"Têm o mesmo nome, o mesmo sobrenome. Ocupam a mesma casa e calçam os mesmos sapatos. Dormem no mesmo travesseiro, ao lado da mesma mulher. A cada manhã, o espelho lhes devolve a mesma cara. Mas ele e ele não são a mesma pessoa:
— E eu, o que tenho a ver com isso? — diz ele, falando dele, enquanto sacode os ombros.
— Eu cumpro ordens — diz, ou diz:
— Sou pago para isso. Ou diz:
— Se eu não fizer, outro faz. Que é como dizer:
— Eu sou o outro.
Frente ao ódio da vítima, o verdugo sente estupor, e até uma certa sensação de injustiça: afinal, ele é um funcionário,um simples funcionário que cumpre seu horário e suas tarefas. Terminada a jornada extenuante de trabalho, o torturador lava as mãos.
Ahmadou Gherab, que lutou pela independência da Argélia, me contou. Ahmadou foi torturado por um oficial francês durante vários meses. E a cada dia, às seis em ponto da tarde, o torturador secava o suor da fronte, desligava da tomada a máquina de dar choques e guardava os outros instrumentos de trabalho. Então se sentava ao lado do torturado e falava de sua mulher insuportável e do filho recém-nascido, que não o deixara grudar o olho a noite inteira; falava contra Orã, esta cidade de merda, e contra o filho da puta do coronel que...
Ahmadou, ensangüentado, tremendo de dor, ardendo em febre, não dizia nada."
(O Livro dos Abraços - Eduardo Galeano)
segunda-feira, junho 28, 2010
quinta-feira, junho 10, 2010
Fernando Pessoa anuncia fusão de heterônimos
Flagrado na Ilha de Caras, Fernando Pessoa disse que está bem mais leve
depois que passou a ser um só. “Além de mala, aquele Alberto Caeiro não
pegava ninguém.”
LISBOA – Em pronunciamento que pegou de surpresa o mercado editorial, o poeta e investidor Fernando Pessoa anunciou ontem a fusão dos seus heterônimos. Com o enxugamento, as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro passam a fazer parte da holding Fernando Pessoa S.A. “É uma reengenharia”, explicou o assessor e empresário Mario Sá Carneiro, acrescentando que “de uns tempos para cá ficou claro que era preciso fazer um streamlining na nossa operação se quiséssemos sobreviver num ambiente poético cada vez mais competitivo.” Pessoa confessou que a decisão foi tomada “de coração pesado”, mas o seu CFO não lhe deu alternativas. “Drummond sempre foi um só. A operação dele é enxutinha. Como competir?”, indagou. O poeta chegou a pensar em terceirizar os heterônimos através de um call-center em Goa, mas questões de gramática e semântica acabaram inviabilizando as negociações. “Eles não usam mesóclise”, explicou Pessoa.
A notícia dividiu o mercado editorial. Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, disse que a eliminação dos heterônimos ajudará a diminuir os custos de marketing: “O brasileiro médio sabe quem é Fernando Pessoa. Mas as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nunca chegaram a se firmar.” Já a Central Única dos Poetas, sindicado ligado à CUT, declarou, em nota, que a medida é “mais um exemplo da brutalidade do mercado”, e confirmou para amanhã uma greve de 48 horas, na qual nenhum poeta fará rimas e Gilberto Gil dirá coisas compreensíveis.
Mario Sá Carneiro declarou que, uma vez consolidada a fusão, a holding Fernando Pessoa S.A. pretende adquirir as marcas T. S. Eliot, Albert Camus, Jean Paul Sartre e Friedrich Nietzsche. “E claro, no futuro, se tivermos bala, toda a obra poética de José Sarney.”
A notícia dividiu o mercado editorial. Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, disse que a eliminação dos heterônimos ajudará a diminuir os custos de marketing: “O brasileiro médio sabe quem é Fernando Pessoa. Mas as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro nunca chegaram a se firmar.” Já a Central Única dos Poetas, sindicado ligado à CUT, declarou, em nota, que a medida é “mais um exemplo da brutalidade do mercado”, e confirmou para amanhã uma greve de 48 horas, na qual nenhum poeta fará rimas e Gilberto Gil dirá coisas compreensíveis.
Mario Sá Carneiro declarou que, uma vez consolidada a fusão, a holding Fernando Pessoa S.A. pretende adquirir as marcas T. S. Eliot, Albert Camus, Jean Paul Sartre e Friedrich Nietzsche. “E claro, no futuro, se tivermos bala, toda a obra poética de José Sarney.”
Fonte: The Piaui Herald - http://www.thepiauiherald.com.br/
segunda-feira, junho 07, 2010
Fim
Palhaço do meio da noite, quantas vezes mais precisa pra chegar no ponto que tu me toca e eu te toco e a gente morre tudo junto sem problema?
Não é essa paz que tu queria?
Agora que a gente já chegou até aqui só precisa dar mais esse passo e cai junto, junto do pilar, prédio de concreto, reto e alto como todos os prédios e que machuca quando o chão vem até em cima.
Mas ele não quer que a gente pule, porque ele sempre surge quando tu pensa em pular e daí é sempre assim, até um dia que a gente pensa foda-se e pula mesmo com ele ali tentando nos segurar e daí acaba tudo e fica triste por que ele não queria pular contigo.
Não é essa paz que tu queria?
Agora que a gente já chegou até aqui só precisa dar mais esse passo e cai junto, junto do pilar, prédio de concreto, reto e alto como todos os prédios e que machuca quando o chão vem até em cima.
Mas ele não quer que a gente pule, porque ele sempre surge quando tu pensa em pular e daí é sempre assim, até um dia que a gente pensa foda-se e pula mesmo com ele ali tentando nos segurar e daí acaba tudo e fica triste por que ele não queria pular contigo.
Ahmsterda
Num delírio da madrugada achei que a privada tivesse herpes e me encantei com esse pensamento bobo pra não sentar a bunda num lugar qualquer. Fiz pingar no chão pra fazer parte daquela poça amarelo incolor que já tava se acumulando desde o início da noite.
Dei risada, talvez fosse da maconha, talvez porque sou muito engraçado comigo mesmo, olhei pra poça denovo e pensei que aquela mesma poça podia estar no outro bar lá de Londres e naquele em Sidney e em todos esses lugares legais com bares.
E a bateria tava tão alta e ritmava a minha cabeça fazendo pressão pra expulsar meu cérebro pra fora. Mas aí minha risada alta tocou no meu ouvido e não doeu e de repente ficou tudo bem denovo.
Dei risada, talvez fosse da maconha, talvez porque sou muito engraçado comigo mesmo, olhei pra poça denovo e pensei que aquela mesma poça podia estar no outro bar lá de Londres e naquele em Sidney e em todos esses lugares legais com bares.
E a bateria tava tão alta e ritmava a minha cabeça fazendo pressão pra expulsar meu cérebro pra fora. Mas aí minha risada alta tocou no meu ouvido e não doeu e de repente ficou tudo bem denovo.
Gemi
Eu tenho algo pra te dizer
e não é sobre tu mijar no jornal
nem sobre quando a gente tomou banho.
Tua verruga na boca me dá nojo.
Mas também não é isso.
Existe uma angústia.
Eu não sei como, nem porque.
Se a gente não tivesse comido. Se a gente não tivesse bebido, fumado, cheirado.
Se alguma coisa. Quem sabe eu fosse menos cão.
e não é sobre tu mijar no jornal
nem sobre quando a gente tomou banho.
Tua verruga na boca me dá nojo.
Mas também não é isso.
Existe uma angústia.
Eu não sei como, nem porque.
Se a gente não tivesse comido. Se a gente não tivesse bebido, fumado, cheirado.
Se alguma coisa. Quem sabe eu fosse menos cão.
terça-feira, junho 01, 2010
Da fogueira do nosso alimento
Queima.
Queima tudo aqui dentro.
Não entendo como não enxergam quando cuspo fogo e meus olhos refletem labaredas.
Mentira. Também ignoro quando enxergo vocês com o mesmo fogo comendo por dentro.
E assim nos alimentamos uns dos outros.
Queima tudo aqui dentro.
Não entendo como não enxergam quando cuspo fogo e meus olhos refletem labaredas.
Mentira. Também ignoro quando enxergo vocês com o mesmo fogo comendo por dentro.
E assim nos alimentamos uns dos outros.
Cansei de ser cínico
Depois de três meses e alguns dias, cansei.
Não tenho mais força pra bater pé nas minhas idéias, já abri mão de todas.
Cada dia fica mais claro, brutal e forte esse redemoinho. Me traga por inteiro, minha expressão magra, com a barba por fazer, os olhos cansados.
Algo lá no fundo ainda grita. E quanto mais fundo, maior o barulho. Me esforço pra conter esse demônio (se bem que me diz que demônio é aquele lá fora), porque ainda tenho medo do que acontece depois.
Mantenho essa atitude cínica. Bom dia, boa tarde e boa noite.
E toda palavra fere esse monstro que ruge.
Não tenho mais força pra bater pé nas minhas idéias, já abri mão de todas.
Cada dia fica mais claro, brutal e forte esse redemoinho. Me traga por inteiro, minha expressão magra, com a barba por fazer, os olhos cansados.
Algo lá no fundo ainda grita. E quanto mais fundo, maior o barulho. Me esforço pra conter esse demônio (se bem que me diz que demônio é aquele lá fora), porque ainda tenho medo do que acontece depois.
Mantenho essa atitude cínica. Bom dia, boa tarde e boa noite.
E toda palavra fere esse monstro que ruge.
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