terça-feira, abril 27, 2021

Aos Futuros Filhos

Hoje é 27 de abril de 2021. Estamos no ápice de uma pandemia de coronavirus, o covid-19.

Lhes comunico desde uma praia isolada, assisto aos eventos via uma rede de computadores, a internet.

Eu não sei o que vamos encontrar, não conheço vocês e tenho até receio de quem vocês são. Também acredito que se fossem monstros nem teriam oportunidade de ler esta mensagem.

Aqui a ciência sonha com bebês clonados a partir de características pré-selecionadas, incubados in vitro e viajando no espaço através de naves movidas por fusão nuclear. Quando acordarem, quem os cuidará? Uma geração de humanos espaciais? A inteligência artificial? Muito longe para o momento. Temos um pulo civilizatório para dar, o domínio da fusão nuclear. E se formos pra dentro da terra? Com fusão nuclear, aproveitando a rede de túneis que temos em muitos lugares.. abrigados do lixo atômico da superfície.

Talvez uma parcela do mundo sobreviva.

Estamos descontrolados. Perdemos a direção do navio, ninguém consegue parar o trem, o avião vai bater. Estamos agarrados cada qual nas suas angústias, ansiedades, medos e alegrias, ocupados demais. Nossas mãos estão cheias de terra de cemitério, somos o carrasco da nossa própria sepultura.

Assisto passivamente, de forma suave, as nuvens cruzando o céu, a lua nascendo, o sol correndo as estações.

Mando um parabéns por email, escrevo num computador, olho minha obra numa tela, o teclado faz barulho e o mouse é com fio. A internet também é com fio. Muita gente fala do 5g, seria uma revolução na telefonia do país, tecnologia com internet muito mais rápida. Esses dias observei os satélites de Musk cruzando o céu, a promessa é internet grátis para o mundo inteiro.

Talvez.


To future children,

today is 27 April 2021. We are at the peek of a corona virus pandemic, the Covid-19.

I write you from a remote beach, I see all the events throughout the computer network, the Internet.

I don't know what we're gonna find, don't know you and even am afraid of who you are.
I also believe that monsters wouldn't have the opportunity to read this message.

Here Science dreams about cloned babies from previously selected features, such as height, disease control and brain development. Generated inside baby machines and having wonderful paying mothers. Some will travel space, inside our new Starships from fusion technology. We don't really control it yet. Nor the cloned babies. We only dream of.

The marvelous generation, the golden ones, the supreme beings, the humankind frozen in a deadly loop in space. Not for us, that's sure.

Or maybe it's about us. We can move into caves and live all the radioactive millennia, sheltered without sunlight. Talking about sunlight, do you know we only have, like, 1 billion years left? I mean, the sun is going to eat us all. We better get out of here as soon as possible. But "we" don't really decide anything.

We are trapped on our own disillusion. Too busy with our own dilemmas, we couldn't care less. We are humankind persecutors, any attempt to stop the on-going calamity resulted in absurd failure.

I see all of that smoothly, the clouds passing by, the moon's rising and the sun is running.

Maybe.