terça-feira, julho 05, 2011

A mesa vazia, as xícaras se acumulando na pia, a geladeira com o iogurte do mês passado, o gato sem comida no pote, as plantas com sede. O quarto empilhado em madeira e roupas sujas. Os sofás cheios de livros.

sábado, junho 25, 2011

Googleplex

Existe um cômodo antigo de madeira. Três gavetas, fotos, anotações, cadernos.
Uma tentativa de saber quem sou eu.

Foram várias. Primeiro o colégio. Os colegas. A namorada, o sexo, dormir de conchinha, o ciúme, a dor. (denovo e denovo).
Escrevi muito aqui. Numa espécie de diário.

Fui zenbudista. Luterano. Ateu. Panteísta. Meio-termo religioso. Historiador, fotógrafo, empresário, jornalista, saxofonista, sexofonista, vagabundo, mesquinho, hippie.

Tentei ser gay e não deu certo. Tento ser hetero, mas não sei direito o que isso significa. às vezes não faz sentido nenhum definir o sexo.

Sexo nunca foi importante. Dinheiro também não. Nem status. Nem tristeza ou alegria.

Fui vegetariano. Hoje sou carnívoro.

Já viajei mais dentro de um apartamento do que a minha vida toda. Esse foi o LSD.

E pensei: meu deus, nunca mais vou tomar isso na vida. Até que tomei Daime.

Durante vários meses o Daime conduziu minha percepção do mundo.


Os homens ficavam de um lado e as mulheres do outro. Cada um ia tomar o Daime quando quisesse. E quanto quisesse. A cor é laranja escura e tem o pior gosto. Vomitei em seguida. Pensei, nossa, isso tem um gosto tão ruim e nem faz efeito.

Sentei na cadeira. O mundo começou a tremer, mas não como num terremoto, mais como se o mundo inteiro estivesse tremendo, o chão, as pessoas, o ar, as velas, Paris, Porto Alegre. A única coisa estática era meu corpo. Pensei que pelo menos ainda tinha meu corpo. Mais tarde ele sumiu e só fiquei com o pensamento.

Não havia outras pessoas - às vezes sim, mas não estavam na mesma época que nós - nem limites materiais. A sala virou uma floresta. Os sons dos pássaros voaram. O chão ficou molhado de terra. E quando tudo ficava escuro eu só pensava "se continuar pensando, continua existindo". Que a existência era só o meu pensamento que mantinha.

Aquele dia tinha pedido ao Daime: quero saber o que é o aqui e agora.


Só que a minha jornada sempre tem sido "quem sou eu?". Essa é a pergunta que gostaria de fazer.

Porque não tenho a menor idéia do que essa pessoa que já foi tantas.

Essa busca me devasta. Vivo num processo de colocar tudo abaixo pra erguer denovo. Erguer sobre os princípios certos. Derrubar sobre os novos princípios certos. Já ouvi chamarem isso de aprendizado. Não é.

Não se trata de corrigir minhas idéias por outras melhores e depois outras e depois denovo...

Não existe nenhuma idéia certa. Não existe ponto algum em ficar corrigindo uma atrás da outra. É como um ratinho correndo na rodinha. Não vai chegar a lugar algum!

E daí o que me vem logo em seguida é essa outra idéia de que... isso também é uma idéia e também vai ser corrigido por outra que pareça melhor. E que não existe ponto em querer que exista um ponto.

Finalmente: não existe verdade absoluta. Essa mesma idéia que me joga denovo na depressão de não realizar nada por não existir verdade absoluta em nada do que faço. E lá vai denovo o ratinho correndo da depressão de "oh meu deus, não existe nada nesse mundo que seja verdadeiro, que devo reverenciar, admirar, me dedicar" pra euforia do "ahh não, existe sim, a explicação X é o caminho!".

sexta-feira, junho 17, 2011

PORRADA

Porrada no delinqüente! Porrada no anti-manifesto de pais e mestres!

PORRADA!

não esquece que a gente não faz nada. a gente é o pai de não fazer nada de se manifestar pelo virtual e dizer que esteve lá!

tô cansado de ficar na cama me revirando. de ficar na cama dormindo. de não levantar e bater a mão na tua cara filha da puta.

de perder cabelo. de ser vulgar. de me embriagar e me drogar.


quero te matar.

Chega do teu paternalismo! não quero ouvir da revolta pacificista. Não existe revolta pacifiscita, exige revolta AGRESSIVA.
Bichos de pelúcia não fazem mais minha vontade de SEXO. Não dá pra ser feliz com tua boneca de borracha e essa buceta mecânica que come meu caralho.

domingo, junho 05, 2011

Sábado

Bebi vinho no sábado. Branco e tinto. Depois cerveja e cachaça. E mais cerveja.

Fui trabalhar no domingo com dor de cabeça, bafo e uma sensação meio zonza.

Tive uma sensação intensa de comunhão no set de filmagem. Um fluxo quase palpável de energia perpassava por todos nós.

Estive bem humorado o dia todo. Agora, meia-noite, estou cansado, um pouco revoltado (mas contente) e com algumas idéias na cabeça.

quinta-feira, maio 19, 2011

Fábrica Psicopática

A maior parte do tempo preciso vestir um personagem que anda, fala, respira idêntico ao original, mas não pensa igual ao original. Enquanto sou todo sorriso e o mais amável possível com o resto da humanidade, por dentro me corrói um sentimento de ódio e mágoa que cria um fogo intenso dentro da minha cabeça expelindo imagens de bombas, gás lacrimogênio, tacos de beisebol e espadas samurai.

Meu casaco, minha camiseta, minha cueca, minha calça, a cadeira, o computador, a cuia, o livro, o desodorante, a água, a comida, o prédio, a rua, a luz, o semáforo, o parque, meus pais, meus avós, minha namorada, meus amigos, caminhar, ouvir música, tocar um instrumento, saúde, drogas, álcool e tudo mais que englobe o mundo foi, está e vai ser explorado.

Toda a vida é explorada para satisfazer algo que não está e nunca estará ali. Toda vida trabalha com sua riqueza, sua imensidão, sua originalidade e é expropriada pela exploração. Não se pode dizer: meu trabalho vale tanto. Trabalho não é mensurável monetariamente, quando se diz que o trabalho vale ALGO que não é trabalho, está acontecendo um roubo.

Só resta perguntar pra onde se caminha quando o caminho não é de graça?

terça-feira, maio 17, 2011

denovo a mesma coisa

Hoje tampei meus ouvidos com as mãos, fechei os olhos, tirei os pés do chão, calei a boca e tranquei a respiração. TUDO pra me sentir fora desse mundo.

Queria ser tipo o RAIDEN do Mortal Kombat. Eletrocutar TODO MUNDO. Virar relâmpago e sumir da porra do banheiro onde me tranco pra pensar que quando abrir a porta, vou estar em outro lugar, OUTRO PAÍS QUE SEJA, ONDE NÃO TENHA EMPRESAS, ONDE NÃO TENHA EXPLORAÇÃO, ONDE AS PESSOAS SE IMPORTEM E SE RESPEITEM.

Mas aí abro a porta depois de toda essa divagação e tenho.. essa porra me esperando.

"vamos combinar um valor justo, não vamos te pagar pouco".
"o lucro é quase nulo, pois temos os custos de alimentação, transporte, hospedagem, putaria e cerveja"
"a empresa está no começo, então temos que arcar com certos custos. TUDO BEM SE O CLIENTE DEMORAR DOIS MESES PRA PAGAR E ATRASAR O ALUGUEL DA CASA"

é sempre a mesma coisa.

Ah, tu trabalha com algo muito subjetivo, não tem como quantificar esse tipo de trabalho. Ok. FAÇO PNEUS, QUANTIFICA PRA MIM. Ah sim, o chefe ganha 3 milhões pra SENTAR A BUNDA NO CAFOFO.

E é justo.

quinta-feira, maio 12, 2011

Cretinagem

O mundo anda tão cretino. Não dá pra confiar em ninguém.

Antigamente não dava também. Mas pelo menos a gente era criança e acreditava em todo mundo.

segunda-feira, maio 09, 2011

Capitalismo Selvagem

Hoje derramei lágrimas nem sei bem porquê. Vivo de forma bem confortável, apê próprio, dividido entre três, internet, água, luz, ... No entanto, parece que não me basta ganhar 500 reais por mês. Enquanto ganho 500 reais, sei que a empresa na qual trabalho ganha 25 mil reais. E, ainda por cima, isso é considerado um trabalho barato. Quem dera eu fizesse esse trabalho barato de 25 mil! Imagino o que é o trabalho em conta. 100 mil? 200? 500? 1 milhão?

Imagino além. Ganhando 100 mil por mês... em um ano teria mais de 1 milhão, o que é o suficiente para render 10 mil na poupança por mês. Puxa vida. 10 mil por mês. Dá pra comprar uma casa, um carro, um jornal, várias viagens, móveis pré-montados, bilhetes da megasena, ... e sem se preocupar, porque no próximo mês mais 10 mil vão vir.

Então a pergunta é. O que fazem essas pessoas que já acumularam o suficiente? O que faz alguém que ganha mais de 100 mil por mês? Enfia no cu? Compra uma lancha de ouro? Compra outras pessoas? Pra QUE continuar ganhando? Qual é o sentido? Passa a bola adiante! Deixa oportunidade de mais alguém ser rico.

Rico. E ser rico pra que? Digo, depois que tu passa da parte pagar as contas e ter um pouco de lazer (duas vezes no cinema, teatro, música e circo), o que resta é tão insignificante. Ser rico pra ter um porsche? Uma harley davidson? Ser rico pra esnobar? Pra montar uma fundação? Pra comer pampacats? Sabe..

O NEGÓCIO É AMAR. Do fundo do coração. Todos os seres. Parar com essa idéia de que a gente é mais do que um inseto ou um outro ser humano. E amar tudo e todos.

Eu tive uma irmã quando tinha -89527253895 anos. Digo, ela nasceu quando meu pai tinha 21 e quando eu nasci, meu pai tinha 34. Faz o cálculo.

Ela nasceu com o coração do lado errado, virado pra direita, tá ligado? E a cirurgia na época custava 10 mil reais (hoje dizem que custa uns 38 mil), não tinha plano de saúde e meu pai e a mãe dela não tinham grana pra pagar ou financiar. Ela morreu dois ou três meses depois de nascer. A mãe dela entrou em depressão, desenvolveu diabetes e morreu no mesmo ano.

Enquanto isso, tinha o dono do hospital, o dono do banco, o dono da padaria, o dono e o dono e o dono de tanta coisa ganhando tanto. E comprando lá o carro do ano, viajando pra não sei onde, fazendo gato e sapato. Esse cara roubou o dinheiro da minha irmã e matou ela.

O capitalismo mata. Isso é um exemplo doido de algo que aconteceu comigo e certo que tem uma calharada de gente com exemplos muito piores. A questã é por quê? pra que a gente trata tão mal quem tá do nosso lado? quem é humano com(o) a gente?

sexta-feira, maio 06, 2011

Superman II

Look at the stars, Kelly.

Who do u see there?

quando a gente fica muito tempo parado encarando o céu, parece que ele gira em torno da gente.
Que a gente na verdade tá numa ilha. Uma ilha de céu azul pra todos os lados. E tem a sensação de que existe algo. Não lá longe. Nem dentro da gente. Mas algo logo ali em seguida, ali saindo da nossa pele.

A minha energia sai como canivete através da pele e chega. Chega no teu rosto. mas já não te atravessa que nem canivete.

queria ter acabado esse texto. mas não dá. não tenho mais vontade. canivente não sai mais pra fora da pele, sai pra dentro mesmo.

sexta-feira, abril 29, 2011

Superman

Às vezes me olho nas minhas fotos e vejo aquele garoto tímido que mandava cartas de amor na 4a série e tinha medo de se confessar. Naquela festa que a gente se encontrou - quando foi? só lembro que era a primeira vez que ia até a tua casa - tua irmã me falou que hoje era minha grande chance. Falei baixinho para meu amigo, de forma que ninguém fosse ouvir, que hoje era o dia.

O dia do que? De levar ela para cama, claro. Nem sabia o que era levar alguém para cama. Tinha ouvido num filme e me pareceu extremamente apropriado falar isso naquele momento. Não lembro quem ouviu, ou se meu amigo falou pra alguém que falou pra outro alguém e assim foi indo até voltar aos ouvidos da irmã dela.

A irmã dela chegou extremamente irritada, me encarou e disse Quer dizer que tu só quer trepar com ela? Hoje poderia responder alguma outra coisa, na hora nem sabia o que era trepar e só me ocorreu ficar mudo encarando de volta. Não tive meu primeiro beijo naquela dança. Tive meu primeiro ciúme, quando ela dançou agarrada no meu colega. A gente nunca mais conversou. Nunca mais mandei cartas.

Uma vez fui até a casa dela com o meu pai. A gente ficou parado dentro do carro durante muito tempo. Eu morri de vergonha. Meu pai perguntou porque não ia até lá tocar na campainha. Falei Só vim olhar a casa e saber como é. Tinha umas crianças jogando bola na rua e não queria que elas soubessem que eu estava ali, então me encolhi no banco de trás. Conseguia vislumbrar o teto da casa dela e o céu. E o meu pai falando comigo.

Aconteceu uma vingança punitiva. Entre eu e as mulheres. Entre eu e meu pai. Entre. Da minha vergonha para mim mesmo. Pensei Nunca mais quero passar vergonha na frente de alguém. Mexi nessas engrenagens que movem os meus pensamentos, nessas que influenciam o pensamento dos outros, nessa coisa que existe antes do Eu, antes do Nós.

Deixei tanta coisa pra trás. Pra virar sombra. EXISTE UM VÉU PODEROSO QUE COBRE A MINHA EXISTÊNCIA. ME SUFOCA E ME TIRA A VERGONHA DE EXISTIR COMO SER HUMANO - ME PROTEGE DA VERGONHA DE SER HUMANO. DA VERGONHA DE PENSAR. DE TER IDÉIAS. ME TIRA A VERGONHA TIRANDO O QUE TENHO DE MAIS VERDADEIRO.

VIDA.

Passo meus dias me consumindo. Sugado pelo computador, trabalho, família, relacionamentos, preocupações, E TRALALALA.

E toda vez que lembro desses momentos em que poderia ter passado vergonha me dá uma vontade imensa de chorar.
E toda vez que lembro desses momentos em que poderia ter sido eu mesmo me dá uma vontade imensa de chorar.

Então quando esse eu. esse assassino. cria problemas. minha sombra vem pra resolver. Na praia defendeu um garoto que mal conhecia. Dos marisqueiros. Os marisqueiros vieram com dez marmanjos que perguntaram Porque vocês mandaram nosso amigo se fuder? Porque ele tava implicando com nosso amigo. E na hora do soco. a sombra. resolveu que não ia levar o soco. Então a pessoa que mais amava, meu melhor amigo, leva. Nunca mais fala comigo. Nunca mais partilhamos emoções, nunca mais saímos juntos, nunca mais nos encontramos. Me perguntou no outro dia Porque tu não apanhou também?

Porque eu não tive coragem de apanhar. Porque sou um covarde que não passa vergonha. Que tem MEDO DE SER. E POR ISSO te peço desculpas. Queria ter sido um amigo muito melhor do que fui. E é uma pena que só venha a te dizer isso depois de anos. E que na hora que precisava ser sincero contigo, tudo que pude fazer foi contar uma mentira deslavada que meu ego e minha vontade de não passar vergonha queriam te dizer.

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Ontem li as orelhas de um livro (Ribamar - José Castello):

"Esse menino sofre dos nervos", é um Sampaku, "alguém incapaz de ter uma reação adequada ao perigo", os seus olhos estão desviados, apontam para cima; tem olhos, o menino José, de peixe morto, mas o médico dos olhos diz que está tudo bem e, sim, está tudo bem e tudo mal; a semelhança com os olhos do pai é isso: a única maldição que desejamos, o desejo que mais amaldiçoamos.

O hipnotizador não endireita os olhos do menino, não lhe tira o sofrimento dos nervos; a lâmina não torna o nariz mais discreto, a coisa não resulta com a faca - mas há isto: a sensação de que o nariz não está bem, de que os olhos erram, de que a posição no mundo não é a correta - está a tímida peça de xadrez perdida no tabuleiro de um outro jogo.

Carta ao pai que acompanha a carta ao pai de Kafka. Kafka, o escritor minhoca; escreve como se rasteja e poderemos pensar que em parte é isto: trata-se de ver se os traços que o nosso rastejar deixou atrás conseguem ser decifráveis, se foram transformados ou não num livro ou se são, afinal, como os gatafunhos ilegíveis do velho demente de Ribamar, que é cego e por isso não precisa de escrever nada que se entenda.

Em Ribamar aproveita-se uma queda para avançar; rastejar não é afinal assim tão mau: é o avanço de alguém que caiu e não quer, ou não consegue, levantar-se. O golpe que o derrubou foi demasiado forte - e nascer é um pouco isto: um golpe que por vezes só recuperamos muitas décadas depois.

E ainda a visita à tia louca que imita as galinhas e talvez escreva no chão sim; sim que é, apesar de tudo, uma das mais belas palavras, mesmo que não tenha destinário ou assunto, mesmo que não haja questão prévia. E é isso mesmo: à distância, do síto de onde conseguimos ver, o que parece que Castello escreve no chão é um sim, e este sim talvez seja dirigido ao pai, um sim que também aparece depois de pergunta nenhuma. Trata-se em Ribamar, escreve Castello, de "tomar posso de meu pai", como se o pai fosse "um cargo público ou um pedaço de terra". Não se trata de entender, de retomar ou reconstruir "as ruínas que ferem mas não assustam", trata-se apenas de dizer um sim, que não é de obediência, um sim que não vem de lado nenhum mas ali fica. Quando o menino José se sentava entre as plantas, para que não o vissem - esse sentar era também já um modo de dizer sim.

Ler é expor-se - como se escreve nos capítulos Kafkas - mesmo na leitura mais privada. Ribamar é pois uma coisa que nos interpreta. Este livro, que insiste em nos querer ler, altera então a ordem natural das coisas. Quem escreve está a entrar na nossa intimidade; como sabe ele tanto dos nossos? E talvez por isso nos emocionemos.

E sim, rasteja-se, mas em Ribamar também se avança, passo a passo, muitos metros acima do solo. Também isto, portanto: serenidade na caminhada. Como um funâmbulo que tivesse a certeza de que vai chegar ao fim, e se fosse capaz de suportar a tentação do quero descer; funâmbulo que avança, tranquilo, sabendo onde está e quanto falta (I2/i8, I3/I8, I4/I8).

Isto, portanto: o máximo de pontos sobre o solo (rastejar) e omínimo de apoios no solo (o avançar do funâmbulo). Entre os dois momentos, antes ou depois - a queda, sempre.

Não basta fazer, é necessáro salvar o que se fez - alguém escrever. E, de certa maneira, é isto que todos os que fomos lidos por este livro exigimos - o impossível, claro: que quem nos fez nos salve.

Gonçalo Tavares.

quinta-feira, abril 28, 2011

Hit

Déjà Vu

Me incomoda o barulho da tua porta. O jeito peculiar que tu tens de abrir e fazer ranger ao máximo, como que explicitando a situação incômoda que ninguém se importa de resolver.
Me incomoda o cheiro do teu desodorante depois do banho que parece absorver o apartamento inteiro. Fede.

Incomoda quando tu fuma logo depois de comer, fuma logo depois do banho, fuma logo depois do sexo, fuma logo depois de acordar, passa o dia fumando, o dia com a casa fumando o teu cigarro e fedendo ao teu cigarro.

E o papel higiênico. E a cerveja na geladeira. E o nada que comer na geladeira.
A panela suja de gordura do teu hamburguer da semana passada. E a água parada dentro da saboneteira no box do chuveiro.


Em algum momento a gente se deu as mãos e fizemos coisas juntos. Hoje somos os vizinhos mais próximos que se pode ter e estamos tão distantes quanto se pode estar.

sábado, abril 02, 2011

Barba

O bom de ter barba é que quando a gente vai num restaurante bom, o cheiro da comida fica nela até o outro dia. Daí é só dar uma coçadinha e cheirar pra lembrar da delícia.

Curta

vou publicando aqui idéias para o curta, podem comentar à vontade, dando idéias preferencialmente.

-. Ela construindo o cubo (feito em vários pedaços). Fala: que o ser humano não aceita sua incompletude

Weezer

sexta-feira, março 18, 2011

internet

Acho muito louco pensar que daqui uns anos, todo mundo vai estar classificado de alguma forma na internet. Louco porque uma vez que você se converte em dados, é possível juntar tudo num pacote único.

Poderia ter, por exemplo, um pacote chamado Miguel Baierle. Todas as minhas memórias (catalagodas na internet) estariam disponíveis, daria pra ter a minha experiência de vida. O que talvez não seja muito interessante. Mas dá pra imaginar outras figuras ilustres que podemos catalogar, sei lá, Gandhi. Você baixa o aplicativo Gandhi e tem acesso a todas as memórias dele.

Mas não digo essas merdas interativas que tem por aí em CD de história.

É muito mais num sentido second life, de ter o avatar gandhi, com as experiências gandhi. E a partir daí criar novas experiências gandhi. Podia ter várias versões Gandhi. Gandhi 1.0, 2.1, Gandhi Versão Nipônica, Gandhi no McDonald's.

E se todo mundo vivesse na internet, nesse "second life", mas de uma maneira melhorada... digamos uma experiência mais real, com tato, cheiros. Daria pra se ter qualquer identidade. E a própria identidade poderia ser absorvida por outros. E até por computadores. Uma inteligência artifical capaz de fazer escolhas baseadas em memórias catalagodas até ali poderia criar novas experiências e se modificar e viver para sempre. Uma I.A. poderia fazer meu "personagem", minha representação no mundo virtual, viver mesmo depois que eu já tivesse ido.

quarta-feira, março 16, 2011

Se os tubarões fossem homens

Abujamra

Os Argonautas

Pirataria, Roubo e Meu Aniversário

Agora eu gosto de ler meus posts antigos. Antes tinha vergonha, achava feio, sei lá.

É uma pena que a maioria dos youtubes sumam por desrespeito às leis do copyright. Encontrei um filme interessante que fala sobre isso: http://www.stealthisfilm.com/Part2/
não assisti ainda, na verdade nem poderia dizer que é interessante, mas o site tá tão bonito e bem escrito..

O futuro não se encontra nas restrições de propriedade intelectual, isso aí todo mundo já sabe. Mas o louco é que não é o um movimento coordenado por organizações mundiais, tipo companhias petroleiras, orgãos governamentais, mídia. É coordenado por milhares de pessoas afim. E isso aí não tem como parar com processos judiciais, restrições na internet, bloqueio de sites... chega a ser ridículo.


Sempre achei o número 23 especial, em grande parte por causa de uma crença na infância de que o dia do meu aniversário era meu dia de sorte. E semana que vem faço 23 anos, então pode ser meu ano de sorte. Já sei até o que vai acontecer esse ano. Vou ganhar milhões e continuar combatendo o sistema pelo resto da vida. Ah tri.

Vamos nos concentrar nas coisas reais. Ou seja, como ganhar milhões com 23 anos.

Exemplo 1.

Esses anos teve um cara que fazia a programação do site do Banco do Brasil. Pra quem não sabe, esses bagulhos de programação são a coisa mais legal do mundo, porque ninguém entende porra nenhuma e coloca as coisas de qualquer jeito que funcionem. Vide o site do banco do brasil, é um sistema importado, não feito por algum programador brasileiro. Daí se contrata um zé pra fazer alguns ajustes e o zé se dá conta disso. Então buscou falhas no sistema e encontrou.

O site do BB fazia os balanços monetários das contas com três dígitos depois da vírgula. Ora, todo mundo sabe que não existe 1,333 reais. E precisava se resolver esse problema. Então o zé pegou o último dígito e fez com que todas as contas do BB depositassem esse último dígito na conta dele.

Em uma semana ele tinha um milhão de reais.

Não sei se não esperava por isso, a questão é que foi burrice pôr na própria conta, né porra.


Exemplo 2.

Uma das funções do Banco Central no Brasil é queimar dinheiro. Quase ninguém sabe ou pensa sobre isso, mas a questão é que o dinheiro fica velho, afinal é só um pedaço de papel. E existem várias soluções pra se queimar dinheiro nas capitais brasileiras, a que eles tinham em Fortaleza era assim:

Tinha um buraco fundo no chão com as chamas do mármore do inferno ardendo no fundo. Se jogava o dinheiro pra dentro do buraco e pronto. Simples, né?

Então teve uns gênios (??) que fizeram um túnel até o meio do buraco do mármore do inferno e colocaram uma rede. Toda vez que o dinheiro chegava na rede, jogavam papel no fogo pra subir a fumaça. Pegaram milhões, mas milhões mesmo, durante um tempo.

Era um dinheiro bom porque: não era numerado (esses dinheiros de carro-forte e banco são todos colocados em determinada ordem - o dinheiro tem número - daí quando tu tenta usar o dinheiro, te acham rapidinho) e não era marcado (explico depois).

Bom, os caras lucraram muito. Eram uns sete, cinco deles compraram carros importados, casa nova, apartamentos, ilhas, iates, jatos, ... (heheheh) e, óbvio, despertaram os órgãos de segurança. Descobriram tudo, foram lá, raparam os caras e ainda botaram na cadeia. Mas teve uns dois que não foram pegos até agora. Devem estar tomando caipirinha e molhando os pés em cancún.

Agora não dá mais pra fazer esse esquema, depois disso resolveram marcar as notas com um carimbo. Claro que alguém pode descobrir como remover o carimbo...



Ia postar outras possibilidades aqui, mas acho que essas são as mais viáveis. Explodir caixas eletrônicos, roubar estabelecimentos comerciais, ganhar dinheiro de forma "honesta", tudo isso parece muito arriscado. Quando tiver descansando com os caras em Cancún, posto aqui como foi.

quinta-feira, março 10, 2011

cansaço

às vezes me falta vontade de levantar da cama. de mexer os dedos do pé. de ir até o banheiro.
de que adianta tomar resoluções, se quando cai a noite é sempre a mesma coisa?

antes ficava cansado porque não conseguia me fazer ouvir. porque não era compreendido. ou me cansava até de mim mesmo. de ser assim do jeito que sou. e ainda me canso pelas mesmas coisas. mas agora me bate um cansaço diferente.

ando cansado. cansado de ficar cansado.

segunda-feira, março 07, 2011

Don't Come To Me With the Entire Truth

"Don’t come to me with the entire truth.
Don’t bring me the ocean if I feel thirsty,
nor heaven if I ask for light;
but bring a hint, some dew, a particle,
as birds carry drops away from a lake,
and the wind a grain of salt."

(Olav H. Hauge - Tradução Robert Bly)

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Daqueles que somem aos poucos

Vivia um pequeno processo de desaprender a falar. Pequeno porque era tão simples, tão frugal, que os outros e ele mesmo nem se apercebiam. Mas o peso do tempo fazia grandeza.

Os primeiros anos correram tranqüilos, vezemquando fazia alguma bobagem como insistir numa piada ou não saber o que falar nos momentos mais óbvios. Acho que foi lá pelo quinto ano que aconteceu o primeiro impacto. Não que tenha sido impactante, quem observava de dentro acreditava ser extremamente normal. Acontece, diziam. Mas se tratou de um marco.

Tinha aberto um livro, algo como A Divina Comédia, clássico. Depois de ler por uns vinte minutos, um amigo adentrou na sala e perguntou qual era o nome do livro. Não soube responder. Riram e fizeram piadas sobre fumar demais. Fechou a capa e mostrou o título. Só mostrou, sem falar. Dali em diante não respondia mais o nome do livro, mostrava a capa. Não havia necessidade de fala.

Passou a observar outros eventos que não necessitavam de fala. A leitura das horas no relógio da cozinha. Um trecho do jornal. O nome do site. Podia ser inconveniente: como não dizer a placa do próprio carro e ficar parado apontando. Mas não era de se abismar, era esperado, ele era meio estranho, meio quieto, meio tímido.

Descobriu que a maior parte das ações poderiam ser feitas pela internet. Compras no super. Compras na livraria. Compras. E o que não se comprava, como filmes, programas de computador, música, se adquiria com downloads. Muitos downloads.

Sair de casa se tornou um transtorno, a possibilidade de falar com alguém na rua passara a ser angustiante. Além do que, não havia necessidade.

Passou uma semana sem encontrar outro ser humano. Depois mais tempo. Não tinha mais amigos. Não havia necessidade. Muito toque, muito ter que dizer. Ter que fazer algo. O trabalho estava resolvido, era bem pago para pesquisar tendências. Internet. Podia se comunicar apenas pelo msn. Evitava reuniões online, daquelas por skype.



Depois de um ano, o qual passou feliz por não encontrar outro ser vivo, sentiu uma saudade súbita dos pais. Já estavam mortos havia muito. Sentia falta de brincar na pracinha, de andar de balanço, de tentar ser mais pesado na gangorra. Não saberia explicar para alguém porque sentiu saudade. Não sentia necessidade também. Foi até o banheiro e se olhou no espelho. Não tinha mais ninguém lá.

domingo, fevereiro 13, 2011

Medrosa

"eu sou muito medrosa
cínica covarde
sonsa injusta

eu não sei fazer justiça
não sei como faz justiça
eu não tenho coragem de enfrentar nada

tenho que enfrentar a violência e a grosseria
e ir à luta pelo pão de cada dia
sou advogada de defesa e salva-vidas"

(Stela do Patrocínio)

Ouça o CD: http://entrevistacomstela.wordpress.com/ouca-o-cd/