quinta-feira, junho 26, 2014

Fiat Lux

Às vezes é difícil prender alguém que simplesmente passa os olhos entre essas linhas.

Exige criatividade manter uma ilusão enquanto se passa uma mensagem por trás.

Mas é o que esse pequeno trecho tem a dizer:

Muitos vivem longe das grandes antenas,
não escutam o que se está passando
e procuram ignorar quando escutam.

Mas a ordem vibra através das moléculas
e sai de cada poro, escorrendo ação
vibrando no uníssono da humanidade

Procure agradecer quando a luz
chega até você na escuridão
pois é como o Sol que nasce
depois de uma longa noite

A vida é esta e é agora
Não há mais o que fazer
Resta observar e rezar

quarta-feira, março 26, 2014

seleção natural

A seleção natural funciona como um mecanismo que se programa através da seleção dos indivíduos mais aptos a sobreviver e capazes de transmitir essa característica adiante. Entretanto, esses indivíduos são interdependentes - que também altera e é alterado - do seu meio, então o mesmo mecanismo (de seleção dos organismos em função de sua sobrevivência no tempo) atua sobre populações em espaços determinados que só se separam um dos outros por nível de grandeza do escopo escolhido (que nesta disciplina podem ser chamados de nichos ecológicos, populações, famílias...).

Mas, na minha opinião, esse mecanismo de seleção se aplica desde um nível atômico até gigantezas infinitas como o universo e em funções temporais desde a velocidade da luz até o infinito, ampliando o conceito sobre o que é vida, que não é apenas organismos que nascem e morrem num determinado período perceptível de tempo, mas sim um mecanismo (programa, idéia) que perdura ao longo do tempo. Nesse sentido, o nosso papel como humanidade, assim como cada outro "conjunto" de seres (mamíferos, rãs, micróbios, comunidade do RS, recife de corais, etc) metafisicamente falando, está inserido dentro de idéias mais amplas e ao mesmo tempo menores do que podemos conceber, então o que cabe a nós? Por que dentre as milhares de formas de se transmitir essa informação, foi criada uma (ou mais) com a capacidade de ter consciência disso? Enfim, o que existe de propósito na consciência? 

Alguém pode perguntar como assim propósito, que a seleção natural não atua para o futuro, e sim em relação ao passado, entretanto isso só ocorre se olharmos num período de tempo pequeno e apenas em relação aos ditos seres vivos. Em grandes períodos de tempo e espaço é perceptível como o universo segue em expansão a níveis de complexidade cada vez maiores e mais diversos. A seleção natural possui um propósito em si mesmo, sobreviver e ser passada adiante. 

Mas, reduzindo o escopo novamente a nós, seres humanos, existindo um propósito com a consciência da sobrevivência da idéia de sobrevivência, a vontade parece se misturar com propósito, o que nos torna, em consciência, meros observadores. 

Vemos a vida diante de nós, tomamos atitudes em relação a ela, mas estamos o tempo todo tomados pela idéia da sobrevivência. E quiçá tenha chegado nesse exemplo somente por ter iniciado respondendo uma questão de seleção natural, mas o mesmo princípio parece se aplicar a outras idéias. Vemos a vida diante de nós, mas estamos tomados por tristeza, alegria, angústia, amor, paixão, ... e tomamos atitudes em relação a ela. Até a ordem das palavras é interessante:

Vemos a vida diante de nós,
tomamos atitudes,
mas estamos o tempo todo tomados por uma idéia. 

ou seria

Vemos a vida diante de nós,
mas estamos tomados por alegria,
tomamos uma atitude. 

ou ainda

Tomamos uma atitude,
somos tomados por uma idéia
e ainda vemos a vida!

quarta-feira, março 19, 2014

90

(fica o convite)

Nesse tempo, andava apreensivo e o mau hábito de ruminar longamente cada coisa tornava-se desagradável, mas era inevitável. Tinha pensado muito no grande assunto, dando voltas e voltas na cabeça, e o desconfôrto em que vivia por culpa da Maga e de Rocamadour incitava-o a analisar com crescente violência a encruzilhada em que se sentia metido. Quando isso sucedia, Oliveira pegava numa fôlha de papel e escrevia as grandes palavras pelas quais ia resvalando a sua ruminação. Escrevia, por exemplo: "O grande hassunto", ou "a hencruzilhada". Era suficiente para começar a rir e tomar outro mate com mais vontade. "A hunidade", hescrevia Holiveira. "O hego e o houtro". Usava os hagás, como outras pessoas usavam a penicilina. Depois, voltava ao assunto, mais devagar, sentindo-se melhor. "O himportante é não hinchar", dizia Holiveira, falando consigo mesmo. A partir dêsse momento, sentia-se capaz de pensar sem que as palavras o sujassem. Tratava-se apenas de um progresso metódico, já que o grande assunto continuava vulnerável. "Quem iria dizer, meu amigo, que você acabaria metafísico?", interpelava-se Oliveira. "É preciso resistir ao armário de três corpos, amigo, conforme-se com a mesinha de cabeceira, da insônia cotidiana". Ronald viera propor-lhe que o acompanhasse numas confusas atividades políticas e, durante tôda a noite (a Maga ainda não trouxera Rocamadour do campo), tinham discutido, como Arjuna e o Cocheiro, a ação e a passividade, as razões de arriscar o presente pelo futuro, a parte de chantagem de tôda e qualquer ação como fim social, na medida em que o risco corrido serve, pelo menos, para apaziguar a má-consciência individual, as canalhices pessoais de todos os dias. Ronald acabara por ir embora cabisbaixo, sem convencer Oliveira de que era necessário apoiar ativamente os rebeldes argelinos. Oliveira ficara durante todo o dia com um gôsto ruim na bôca, porque tinha sido mais fácil dizer não a Ronald do que a si mesmo. Só estava realmente certo de uma coisa: de que não podia renunciar sem traição à espera passiva em que vivia desde sua chegada a Paris. Ceder à generosidade fácil e começar colando cartazes clandestinos nas ruas parecia-lhe mais uma explicação mundana, um ajuste de contas com os amigos que apreciariam a sua coragem, do que uma verdadeira resposta às grandes perguntas. Medindo a coisa desde o temporal e o absoluto, Oliveira sentia que errava no primeiro caso e acertava no segundo. Fazia mal em não lutar a favor da independência argelina ou contra o anti-semitismo ou o racismo. Fazia bem em negar-se ao fácil entorpecente da ação coletiva e ficar, de nôvo, diante do mate amargo, pensando no grande assunto, dando-lhe voltas como um novêlo do qual não se vê a ponta ou que tenha quatro ou cinco pontas.

Estava bem, sim, mas além disso era preciso reconhecer que o seu caráter era como um pé que esmagava tôda a dialética da ação à maneira da Bhagavad-gita. Entre preparar o mate ou ser êste preparado pela Maga, não havia dúvida possível. Mas tudo podia ser cindido e requeria imediatamente uma interpretação antagônica: a um caráter passivo correspondia uma liberdade máxima e também uma disponibilidade, a preguiçosa ausência de princípios e convicções tornava-o mais sensível à condição axial da vida (aquilo a que se chama um cara volúvel), capaz de rejeitar por ociosidade, mas também capaz, por sua vez, de encher o buraco deixado pela rejeição com um conteúdo livremente escolhido por uma consciência ou um instinto mais abertos, mais ecumênicos, por assim dizer.

"Mais hecumênicos", anotou prudentemente Oliveira.

Além do mais, qual era a verdadeira moral da ação? Uma ação social como a dos sindicalistas justificava-se de sobra no terreno histórico. Felizes aquêles que viviam e dormiam na história! Uma abnegação se justificava quase sempre como uma atitude de raiz religiosa. Felizes aquêles que amavam o próximo como a si mesmos. De qualquer modo, Oliveira rejeitava essa saída do eu, essa invasão magnânime do curral alheio, boomerang ontológico destinado a enriquecer, em última instância, aquêle que o lançava, a dar-lhe mais humanidade, mais santidade. Sempre se é santo à custa de outro, etc. Nada tinha contra essa ação em si, mas afastava-se dela desconfiado da sua conduta pessoal. Suspeitava de que seria traído se aceitasse colar os cartazes subversivos ou se decidisse entregar-se às atividade de caráter social; tratava-se, é claro, de uma traição vestida com um trabalho satisfatório, com alegrias cotidianas, com a consciência satisfeita, com o dever cumprido. Conhecia de sobra alguns comunistas de Buenos Aires e de Paris, capazes das piores baixezas, mas resgatados, na sua própria opinião, pela "luta", por terem de se levantar no meio do jantar para correm a uma reunião ou terminarem uma tarefa. Nessas pessoas, a ação social parecia-se demasiado com uma limitação, assim como os filhos costumam ser a limitação das mães, impedindo-as de fazer qualquer coisa que valha a pena nesta vida, da mesma forma como a erudição com antolhos serve para não averiguar que, na prisão da rua ao lado, continuam guilhotinando pessoas que não deveriam ser guilhotinadas. A falsa ação era quase sempre mais espetacular, aquela que desencadeava o respeito, o prestígio e as hestátuas hequestres. Fácil de calçar, como um par de sandálias, podia mesmo chegar a ser meritória ("no final das contas, seria ótimo que os argelinos ganhassem a sua independência e que todos nós ajudássemos um pouco", pensava Oliveira); a traição era de outra ordem, era como sempre a renúncia ao centro, a instalação na periferia, a maravilhosa alegria da irmandade com outros homens embarcados na mesma ação. Ali onde um determinado tipo humano podia realizar-se como herói, Oliveira sabia-se condenado à pior das comédias. Então, era melhor pecar por omissão do que por comissão. Ser ator significava renunciar à platéia e êle parecia nascido para ser espectador na primeira fila. "O pior", dizia Oliveira, "é que, além do mais, pretendo ser um espectador ativo e aí é que começa a coisa".

Hespectador hativo. Havia que hanalisar devagar o hassunto. No momento, certos quadros, certas mulheres, certos poemas, davam-lhe uma esperança de alcançar alguma vez uma zona da qual fôsse possível aceitar-se com menos nojo e menos desconfiança do que estava sentindo. Tinha a vantagem, nada desprezível, de que seus piores defeitos tendiam para servir-lhe naquilo que não era um caminho, mas sim a procura de um ponto alto, do qual poderia descobrir todo o caminho. "Sempre tomei as grandes decisões como simples máscaras de fuga". A medida dos seus empreendimentos (dos seus hempreendimentos) culminava not with a bang but with a whimper; as grandes rupturas, os bang sem regresso, eram mordidas de ratazana encurralada e nada mais. O outro girava cerimoniosamente, resolvendo-se em tempo ou em espaço ou em comportamento, sem violência, por cansaço - como o fim das suas aventuras sentimentais - ou por uma lenta retirada, como quando se começa a visitar cada vez menos um amigo, ler cada vez menos um poema, ir cada vez menos a um café, dosando suavemente o nada para não se lamentar.

"A mim, na realidade, nada me poderá acontecer", pensava Oliveira. "Nunca me cairá um machado sôbre a cuca". Por que, assim, esta inquietação, se não fôsse a mania da atração pelo adverso a nostalgia da vocação e da ação? Qualquer análise da inquietação, na medida do possível, aludia sempre a uma descolocação, a uma descentração com respeito a uma espécie de ordem que Oliveira era incapaz de determinar. Sabia-se espectador à margem do espetáculo, como estar num teatro com os olhos vendados: por vêzes, chegava-lhe ao ouvido o segundo sentido de uma palavra, de uma música, enchendo-o de ansiedade porque era capaz de intuir que o primeiro sentido também estava ali. Nesses momentos, sabia-se mais próximo do centro do que muitas pessoas que viviam convencidas de ser o eixo da roda, mas a sua proximidade inútil era um instante tantálico que nem sequer adquiria qualidade de suplício. Já acreditara alguma vez no amor como enriquecimento, como exaltação das potências intercessoras. Certo dia, deu-se conta de que seus amôres eram impuros porque pressupunham essa esperança, enquanto o verdadeiro amante amava sem esperar o quer que fôsse do amor, aceitando cegamente que o dia se tornasse mais azul e a noite mais doce e o bonde menos incômodo. "Até da sopa eu faço uma operação dialética", pensou Oliveira. Suas amantes acabavam sempre por tornarem-se suas amigas, cúmplices numa contemplação especial das circunstâncias. As mulheres começavam sempre por adorá-lo (êle era verdadeiramente hadorado por elas), por admirá-lo (uma hadmiração hilimitada); depois algo as fazia suspeitar do vazio, recuavam e êlhe lhes facilitava a fuga, abria-lhes a porta para que fôssem brincar em outro lugar. Em duas ocasiões, estivera a ponto de sentir certa piedade e de lhes deixar a ilusão de que o compreendiam, mas algo lhe dissera que sua piedade não era autência, era antes um recurso barato do seu egoísmo e do seu tédio e dos seus hábitos. "A Piedade está em liquidação", dizia Oliveira, e deixava que elas fôssem embora, esquecia delas muito ràpidamente.

(Cortázar)