segunda-feira, fevereiro 01, 2010

Segurança

As trancas na porta lhe falavam do medo. Não de que alguém entrasse, isso seria ridículo, é claro; mas de que saíssem.

Nada poderia ser pior que perder o filho amado por virtude de sua própria vontade. Lhe perguntaria o que havia de tão errado no modo que lhe destinavam seu maior sentimento.

Não haveria necessidade de resposta, uma vez compreendida a situação estabelecida. Lhes fugia e fugiria em cada uma das crianças que nascesse, isto era óbvio, não a ele, mas a eles; seu constante aprimoramento de trancas, através dos seus diplomas, do seu sustento, da sua responsabilidade, de nada adiantavam a não ser para evidenciar a verdade da fuga.

O que pensava ele, então? Uma vez reconhecida a tranca e a verdade que lhe ocultavam, o que haveria de ser feito?

Não havia possibilidade de proceder à outra maneira? Poderia tentar se resignar, aceitar sua condição de claustro; seria como havia procedido até então, com a diferença de agora reconhecê-lo.

Porém, agora se dava conta, a fuga não era física, assim como a tranca na porta também não o era; já lhes tinha fugido, por mais que tentasse agir como outrora e o fizesse de forma tão fiel a ponto de todos lhe reconhecerem, havia agora uma ruptura no seu íntimo, que lograria escapar em qualquer momento de desaviso.

Pois, então, o único remédio seria aceitar sua condição. Sentia, agora, de forma absoluta, que sua fuga não podia ser supérflua, devia tratá-la da mais profunda raiz de si, reconhecendo que a tranca não fora colocada apenas por seu pai, senão com sua força e consentimento.

Ora, seria impossível uma fuga apenas aparente, uma vez que operava a níveis tão profundos que estremecia ao senti-la, como se um passo em falso pudesse forçá-lo a uma existência fora de si, como se fizesse seu corpo vagar a esmo, esperando que lhe tomassem a vida e sentindo um fracasso patético.