Se soubesse, teria gasto o filme contigo.
Mas essa não é uma história de amor.
A câmera tava com um problema, o fotômetro inventou de não funcionar mais. Tirei várias fotos no feeling, como diria uma antiga namorada. Algumas bati sem querer, até queimei umas fotos, depois entendi que a gente passa o filme só antes de bater, nunca depois.
É que às vezes a gente esbarra no botão e bate uma foto sem querer. E tem até foto sem querer bonita, mas a maioria é quando a tampa da lente tá posta, e foto de tampa nunca é bonita.
Se eu caminhar 6 horas por dia, são 138 dias até Belém. Sem passar por São Paulo é quase uma linha reta. Saindo amanhã, chego dia 11 de março de 2025. Mas que exagero, quem que faz 26 quilômetros em um dia? Sejamos realistas. 15 quilômetros por dia. São 244, bota 250 dias, 1º de julho.
Andando de costas pro tempo passar de trás pra frente é só sair em janeiro que te encontro em maio. Não que fizesse diferença, não faria, seria só pra bater mais foto. Poderia levar a máquina com a pilha não estourada. E também um filme melhor do que esse Ilford PB grosseiro.
Acho que nunca te convenci que não era amor. Tudo bem, também tenho dificuldade de convencer a mim mesmo. É que esse limite, do que é, e não é, nunca foi claro na minha vida. E nos últimos tempos ando sem vontade de limites.
Consigo imaginar um amigo rindo e dizendo em deboche: "É a crise da meia-idade". Eu ri. Mas um Porsche 73... em Belém, saindo da praça da República e acelerando pela Nazaré, cruzando todo semáforo, é de noite, não tem ninguém na rua, só o motor roncando Pará adentro.
É uma onça de metal comendo asfalto e gasolina pra ver se engole a angústia do mundo e sua delírios de amor por todos os poros; EU TENHO SEDE DE VIVER
O tremor do Jambu é mais forte do lado de dentro e ando desconfiado de que foi o Pará quem me comeu e não o contrário, quem mandou gostar do Norte, deve ser o mercúrio no peixe que deixa a gente assim, querendo passar o filme antes de bater a foto.