segunda-feira, junho 29, 2009

Tele-entrega

Eu não costumo pedir comida por tele-entrega.
Achava desagradável, perda de dinheiro, tinha medo de me relacionar com o atendente no telefone, quanto mais com o motoqueiro.

E nessa última semana, por algum motivo ainda esquisito, tudo que eu mais quero é comida chinesa na caixinha, entregue em casa.

Agora, que já comi a tele-entrega, yakisoba de vegetais (com excesso de molho shoyo), me dei conta.

Quando coloquei a caixinha em cima da mesa, senti a tua falta. E a falta daquele programa (horrível, mas nosso até no nome "A Praça é Nossa"). E a falta daquelas tardes e noites intermináveis, cheias de bonequinhos, histórias milaborantes, banho naquele chuveiro esquisito, conversas com aquele tio mais esquisito ainda...

Ai pai. Por que tu se foi? Sabe, agora tu não é mais essa figura que tá na minha cabeça. Mesmo que estivesse na tua casa, o yakisoba tu não ia comer. De hashi então, muito menos. A gente ia ter que comer naquele corredor que tu chama de cozinha, não no quarto assistindo sbt no fim da noite. Tua mulher ia implicar com alguma coisa, óbvio. Minha irmã mais nova ia ocupar quase todo o tempo que tenho só contigo na cozinha. O resto dele tu ia ocupar falando da crise, do governo atual, do teu colega no banco e de qualquer problema socio-político-econômico-cultural-psicológico do teu interesse.

Tu ainda brilha um pouco quando fala do passado. Mas isso já é tão raro, que acabo te encarando como um fantasma de quem era o meu pai. Vagando por aí, dando pitacos extremamente inteligentes, mas não indo mais a lugar algum e sem escutar coisa alguma.

Agora como sozinho a porção de dois, assistindo a um filme qualquer que passa na tv. E choro a saudade.

Casa Vazia

Nesse final de semana tive a casa só para mim.
Passei três horas, das 72, em casa.

Isso significa que meu gato, além de sofrer com a crise dos alimentos, ficou muito carente. Agora aqui no meu colo me afaga e está numa felicidade sem tamanho.

Talvez tenha passado os dias miando alto. Ou se irritado com o acúmulo na caixa de dejetos. Não sei.

Passei boa parte do tempo escutando. Aliás, isso tem virado vocação. Teus problemas com teus pais, avós, tua afeição pelos teus amigos, a deprê do fulano, a carência do outro, o teu vício, ...
Ok. Faço o que nenhum dos teus grandes amigos faz, te escuto e só.

Mas não sou príncipe encantado, o amor da tua vida, o cara, por fazer isso.
Acredito que funciono mais como um espelho. Tu fala, fala, fala e enxerga isso tudo no reflexo.

E aí quem é que tu ama? O espelho ou o teu reflexo?

Miau, é.

sexta-feira, junho 26, 2009

Relacionamentos I

É importante, nos três primeiros meses da relação, estabelecer um vínculo sexual intenso.
Sexo deve ser praticado ao menos uma vez por semana, sendo o ideal três vezes ou mais por semana. É fundamental que se tenha tempo para praticar o coito, não que se vá passar a noite inteira rangendo a cama, mas ter o espaço para conversa, segunda, terceira, quarta vez, água, refeição noturna. Isso contribui para o bem-estar e amadurecimento da relação, além da diversão de explorar outros cômodos da casa.

quinta-feira, junho 25, 2009

Do quadro clínico

- É grave?
- Gravíssimo.
- Existe alguma possibilidade de cura?
- Sempre há esperança.
- Doutor, por favor, o que devemos fazer?
- É preciso interná-lo. Afastá-lo do contato feminino completamente, antes que enlouqueça.
- Não poderá encontrar nem a mãe?
- Seria perigoso até mesmo para ela. Em até três meses deve estar curado, será possível apresentá-lo à sociedade novamente. Será um novo homem, as mulheres não terão por que temer nos supermercados, ônibus, praças e quaisquer outros locais. É possível até que estabeleça relacionamentos consistentes.
- O senhor não acha que o contato sexual pode causar um retorno dos sintomas?
- Não. Uma vez que o paciente se dê conta de sua disfunção, é extremamente raro o quadro reaparecer.

Curinga

"Minha casa é em lugar nenhum – prosseguiu ele. –Não sou de copas, nem de ouros, nem de paus, nem de espadas. Também não sou rei ou valete, nem oito, nem ás. Aqui estou eu, um simples curinga. E tive de descobrir sozinho o que é ser um curinga. Toda vez que mexo a cabeça, meus guizos tilintam e me lembram de que não tenho família, de que sou sozinho. Não tenho um número nem um ofício. [...] Assim, tudo o que eu sempre fiz foi andar por aí observando tudo o que os outros faziam. Em contrapartida, pude ver um monte de coisas para quais os outros sempre foram cegos."

Higiene e Economia

1. Banho somente aos sábados.

2. Uma vez por mês todo mundo tem direito a banho de banheira.

2.2 A ordem da banheira é a seguinte:
- O vô
- A vó
- O pai
- A mãe
- O irmão mais velho
- O irmão do meio
- A irmã mais nova
- A visita

2.3 Cuidar pra não derramar água para fora da banheira, senão quando chegar na vez da visita já estará muito rasa.

3. Desligar o aquecedor durante a noite pra não gastar carvão.

4. Não revezar os cobertores e evitar lavar a cabeça na banheira em caso de piolhos

5. A descarga só é puxada uma vez por dia, às 22 horas.

Prazer em conhecer

- Esse livro é aquele que a guria morre de câncer no final, mas antes é visitada por um anjo?
- Não, esse é aquele que a mãe morre de câncer e viaja com o filho e o marido.
- Ah tá, é que eu tava procurando saber o nome desse livro, o que é meio besta, já que tenho ele lá em casa e é só olhar. Mas sabe como é.
- Heh, sei sim.
- Já leu aquele outro que conta a história da filosofia e tal?
- Já. Achei muito extenso. Pra mim o melhor é o do curinga, sabe?
- Sei. Tá lá em casa junto desse aí. E tem ainda outro, mas sou péssimo pra nomes. Sobre o que é esse do curinga?
- Eles fazem uma viagem e acabam numa ilha cheia de anões, cada anão é uma carta do baralho. Daí o curinga é o único que não se encaixa, é muito bom. Deve ser o melhor dele.
- Tô a séculos pra ler.
- Também fico com livros na estante esperando durante muito tempo, heh.

- Essa parte é a que mais gosto do ônibus. Não é bonita a paisagem daqui? Sem os prédios e tal. De noite é lindo, todas as casas ficam iluminadas. Mas já acabou, é, de volta pro concreto.
- Não pego muito esse ônibus.
- Fez vestibular hoje?
- Sim.
- Medicina?
- Hm.. não, medicina só no fim do ano. Agora fiz pra biologia. Os professores do cursinho disseram que é bom pra praticar pra outros cursos.
- Ah. É teu primeiro ano depois do colégio?
- Sim, primeiro ano de cursinho. E tu? Fez vestibular também?
- Não.. tava filmando uma peça de teatro lá. Meus colegas se apresentam ainda essa semana, queriam ter uma idéia e tal.
- Poxa, que legal, mas tu faz o que?
- Cinema.
- Eu tinha um colega que entrou agora. Gabriel, conhece?
- Hm.. moreno, sobrancelha grossa?
- Esse mesmo. Estudava comigo no colégio.
- Sei. Ele é meio esquisito, me adicionou sem nunca ter falado comigo antes.
- É, eu achava ele esquisito também, ele fez intercâmbio na Hungria. Sabe, quando as pessoas fazem intercâmbio ninguém pensa na Hungria.
- País estranho pra ir heh.
- Mas ele é bem legal, conversei com ele mais no último ano, quando ele voltou.
- Tu desce nessa?
- Não, desço lá no parcão. E tu?
- Desço ali na tok&stok, sabe?
- Uhum.

- Como tu acha que foi?
- No que?
- No vestibular.
- Ah, não sei. Química sei que fui mal.
- Fiz 3 em química.
- Nossa! Heh! Minha amiga fez 3 na ufrgs, só que em espanhol.
- Bah, ela se puxou.
- Sim, queria arrancar os cabelos.
- Eu desço nessa.
- Ah tá.
- Então. É.
- É, boa noite, heh.
- Boa noite. E boa sorte no fim do ano!
- Obrigada.

segunda-feira, junho 22, 2009

Mãos

Quentes, frias, pequenas, grandes.
Dedos longos, finos, pequenos, grossos.

Me invadem os poros e fazem querer parar o tempo.

(finalizado em 17.01.2010)

Gogol Bordello



domingo, junho 21, 2009

Paixão

é

- A noite que a gente decidiu pintar a parede de vermelho e tomou um banho de tinta.

Sobre galinhas e carnes

Não faz muito, três meses?, decidi não comer qualquer carne que não viesse do mar. Um problemão, uma vez que não gosto muito de fazer peixe e não sei muitas receitas sem carnes vermelhas.
Quinta-feira foi aniversário da minha vó. Tinha vinhos, pães, doces e ainda ia chegar pizza. E chegou: duas calabresas, uma frango catupiry, meia margarita, meia portuguesa (que era calabresa com presunto). Como faz?

*Não faz muito também, decidi que preciso voltar a comer carne. Uma questão de viagem e saúde que não vem ao caso.*

Comi a pizza de frango e a margarita. (esqueci de dizer que tinha mais duas de banana e chocolate, claro que comi também). Me senti mal pelo frango, achei que ia passar mal (aconteceu numa outra vez), mas no fim das contas não, pelo menos até agora.

Johnny Cash



quinta-feira, junho 18, 2009

Minha amada galinha

Hoje te comi, querida.
Senti o gosto do teu sofrimento, enquanto devorava tua carne. Te machuquei, meu bem, e sei. Li no poema do ônibus que peguei depois: "A lágrima é quente e a noite é fria". Achei tão bonito que decidi escrever esse trecho nesse pedaço de nada que dou tanto valor.
No meu caso, talvez, seja o vômito é quente e a noite fria. O vômito pode ser tanto que vou chorar, afundar minha cabeça no vaso. E não vai ser a noite fria, por que o banheiro é sempre frio, com seus azulejos verdes me olhando e repelindo. O choro é quente e os dias é que são frios.

quarta-feira, junho 17, 2009

Das espécies

"Não resta a menor dúvida de que a mulher não é a fêmea natural do homem. Num trágico fenômeno sísmico, o homem perdeu sua fêmea natural, e, talvez nesse mesmo fenômeno, a fêmea também perdeu seu macho natural. Essas duas espécies essencialmente diferentes vivem até hoje juntas, numa simbiose anormal."

(Todas as Mulheres do Mundo)

Tôdas as Mulheres do Mundo



segunda-feira, junho 15, 2009

Curry

O caril ou curry é uma mistura de especiarias muito utilizada na culinária de países como Índia, Tailândia e alguns outros países asiáticos.

Este condimento é feito à base de pó amarelo de açafrão-da-índia (curcuma), cardamomo, coentro, gengibre, cominho, casca de noz-moscada, cravinho, pimenta e canela. Para além destes ingredientes básicos, outros são incluídos, de acordo com as preferências: alforva, pimenta-de-caiena, cominhos finos, noz-moscada, pimenta-da-jamaica, pimentão e alecrim, entre outros. Existem caris que chegam a levar setenta plantas diferentes. Inicialmente o caril servia para temperar exclusivamente o arroz, mas actualmente é usado para a confecção de inúmeras receitas, como o frango de caril, etc.

A introdução da palavra caril na língua portuguesa remonta a 1563, data do primeiro registo escrito, tendo tido como origem a língua tâmil. Apesar da sua antiguidade, a forma caril é pouco empregada no Brasil, onde são mais populares as formas inglesa curry ou japonesa carê, respectivamente para as culinárias indiana ou japonesa. A forma inglesa curry foi adaptada da forma portuguesa caril em 1598, de acordo com registos escritos.




http://pt.wikipedia.org/wiki/Curry

terça-feira, junho 09, 2009

Carta

Entre as flores rosas de um parque qualquer numa cidade qualquer.
Vou sentir teu gosto - e de mil outras!

Teu fôlego, tua expressão, tua ânsia. Tua e delas.
Êxtase.

Diz logo tua sede.
Arrebenta, pinta de vermelho tua cara já manchada.
Chega de meia-palavras e meios-amores! Quero teu sangue.

Te matar o tempo todo.



Cansa. Seis meses de ciclo seco, de outros amores e fingimentos. Mas não adianta cansar, não volta. Fica lá pra sempre e o que resta é mentira. Essas frases curtas, soltas, feias, que trancam depois de cada ponto, quase como se esperassem algo acontecer.

sábado, junho 06, 2009

Do reflexo no vidro

No reflexo desse vidro fosco a gente acaba enxergando muita coisa.
Inventado e misturado.
Invertido como aquele amor de infância, que jogava pedra enquanto dizia te amo.
Te encontrei no restaurante do trabalho. Magro, pálido, com dois filhos estudando no nosso colégio. Não olhou para mim, nem queria. Depois do que te fiz, nunca mais a gente se relacionou do mesmo jeito.

No verão daquele ano não tinha com quem brincar. Pegava cartas e fazia castelos. Tirei fotos, tenho até hoje pra te mostrar. Li um livro também, quer dizer, pelo menos comecei. Parei quando me masturbei com ele. Engraçado, né, se masturbar com um livro. Foi a primeira vez. Era a história do escritor do Kama Sutra, contada por um discípulo.

Apaguei aquele vidro fosco da mente até hoje. Deve ter sido o terno que atraiu o teu olhar. Ou talvez tu estejas só com tua rouquidão. Só com todos a minha volta me dizendo quão bonita.
Atraiu e fez chover uma água húmida do lado de dentro.

De todos os amores que não deram certo.