A gaiola é uma jaula de concreto com janelas teladas no 3.º ou 4.º andar de um prédio que lembra um banheiro pelos azulejos, algo que foi moda em algum momento e, graças ao bom gosto brasileiro, se abandonou como os tamancos (e quem sabe em algum lugar ainda usam, exatamente como os tamancos).
Os pássaros mantidos em cativeiro vivem mais, pois são bem cuidados. Banho, tosa, vacinas e vermífugos em dia, exercícios e até classes de canto. A perfeição consiste em administrar o tempo, comprar uma casa, ter investimentos.
Administrar o tempo. Não é que o pássaro não saia da gaiola. Ele saí, saí sim, muitas vezes vai mais longe do que se fosse um simples pássaro andarilho. Com datas de chegada e de partida. Airbnb ou booking. Um jantar fora, outro sanduíche no almoço.
Comprar casa e ter investimentos são parecidos. Significa que o pássaro canta bem, tão bem que sobra. Sobra para pensar em sonhos como a casa própria ou em viver de investimentos.
Ilusões de liberdade que, na verdade, são grilhões. Não há nada de mal nisso. Pássaros em cativeiro vivem mais. É natural que se busque o cativeiro, a referência de conforto e normal.
Talvez não. Só conforme o pássaro envelhece, o talvez vai ficando cada vez mais pianinho e a certeza de uma vida cômoda e prática se torna uma prior[idade]. E a vida não é feita de se, mas de certeza. Por isso é bom ter os dois pés no chão ou duas asas no céu.