hábito que consiste no lava-louças. Esse instrumento do sedentarismo permite que o vivente apenas jogue sua louça lá dentro e acione alguns botões para mais tarde reutilizar seus pratos (há quem ainda guarde os pratos depois de secos lá dentro). Existe uma discussão em andamento sobre o grau de degradação que esses aparelhos proporcionam. Embora evidências apontem que a borda dourada de certos pratos não seja esfoliada por jatos quentes e sob pressão, há uma demanda por mais pesquisas por parte da comunidade loucística.