Tentei atuar em outros departamentos já. Mas a minha especialidade é amores perdidos. É triste enxergar os clientes chegando depois das quatro da manhã para bater na minha porta de vidro, pedindo ajuda. Eu e meu ventilador barato girando em torno da vida deles que é cuspida na minha frente.
Se a maioria ao menos se interessasse em fazer algo, seria ótimo. Mas apenas querem um ouvido para contarem seus problemas amorosos. Como ele/ela os deixou sozinhos, frustou, traiu, morreu. Alguém que me lê pela primeira vez pode dizer: morreu? Se morreu, por quê vai ao detetive procurar? Querido. A morte não é o fim, temos meios de procurar aquele alguém especial, apenas não garanto que será um ser humano. É bom você se lembrar disso da próxima vez que matar uma barata, pode ser o seu grande amor da vida passada. Ou um qualquer, como eu.
A vida me deu vários dons, alguns desperdicei com bobagem e me arrependo profundamente. É o karma. Tive muita gente acreditando nas minhas palavras, confiando em mim, e desperdicei isso por essa ou àquela emoção. Seria bom voltar aos tempos de criança / pré-adolescente e consertar todas as cagadas que fiz, mas não é possível. Não é possível sequer voltar ao dia de ontem, quando perdi mais um caso. Enquanto não consigo lidar com essa variedade de coisas, sigo queimando casos de amor como se fossem palitos de fósforo. Algumas vezes os palitos caem no feno e iniciam um grande incêndio, mas o comum é cairem no lodo e se consumirem rapidamente. É assim que funciona com um detetive de casos amorosos.. perdidos.
Ontem à noite ele bateu na minha porta denovo. Fazia tempo que recusava seu caso, mas como insistiu (sabe que sou o melhor na área), acabei abrindo uma exceção. Ouvimos Neil Young até chorarmos todas as nossas mágoas, fizemos muitas ligações e comemos polenta com queijo servida na esquina do escritório.
À certa altura me perguntou: E todos aqueles casos que não podem mais se realizar? O que eles são? Bom. São casos de amores perdidos também. Aqueles que nunca se concretizam. Aquele garoto que fazia sushi tão bem e sempre lhe convidou para ir na casa dele, mas você estava namorando. Aquele outro que tocava baixo tão bem e sempre lhe convidou para tocarem juntos, mas você estava namorando. Ou aquela garota que fez você prometer que iria assistir ao filme e nunca assistiram. Ah, porquê você estava namorando. E todos esses casos que a nossa tão estimada mogonomia impede que tenhamos? São casos de amores perdidos. Mas quando o desejo é forte, ele espera. Espera, espera e espera. Um dia tudo acaba, mesmo os melhores relacionamentos. E aí os amores que pareciam tão perdidos voltam.
Parece brincadeira, mas tenho uma compilação de casos assim em casa. Todos os meus amores têm uma página dedicada no meu bloco (esse bloco é lindo, uma cópia idêntica ao que Hemingway usava), onde anoto tudo que é interessante. Às vezes algumas características muito chamativas, como o peito batendo palmas, mas a maior parte se trata dos amores perdidos. Aquele dia, 16 de janeiro do ano tal, está lá. 4 de abril, lá. 21 de fevereiro do outro ano, lá. O garoto do colégio, de santa maria, do sushi, o ex, o do baixo, da bateria, ... todos ali listados. É engraçado que.. depois de anos trabalhando com isso, sinto o cheiro do desejo. Então há graduações de desejo, um método infalível. Mas não vem ao caso hoje.
Sou monogâmico. Completamente. Me dedico à pessoa. Mesmo quando sei que ela está fazendo as maiores burrices da vida dela e estragando completamente o nosso relacionamento, cá estou firme e fiel. É natural. Nunca acreditam em mim. Demoram para entender que não minto. Está bem, eu faço PIADAS. E escrevo FICÇÕES. São os momentos que escrevo ou digo coisas que não condizem com a realidade. POSSUEM MUITAS VEZES ELEMENTOS DELA. Mas não são reais. Eu só queria que entendessem..
Estou divergindo da nossa apresentação, desculpem. Acabo me empolgando com os meus casos perdidos e já que vocês são audiência cativa, estou aqui ocupando suas telas. Onde estava? Ah! Sim. Amores perdidos que voltam ao término do relacionamento, na maioria das vezes são como a bebida que volta pelo esôfago e é regurgitada em cima da mesa de café da manhã. Ou seja, servem para você se livrar dos embalos da última noite e estragar sua próxima refeição.
Dizem que apenas depois de três meses você está pronto para encarar denovo outras pessoas. Acredito que isso se trata de uma grande mentira. Você NUNCA está pronto para encarar outros relacionamentos, eles simplesmente aparecem do nada quando tiver que ser e cabe a você aproveitar ou não. Deixar pronto ou não.
Meu cliente foi comprar outra garrafa de úisque naquele bar da esquina que nos vendeu polenta. Já não agüento mais beber. Faremos o seguinte: deixarei este programa aberto. E meu cliente vai acabar o meu texto, por quê já não tenho condições.
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