terça-feira, janeiro 05, 2010

Especulação

Marta tem vinte anos, secretamente acredita no amor, mas se porta que nem uma vadia.
Já ouviu de onze pessoas "eu te amo". E não se importa, tem sede de sentimentos. Necessita de sentimentos.

Precisa preencher o vazio. Quando não está ouvindo "eu te amo", procura encher a cara dentro de caixas pretas (bem, fora das caixas e depois dentro).

Gosta de homem, mulher e o que tiver pela frente. Até agora só transou com homens, apesar de ter muita curiosidade.

Curte violência. Pensa com freqüência nas colegas sendo torturadas; mas jamais faria algo com elas. E violência só com os outros, não gosta de apanhar (no sexo), mas gosta de bater. Quer dar um soco em alguém um dia (no sexo).

Conheceu um homem peludo semana passada e se apaixonou. Não sabe dizer por quê, acha que é um instinto primitivo. Eu acho um nojo.

Vão sair essa semana denovo. Criou muita expectativa, vai se frustar.

Não, parece que ele surpreendeu de um jeito positivo. Difícil. Talvez seja o pênis.

Hoje faz três anos que saíram juntos da caixa preta. Fico pensando se vão ter filhos. Ele quer. Se tiverem uma menina, vai ser uma pena. Já escuto os coleguinhas chamando ela de lobisomem. A Marta iria engordar, certamente. Já tá meio gorda. De uns tempos pra cá, parou de se preocupar com a aparência. Ele vai ficar gordo com o tempo. Vai ser engraçado quando for velhinho, todo aquele pêlo branco e a barriga sem nada. Como um daqueles orangotangos de filme ruim da sessão da tarde.

Nunca mais perguntei sobre o vazio dela; não consegui. Acho que ela pensa ainda sobre isso, na fila do supermercado. Toda aquela variedade de produtos e ela só pode levar o que o dinheiro permite. É a filosofia besta da vida dela.

Às vezes tenho vontade de invadir a casa deles e me comportar que nem um animal, quebrando coisas, fazendo barulho de macaco. Já estão acostumados com o que mostro pra eles; o único jeito de me libertar dessa prisão que é a expectativa em cima de mim... é me portando de uma forma não racional, não linear, instintiva, bestial.

Nunca mais foram os mesmos depois. Ficaram acuados. Não falam direito comigo. Não se tem o que esperar de alguém que, a qualquer momento, pode se transformar na miniatura do King Kong.