quarta-feira, outubro 30, 2024

Sem título I

Não posso dormir sem dizer que

todos estamos loucos

Você que me lê, 

não, não é especial,

eu não sou especial


Nenhum de nós

Camilaaa

Ooo

 

Éééé contigo que eu tô falando

Quem mais vai entender essa bobagem aqui?

Bom, cá estamos, nesse espaço privado


Para onde vamos?

Escreveu no papelzinho

Nunca consegui brigar sem chorar


Ou rir. Rir é horrível, falta empatia. 

A solução é assumir

Sim, estamos e somos. Completamente pirados.


Impressiona é que você não

 

Qual é a sujeira de casa que você

só pra ressurgir de novo

como quem foge 

pra se encontrar


A foto é da casa dele

Fiquei triste quando ouvi

Queria lembrar o nome



domingo, outubro 27, 2024

Gritar

Quero falar bem alto 

repetir e que você

me escute


A


Nem que seja pra dizer Adeus

receber um minuto da sua atenção

através de uma grosseria


AA


Vou chamar a sua mãe

convocar os seus amigos

Digam, digam


AAA


QUEM é você

O QUE você está fazendo

Mas não quero saber por quê.

Isso não faça comigo.


Deixe pra responder

num sussurro desses

que quase se perdem no som da cidade,

mas são altos o suficiente para se ouvir


Eu não te amo. Na verdade,

nem gosto de você.

Seu olhar me causa asco

sua insistência me enche


Por que tu não foste embora

quando bati a porta na tua cabeça?

Que teimosia é essa

de querer gostar de mim


Pois grito: VÁ, SUMA

Minha paz ninguém encosta

E não, não sinto muito.

quarta-feira, outubro 23, 2024

Esboço II

Se soubesse, teria gasto o filme contigo.

Mas essa não é uma história de amor.


A câmera tava com um problema, o fotômetro inventou de não funcionar mais. Tirei várias fotos no feeling, como diria uma antiga namorada. Algumas bati sem querer, até queimei umas fotos, depois entendi que a gente passa o filme só antes de bater, nunca depois.


É que às vezes a gente esbarra no botão e bate uma foto sem querer. E tem até foto sem querer bonita, mas a maioria é quando a tampa da lente tá posta, e foto de tampa nunca é bonita.

 

Se eu caminhar 6 horas por dia, são 138 dias até Belém. Sem passar por São Paulo é quase uma linha reta. Saindo amanhã, chego dia 11 de março de 2025. Mas que exagero, quem que faz 26 quilômetros em um dia? Sejamos realistas. 15 quilômetros por dia. São 244, bota 250 dias, 1º de julho.


Andando de costas pro tempo passar de trás pra frente é só sair em janeiro que te encontro em maio. Não que fizesse diferença, não faria, seria só pra bater mais foto. Poderia levar a máquina com a pilha não estourada. E também um filme melhor do que esse Ilford PB grosseiro.


Acho que nunca te convenci que não era amor. Tudo bem, também tenho dificuldade de convencer a mim mesmo. É que esse limite, do que é, e não é, nunca foi claro na minha vida. E nos últimos tempos ando sem vontade de limites.


Consigo imaginar um amigo rindo e dizendo em deboche: "É a crise da meia-idade". Eu ri. Mas um Porsche 73... em Belém, saindo da praça da República e acelerando pela Nazaré, cruzando todo semáforo, é de noite, não tem ninguém na rua, só o motor roncando Pará adentro.


É uma onça de metal comendo asfalto e gasolina pra ver se engole a angústia do mundo e sua delírios de amor por todos os poros; EU TENHO SEDE DE VIVER 


O tremor do Jambu é mais forte do lado de dentro e ando desconfiado de que foi o Pará quem me comeu e não o contrário, quem mandou gostar do Norte, deve ser o mercúrio no peixe que deixa a gente assim, querendo passar o filme antes de bater a foto.

segunda-feira, outubro 21, 2024

Esboço I

Queria escrever algo tão bonito

que te desse vontade

de recitar


Te falei do meu pai, da vontade 

de ter a atenção que nunca tive

 

Oi, pai. Curioso te encontrar

numa mulher qualquer né.

Ela é do Pará. Tem um negócio lá, pai.

As pessoas são diferentes, mas, assim

ninguém é você.

 

Hoje eu tive um sonho. Nele, um buraco

na parede levava para a chaminé desativada

da casa de tijolos em que a gente vivia

tinha uma tartaruga enorme lá dentro, 

dessas de Galápagos

e teu cachorro vinha feliz da vida

no disfarce de tartaruga dele

Me dar as boas-vindas.


Meu apelido de criança era Tututa.

eu falava isso quando chamava nossa tartaruga


Por que teu cachorro veio disfarçado de apelido de infância?

Por que saindo da chaminé que queima tudo?

terça-feira, outubro 15, 2024

Desaparecer

Quem olha no espelho demanda esforço

encarar a tarefa hercúlea de

ver O cuidado que não se teve,

 

o giro do sentimento aparando suas pontas

na carne do que fica

e vai


Acabam-se e só se sente nada

Vazio de fora parece criança

mas de dentro é desespero.

Porque um é potência

o Outro é esquecimento

 


segunda-feira, outubro 14, 2024

Queria entender

Talvez tenha sido
Algo que
Pensei
Disse
Fiz
Ou então o contrário

Pode ter sido também
Esse formato onde
o que é pra ti (e o que não)
Se confude

Não sei
Acho que nunca vou saber
mas lá, no fundo

A culpa me come,
cospe e empurra com força
A carne rasga

E no(s) dia(s) seguinte(s)
Pego o fio, a agulha e
entre uma palavra e outra
Tento costurar

Pra ver se faz sentido.