domingo, novembro 16, 2008

Quando era criança, queria muito ser piloto de avião. Certa vez, quando íamos para Santa Catarina, minha tia me levou à cabine do piloto. Estava ele e o copiloto sentados, sorriram quando entrei. Tinha muitos botões por todos os lados, alavancas, pedais, rádios, mostradores, etc. muito bacana.
Nessa viagem conheci e morei com a nova esposa do meu pai. Eu odiava aquela mulher que me fazia de capacho, que não me deixava em paz e parecia vigiar cada um dos meus movimentos. Um dia não agüentei mais e comecei a berrar todos os impropérios que uma criança conhece até seus doze anos. Ela do lado de lá do sofá, próxima da janela. Eu do lado de cá, de costas para a porta. Não deixei ela falar em momento algum, só berrava e berrava, repetia o que já tinho dito para que não pudesse me responder.
Então recebi uma bofetada na cabeça, completamente inesperada. Olhei para trás, a porta estava aberta e o meu pai logo atrás de mim. Meu pai nunca tinha me batido, foi assustador. Corri até o banheiro, tranquei a porta e comecei a chorar sem parar. Talvez meu pai fosse a pessoa que eu mais gostava naquela época e receber assim uma bofetada me magoou muito.
Não quis mais ser piloto de avião depois disso. Voltei a querer outras coisas, mas não isso. Estar no avião era estar com as pessoas que eu gostava. E o que aconteceu foi como uma traição, quebrou o encanto que ele tinha comigo, fez que eu não quisesse mais dirigir o avião-família.

Depois cresci, passei a me relacionar com mulheres.
A primeira, meu deus, me traiu de todas as formas possíveis com as piores pessoas possíveis. Antes de falar mais sobre ela, vou falar outra coisa.
Eu fazia aulas de artes marciais com um mestre muito bacana, gostava dele. Uma vez fiz uma cagada grande com ele, mas sempre me esforcei em consertar isso. Aí levava muito a sério a opinião dele, seguia as instruções, era dedicado.
Voltando a falar dela.
Estudava junto dela, era o primeiro ano do segundo grau, a gente se encontrava todos os dias na aula. No começo da nossa relação, fiquei sabendo que ela tinha uma namorada. E quando começamos a namorar, o pescoço dela aparecia sempre roxo, a namorada dela era muito ciumenta. E eu também, mas como era o começo, deixava isso pra lá. Depois acabaram. Depois voltaram. E assim sucessivamente, criando grandes calos no meu coração. Por fim acabaram definitivamente. E foi minha vez de sentir muito ciúme. Uma vez estava esperando ela sair do banheiro e comecei a mexer no caderno dela. Achei um trecho escrito que ela tinha beijado o mestre de kung fu. Ótimo. No ano seguinte ela acabou comigo, estava com outro cara. Mas fazia tempo já. E era o primo dela, meu conhecido!
Bom. Depois tive outros relacionamentos, mas esse foi marcante.
Teve outro, que uma semana depois de eu acabar com a garota, ela já estava se deitando com outro.
E teve o último. Para explicar melhor, vou expôr minha lista:
- Meu colega
- O colega dela
- O atual prefeito de Porto Alegre
- A atual governadora do RS

Não gosto dessas quatro pessoas. Esse ano teve épocas em que pensei em matar eles, os dois primeiros principalmente. Agora já não penso assim, graças à meditação, à beleza do mundo e à bondade. Compreendo essas pessoas e são parte de mim. Me reconheço neles. Não quero dizer que somos iguais, apenas que reconheço motivações, por quês, frustrações que já senti muitas vezes.
A garota do último relacionamento adicionou o colega dela (o top 2) em seu msn no mesmo dia que acabamos. Três dias depois estava trepando na casa dele.

Consigo, de alguma forma obscura, arranjar mulheres com esse perfil. E isso é uma volta à bofetada do meu pai; é a traição da pessoa querida. Recrio a história milhares de vezes com mulheres, com amigos, com desconhecidos. Estou sempre procurando alguém que possa me bater com força quando estiver frágil.