Ela, antes de conhecer a maçã do Éden, era inocentíssima.
Achava que tudo era uma grande brincadeira, que ninguém tava falando sério sobre nada e que a vida era assim mesmo, só ela levava de vez em quando a sério.
Daí ela mordeu a maçã e descobriu que muita gente leva a sério; que não é só ela que pensa na vida, que todo mundo tá pensando o tempo todo. Na verdade, descobriu que todo mundo é um bando de filho da puta, por que apesar de pensar tanto na vida, consegue fazer tão mal aos outros.
quinta-feira, dezembro 31, 2009
Do cheiro
E esse cheiro que me invade os sentidos, de onde veio?
Ora. Ela sozinha aqui na sala, sem trocar a roupa por mais de três dias, me parece meio óbvio.
Cheiro maravilhoso. Meio salgado. Um odor assim de.. pele.
Mesmo a urina e a bosta já me têm um cheiro bom. Posso ser doido assim por ela?
Dura pouco essa loucura. Até a gente acabar com a palhaçada. A gente faz assim ó, abre os sentimentos do vivente e pisa em cima que nem se fosse fazer vinho.
No fim sobra um bagaço amargo, isso a gente chama de coração.
O sumo daquilo ali a gente bebe. O bagaço a gente toca no bueiro mais próximo, é um negócio interessante que se une com outros assim e tenta formar um ser humano denovo.
Vou te dizer que às vezes até consegue.
É bonita toda essa luta, né, mas não me interessa, por que sou eu quem faço o vinho. Pra mim o negócio é espremer.
Ora. Ela sozinha aqui na sala, sem trocar a roupa por mais de três dias, me parece meio óbvio.
Cheiro maravilhoso. Meio salgado. Um odor assim de.. pele.
Mesmo a urina e a bosta já me têm um cheiro bom. Posso ser doido assim por ela?
Dura pouco essa loucura. Até a gente acabar com a palhaçada. A gente faz assim ó, abre os sentimentos do vivente e pisa em cima que nem se fosse fazer vinho.
No fim sobra um bagaço amargo, isso a gente chama de coração.
O sumo daquilo ali a gente bebe. O bagaço a gente toca no bueiro mais próximo, é um negócio interessante que se une com outros assim e tenta formar um ser humano denovo.
Vou te dizer que às vezes até consegue.
É bonita toda essa luta, né, mas não me interessa, por que sou eu quem faço o vinho. Pra mim o negócio é espremer.
Ciúme
E vou te contar mais um negócio.
Só te escrevo por que sinto tua falta, cacete.
Queria tua opinião sincera, não essa cheia de adorno. Tua opinião de criança. Queria meu pai de seis anos de idade, que brincava naquelas ruas da benjamin sem medo, brigava pelo irmão, levava as irmãs na festa.
Pra quem tu reserva tua opinião? Quem é que tem a chave pra essa fortaleza que tu criou ao teu redor? Acho que ninguém mais.
Talvez aquela mulher lá dos teus vinte tivesse. Agora que ela morreu, morreu junto tua vida, por que tu virou condicionado dessa fábrica de máscaras.
Às vezes peço pra ela te visitar. Ir lá te sacudir. Te fazer chorar, te abalar. Tu acha que pode controlar todo mundo, até eu, seu idiota, tu não consegue controlar nada. Todo mundo aqui tá fazendo o que bem entende de ti. Abusando de toda essa tua suposta bondade. Pois eu sei bem que isso não é bondade coisa alguma, isso é teu jeito de se vingar dessa gente que tu finge querer tão bem.
Tu te presta a pagar e se sacrificar tanto pra manter esse padrão, acaba virando o escravinho de todas elas. E eu aqui, te olhando e chorando. Que me resta fazer? Hein?
Já tentei te falar. Tu não sabe escutar. Nem sabe mais amar. Não sabe nada, pai. Me sinto muito triste por ti, por essa tua carência de sentimentos. Disso não posso te curar, só tu sozinho cara. Te fudeu.
Só te escrevo por que sinto tua falta, cacete.
Queria tua opinião sincera, não essa cheia de adorno. Tua opinião de criança. Queria meu pai de seis anos de idade, que brincava naquelas ruas da benjamin sem medo, brigava pelo irmão, levava as irmãs na festa.
Pra quem tu reserva tua opinião? Quem é que tem a chave pra essa fortaleza que tu criou ao teu redor? Acho que ninguém mais.
Talvez aquela mulher lá dos teus vinte tivesse. Agora que ela morreu, morreu junto tua vida, por que tu virou condicionado dessa fábrica de máscaras.
Às vezes peço pra ela te visitar. Ir lá te sacudir. Te fazer chorar, te abalar. Tu acha que pode controlar todo mundo, até eu, seu idiota, tu não consegue controlar nada. Todo mundo aqui tá fazendo o que bem entende de ti. Abusando de toda essa tua suposta bondade. Pois eu sei bem que isso não é bondade coisa alguma, isso é teu jeito de se vingar dessa gente que tu finge querer tão bem.
Tu te presta a pagar e se sacrificar tanto pra manter esse padrão, acaba virando o escravinho de todas elas. E eu aqui, te olhando e chorando. Que me resta fazer? Hein?
Já tentei te falar. Tu não sabe escutar. Nem sabe mais amar. Não sabe nada, pai. Me sinto muito triste por ti, por essa tua carência de sentimentos. Disso não posso te curar, só tu sozinho cara. Te fudeu.
Medo
Te amedronta esses demônios que rondam o escuro, né querido.
Pois vou te dizer que eles são de verdade, tão aí pra puxar o pé da gente mesmo.
Bater a cabeça contra a parede e ficar gritando, CARALHO VELHO, acorda.
Tão aí pra te tirar dessa letargia. De ficar com a bunda o dia todo sentado numa almofada apertando botão. É isso que tu sonhou com teus vinte? Apertar botão?
Claro que não é. Não me mente que tu quer ganhar dinheiro. Vai fazer o que com todo o dinheiro? Sentar em cima? Limpar a bunda? Só pra isso que serve. O resto do tempo tu passa lá, apertando botão, sendo escravo de gente que nem te quer.
Não tô falando de teu chefe, nem do governador, presidente, o filho da puta que for.
Tô falando da tua mulher, da tua filha, da tua sogra.
É pra elas que tu dá todo esse dinheiro de apertar botão, é delas que tu virou escravo. E tudo isso por que tu quis e ainda quer. É muito bobo mesmo.
Pois vou te dizer que eles são de verdade, tão aí pra puxar o pé da gente mesmo.
Bater a cabeça contra a parede e ficar gritando, CARALHO VELHO, acorda.
Tão aí pra te tirar dessa letargia. De ficar com a bunda o dia todo sentado numa almofada apertando botão. É isso que tu sonhou com teus vinte? Apertar botão?
Claro que não é. Não me mente que tu quer ganhar dinheiro. Vai fazer o que com todo o dinheiro? Sentar em cima? Limpar a bunda? Só pra isso que serve. O resto do tempo tu passa lá, apertando botão, sendo escravo de gente que nem te quer.
Não tô falando de teu chefe, nem do governador, presidente, o filho da puta que for.
Tô falando da tua mulher, da tua filha, da tua sogra.
É pra elas que tu dá todo esse dinheiro de apertar botão, é delas que tu virou escravo. E tudo isso por que tu quis e ainda quer. É muito bobo mesmo.
Da direção
O que me incomoda nessa vida é gente sem tino. Sem energia pra coisa.
Pode fazer um trabalho dos diabos, uma porcaria dos cacetes.
Mas, meu chapa, se pegar o negócio direito, tiver paixão por aquela porra, se dedicar desde a raiz pra fazer o negócio direito; dá pra sentir o valor no trabalho.
E não digo que vai sair bom, não, porra, pode sair bem que um cocô. Mas a pessoa teve tino pra ser alguém, pra se impôr e dizer como são as coisas ali e que ninguém ia passar por cima não. O valor de ser sincero é uma puta virtude.
Quantos cabras aí não ficam se fazendo de vítima, de cansados, de explorados, puta que os pariu. Sejamos sinceros, cá, vamos se esforçar, dar cada gota de suor por um trabalho.
E não digo que meu trabalho é assim, o máximo. Tá muito longe de ser. Várias gotas de suor já tão por aí em chão que não é de trabalho. Tenho muito que aprender dessa disciplina, mas sinto que tô no caminho pra coisa. Fiz o melhor que pude enquanto tava naquela porra de faculdade, mas certamente não é o melhor que ainda vou dar.
Não tô sem consciência que nem uns e outros nessa porra de vida. Tô vivo.
Pode fazer um trabalho dos diabos, uma porcaria dos cacetes.
Mas, meu chapa, se pegar o negócio direito, tiver paixão por aquela porra, se dedicar desde a raiz pra fazer o negócio direito; dá pra sentir o valor no trabalho.
E não digo que vai sair bom, não, porra, pode sair bem que um cocô. Mas a pessoa teve tino pra ser alguém, pra se impôr e dizer como são as coisas ali e que ninguém ia passar por cima não. O valor de ser sincero é uma puta virtude.
Quantos cabras aí não ficam se fazendo de vítima, de cansados, de explorados, puta que os pariu. Sejamos sinceros, cá, vamos se esforçar, dar cada gota de suor por um trabalho.
E não digo que meu trabalho é assim, o máximo. Tá muito longe de ser. Várias gotas de suor já tão por aí em chão que não é de trabalho. Tenho muito que aprender dessa disciplina, mas sinto que tô no caminho pra coisa. Fiz o melhor que pude enquanto tava naquela porra de faculdade, mas certamente não é o melhor que ainda vou dar.
Não tô sem consciência que nem uns e outros nessa porra de vida. Tô vivo.
E essa casa
Assim começou o dia 31 de dezembro de 2009. Uma boa conversa, vinho e muitas idéias malucas. Ah, hoje viajou para o Peru, visitou aquelas vilas antigas, depois foi à Florianópolis; precisava salvar o pai de alguma enrascada de ano novo.
Aqueles tios ricos, que ele, sim, ele, não conseguia deixar em paz. Ah, que mentira essa de "sou obrigado a ir". Pura carência, praticamente implorava que o filho estivesse lá ao seu lado. Mas bem capaz. Conviver com os mesmos tios que correram dele como se fosse um mendigo pedindo esmola, que negaram que vivesse na sua própria casa, ah não.
Escutem o que o seu Lins tem pra nos dizer naquele livro muitas vezes chato de Fogo Morto. Alguma coisa tem que se aprender com os compadres, ser cabra macho, não se dobrar diante de afronta de parente.
Me cansa esses rodeios todos. Pra mim o negócio é já. Vamo logo que o baguio tá quente. Não quero saber de contrato com imobiliária alguma. Vocês são minha família, não um bando de desconhecidos. Eu respeito vocês, por mais que me desrespeitem. E não vou dar uma de bundão e não pagar o aluguel, seu bando de pau no cu.
E meu pai lá, pagando pau. Tudo por que uma mulher de nada afrouxara ele. Santa cacetada.
Aqueles tios ricos, que ele, sim, ele, não conseguia deixar em paz. Ah, que mentira essa de "sou obrigado a ir". Pura carência, praticamente implorava que o filho estivesse lá ao seu lado. Mas bem capaz. Conviver com os mesmos tios que correram dele como se fosse um mendigo pedindo esmola, que negaram que vivesse na sua própria casa, ah não.
Escutem o que o seu Lins tem pra nos dizer naquele livro muitas vezes chato de Fogo Morto. Alguma coisa tem que se aprender com os compadres, ser cabra macho, não se dobrar diante de afronta de parente.
Me cansa esses rodeios todos. Pra mim o negócio é já. Vamo logo que o baguio tá quente. Não quero saber de contrato com imobiliária alguma. Vocês são minha família, não um bando de desconhecidos. Eu respeito vocês, por mais que me desrespeitem. E não vou dar uma de bundão e não pagar o aluguel, seu bando de pau no cu.
E meu pai lá, pagando pau. Tudo por que uma mulher de nada afrouxara ele. Santa cacetada.
À Delicadeza
Hoje senti vontade de voltar à delicadeza; aquela de abraçar o mundo.
Por esse breve momento cansei de ser um brutamontes, de rir na tua cara, não levar o povo a sério.
E me arrependi de tudo até ali. Mesmo das coisas que sou só remotamente culpado, como a péssima alimentação da minha irmã (que mora só com ignorantes). Esses ignorantes são parte da minha família e por isso culpa minha. Se ao menos soubesse como tratar, como fazer pra que me escutassem. Como fazer pra que me respondessem, não peço nem que mudem. Só que escutem e me respondam com sinceridade. Atravessando o muro de máscaras que eles fizeram ao longo dos anos.
Bah. E em breve ia me arrepender de atravessar esse muro todo e tocar neles. Quanta responsabilidade. Quando o brutamontes voltasse, ia esmagar tudo com um murro daqueles. Ia ser a vingança da minha máscara. Abrir o coração deles todos e pisar em cima.
Não. Não quero que seja assim. Quero que seja diferente. Denovo.
A próxima vez, claro, vai ser diferente. Quando chegar no coração de alguém, denovo, vou cuidar. Vou tratar com todo o mimo.
Pra logo pisar em cima depois, é. Por que no fim sou meio louco. Gosto do gosto que fica depois que a gente magoa; só pode.
Isso é mentira, faz parte daquela máscara. Daquela depressiva que diz "tu não vai amar".
Não é que não vá amar. Amar, no fim, é uma força. Ela existe, ou não, e a gente alimenta, ou não.
Bah, não sei de nada. E tenho muita vergonha disso. Parece que todo mundo sabe alguma coisa. Ó, tchê, isso aí que tu tá fazendo não se faz não. É, certo. Como se precisasse fazer o que se faz. Ficar preso nesse mundo de máscaras e tititi.
Vocês é que não sabem de nada. Eu e meu ego vamos nos virar muito bem; por um tempo.
É óbvio que daqui nós vamos brigar. E daí vou perguntar denovo o que fiz de errado.
Por esse breve momento cansei de ser um brutamontes, de rir na tua cara, não levar o povo a sério.
E me arrependi de tudo até ali. Mesmo das coisas que sou só remotamente culpado, como a péssima alimentação da minha irmã (que mora só com ignorantes). Esses ignorantes são parte da minha família e por isso culpa minha. Se ao menos soubesse como tratar, como fazer pra que me escutassem. Como fazer pra que me respondessem, não peço nem que mudem. Só que escutem e me respondam com sinceridade. Atravessando o muro de máscaras que eles fizeram ao longo dos anos.
Bah. E em breve ia me arrepender de atravessar esse muro todo e tocar neles. Quanta responsabilidade. Quando o brutamontes voltasse, ia esmagar tudo com um murro daqueles. Ia ser a vingança da minha máscara. Abrir o coração deles todos e pisar em cima.
Não. Não quero que seja assim. Quero que seja diferente. Denovo.
A próxima vez, claro, vai ser diferente. Quando chegar no coração de alguém, denovo, vou cuidar. Vou tratar com todo o mimo.
Pra logo pisar em cima depois, é. Por que no fim sou meio louco. Gosto do gosto que fica depois que a gente magoa; só pode.
Isso é mentira, faz parte daquela máscara. Daquela depressiva que diz "tu não vai amar".
Não é que não vá amar. Amar, no fim, é uma força. Ela existe, ou não, e a gente alimenta, ou não.
Bah, não sei de nada. E tenho muita vergonha disso. Parece que todo mundo sabe alguma coisa. Ó, tchê, isso aí que tu tá fazendo não se faz não. É, certo. Como se precisasse fazer o que se faz. Ficar preso nesse mundo de máscaras e tititi.
Vocês é que não sabem de nada. Eu e meu ego vamos nos virar muito bem; por um tempo.
É óbvio que daqui nós vamos brigar. E daí vou perguntar denovo o que fiz de errado.
segunda-feira, dezembro 21, 2009
domingo, dezembro 20, 2009
sexta-feira, dezembro 18, 2009
Desesperança
Daquilo que era pra ter sido e não foi; que era pra durar e não durou; que era pra voltar e não voltou..
O que resta é um sentimento seco e um gosto ruim na boca. Como logo depois de acordar num dia de ressaca e só ter o resultado de tudo, sem lembrar. Então por quê..?
Por que se quer esquecer que já amou.
O que resta é um sentimento seco e um gosto ruim na boca. Como logo depois de acordar num dia de ressaca e só ter o resultado de tudo, sem lembrar. Então por quê..?
Por que se quer esquecer que já amou.
quarta-feira, dezembro 16, 2009
terça-feira, dezembro 08, 2009
Confissão
"Se não a vejo e o espírito a afigura
Cresce este meu desejo de hora em hora...
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.
Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura...
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora...
E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...
Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim... tão linda e rara...
Que hesito, balbucio e me acobardo."
Manuel Bandeira
Cresce este meu desejo de hora em hora...
Cuido dizer-lhe o amor que me tortura,
O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.
Cuido contar-lhe o mal, pedir-lhe a cura...
Abrir-lhe o incerto coração que chora,
Mostrar-lhe o fundo intacto de ternura,
Agora embravecida e mansa agora...
E é num arroubo em que a alma desfalece
De sonhá-la prendada e casta e clara,
Que eu, em minha miséria, absorto a aguardo...
Mas ela chega, e toda me parece
Tão acima de mim... tão linda e rara...
Que hesito, balbucio e me acobardo."
Manuel Bandeira
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