Vivia um pequeno processo de desaprender a falar. Pequeno porque era tão simples, tão frugal, que os outros e ele mesmo nem se apercebiam. Mas o peso do tempo fazia grandeza.
Os primeiros anos correram tranqüilos, vezemquando fazia alguma bobagem como insistir numa piada ou não saber o que falar nos momentos mais óbvios. Acho que foi lá pelo quinto ano que aconteceu o primeiro impacto. Não que tenha sido impactante, quem observava de dentro acreditava ser extremamente normal. Acontece, diziam. Mas se tratou de um marco.
Tinha aberto um livro, algo como A Divina Comédia, clássico. Depois de ler por uns vinte minutos, um amigo adentrou na sala e perguntou qual era o nome do livro. Não soube responder. Riram e fizeram piadas sobre fumar demais. Fechou a capa e mostrou o título. Só mostrou, sem falar. Dali em diante não respondia mais o nome do livro, mostrava a capa. Não havia necessidade de fala.
Passou a observar outros eventos que não necessitavam de fala. A leitura das horas no relógio da cozinha. Um trecho do jornal. O nome do site. Podia ser inconveniente: como não dizer a placa do próprio carro e ficar parado apontando. Mas não era de se abismar, era esperado, ele era meio estranho, meio quieto, meio tímido.
Descobriu que a maior parte das ações poderiam ser feitas pela internet. Compras no super. Compras na livraria. Compras. E o que não se comprava, como filmes, programas de computador, música, se adquiria com downloads. Muitos downloads.
Sair de casa se tornou um transtorno, a possibilidade de falar com alguém na rua passara a ser angustiante. Além do que, não havia necessidade.
Passou uma semana sem encontrar outro ser humano. Depois mais tempo. Não tinha mais amigos. Não havia necessidade. Muito toque, muito ter que dizer. Ter que fazer algo. O trabalho estava resolvido, era bem pago para pesquisar tendências. Internet. Podia se comunicar apenas pelo msn. Evitava reuniões online, daquelas por skype.
Depois de um ano, o qual passou feliz por não encontrar outro ser vivo, sentiu uma saudade súbita dos pais. Já estavam mortos havia muito. Sentia falta de brincar na pracinha, de andar de balanço, de tentar ser mais pesado na gangorra. Não saberia explicar para alguém porque sentiu saudade. Não sentia necessidade também. Foi até o banheiro e se olhou no espelho. Não tinha mais ninguém lá.
segunda-feira, fevereiro 28, 2011
domingo, fevereiro 13, 2011
Medrosa
"eu sou muito medrosa
cínica covarde
sonsa injusta
eu não sei fazer justiça
não sei como faz justiça
eu não tenho coragem de enfrentar nada
tenho que enfrentar a violência e a grosseria
e ir à luta pelo pão de cada dia
sou advogada de defesa e salva-vidas"
(Stela do Patrocínio)
Ouça o CD: http://entrevistacomstela.wordpress.com/ouca-o-cd/
cínica covarde
sonsa injusta
eu não sei fazer justiça
não sei como faz justiça
eu não tenho coragem de enfrentar nada
tenho que enfrentar a violência e a grosseria
e ir à luta pelo pão de cada dia
sou advogada de defesa e salva-vidas"
(Stela do Patrocínio)
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