quarta-feira, dezembro 13, 2006

Espere pela primavera

Chegou muito cansado em casa. Era noite já. Sentou na cama, mas não durou muito nessa posição. Acabou se deitando, virado para a sacada. Conseguia ver a luz dos postes lá fora e um grande ipê roxo que balançava ao vento. Não tinha vontade de se mexer.. estava num daqueles momentos que duram para sempre. Como naquele dia do Majestic. Aquele dia da Palavraria. Aquele dia da volta da praia. Entre outros dias mágicos.

Mas a magia sempre acabava. Na verdade, não acabava. Acabavam com ela. Ir pra casa, pro trabalho, tomar banho, estudar, comer, encontrar fulano e beltrano, ... E iria acabar com a magia dessa vez também. Precisava pôr um pijama, tirar os tênis, dormir. Dormir cedo, acordar para a aula das 8.30.

Suspira, levanta e vai tomar um banho. Enquanto tira as roupas, tocam a campainha. Abre a porta só de calças e com a toalha na mão. Não tem ninguém. Saí para o corredor. Ninguém à vista. Olha as escadas, mas está tudo vazio. Pára na porta e pensa um pouco. Queria que tivesse alguém do outro lado da porta. Uma pessoa especial. Que ficasse ali, conversasse. Comessem uns bifes ao alho e óleo enquanto tomavam uma cerveja. Que rissem juntos. Mas esse tipo de gente não caí na nossa porta, pode cair na dos outros, mas na nossa não. Por quê sentia, precisava, alguém assim?

Era um grande carente, essa é a verdade.

Riu de si mesmo. A primavera é muito boa, mas depois dela vem o verão. E essa é a parte que não gosta.
Podia não existir verão. Podia? Não, não podia. Precisamos do verão.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

O menino

Vivia sozinho num apartamento pequeno. Tinha espaço para pôr-se de pé e caminhar ao redor da cama. Tinha um pouco mais de espaço na verdade, o 'quarto' era separado por um balcão da 'cozinha'. Então podia caminhar próximo ao balcão também. O balcão concentrava pequenos fragmentos de comida ao redor, fruto das muitas experiências culinárias que fazia. Eram aquele tipo de fragmento que sobra quando tiramos a maior parte da comida que caiu no chão e jogamos as pequenas migalhas no canto.

Hoje estava sem sono. Ou talvez tenha ficado sem sono depois de algumas experiências com a cafeteira italiana. Sim, acabara de adquirir uma cafeteira italiana, daquelas comuns de alumínio. Tivera que guardar dinheiro por um tempo, mas conseguira. E agora fazia cafés maravilhosos. Ou o mais próximo disso.

Retornando ao assunto, estava sem sono e com fome. Sempre tivera fome de noite. Seus lanches preferidos incluiam um pão com feijão frio e farofa. Como é bom farofa, bem gostosa, com um alho pra dar gosto especial. Então, está fazendo farofa agora. Sinto o cheiro. Escuto a colher de pau raspar na panela e arrastar os grãos de farinha que vão grudando.

Queria poder abrir a geladeira e tirar uma cerveja. Uma daquelas que vêm em garrafas bonitas, pequenas. Mas tenho vergonha. Pensa que estou dormindo e, além disso, são cervejas especiais, são as cervejas favoritas dele. Me viro na cama. Fico olhando pra ele lá do outro lado do balcão. Girando a colher pacientemente. E provando de vez em quando. Não aprovo muito isso que ele faz de ficar provando a comida, mas paciência. Vira-se, fecho os olhos. Rio por dentro, fico pensando se notou que estou acordada ou se estou fingindo muito bem. Essa idéia começa a subir a minha cabeça.. não consigo mais controlar, estou rindo mesmo.

Droga! Estraguei todo meu disfarce, agora ele vem e pula na cama e.. ahhhhh!! Cosquinhas!

Amo esse menino.