Sempre comentei que o objetivo de se ter filhos era deixar eles irem embora.
Por causa da minha mãe, no começo. Sempre tão presa a mim, tão grudada, tão apaixonada. Só queria que ela largasse do meu pé.
Mas me dei conta: não se trata de ter filhos e deixar eles irem embora. É deixar tudo ir embora. A namorada, o gato, o trabalho, o dinheiro, os pais, os filhos, o carro, a casa, a cama, o postal, o gosto por roupas, o favorito do sorvete, a intransigência, os sentimentos, os pensamentos, a vida.
É difícil abandonar a esperança de que alguma dessas coisas é pra sempre, é durável, é confiável, mesmo que essa coisa seja eu mesmo. Vai chegar o fim da vida, na velhice, num acidente de carro, num ataque cardíaco, e vou me agarrar com todas as forças no que tiver ao meu alcance. E não vai adiantar.
Me dá vontade de sair correndo. Enxergar: estou me agarrando NISSO e correr muito rápido e pra bem longe. Pra que, pra me agarrar na corrida. Não vai adiantar também.
Então que seja bom. Agradável. Feliz. Enquanto dure.