A falta de um lar sempre foi uma constante, não tenho residência fixa e preciso me deslocar de casa em casa conforme me descobrem. É terrível, às vezes saio durante a madrugada correndo por quê soltam esses cães de guarda no jardim da casa; não é raro estar com as roupas esfarrapadas e ensangüentadas.
Gostava de me relacionar com mulheres, muitas vezes me era concedido um dia de permanência dentro de um ambiente bem cuidado, limpo e calmo. Ficava assim desprovido de preocupações por um dia ou dois, certas vezes até mais. Mas sempre era expulso de volta para "casa" por quê no fim ninguém agüentar viver o tempo todo do lado de outro alguém. Nem de si mesmos, na maioria das vezes. Conheci uma mulher que não possuia espelhos em casa, saia para se arrumar sempre no banheiro da quitanda da frente, dizia que os espelhos faziam ela pensar que existia mais alguém dentro de casa.
Tenho muitas histórias para contar, isso é algo que atrai público. Sempre consigo um almoço e uma janta, é gostoso. Esqueci de falar: não trabalho, não estudo, não tenho hobbies. Tudo que sei fazer é ler, escrever e pensar. E me sinto maravilhosamente bem assim. Mas a questão é que isso me gera o incoveniente de precisar arranjar alguém que me pague as refeições e conceda sua casa diariamente. Não que eu não durma embaixo de outros tetos que não são de casas, como pontes e marquises, mas convenhamos que não convém conquistar pessoas enquanto se está emporcalhado da rua.
Voltando a questão das mulheres: escrevi gostava. Não gosto mais. Não que tenha virado homossexual, antes pelo contrário. Aprendi que mulheres gostam muito mais do que os homens. E que eu, como homem, devo impedir que gostem de mim. É a melhor forma que tenho de tratar essa relação; como nunca vou gostar tanto de uma mulher como ela é de mim, melhor que ela sequer chegue a gostar de mim que assim estarei fazendo o melhor.
No fim, é uma relação altruísta.