Era um desses romances de outubro ou novembro, não sei bem, talvez fosse janeiro ou fevereiro. Num desses bares, talvez não fossem bares, que a gente finge que não se importa. Numa daquelas mesas, acho que eram mesas, com aquelas cadeiras, que não são bem cadeiras. Não importa. A gente tinha uns comprimidos, talvez fossem cinzas, talvez fossem rosas, enfim, comprimidos, que caem bem a qualquer pessoa com mais de trinta anos. Um prazer caro com uma droga barata, gostava de falar isso como se fosse rima, e a gente achava graça toda vez que o outro ouvia o outro e pedia e ouvia e falava. Eu pensava e ele pensava e os pensamentos iam os pensamentos vinham, ah, a gente delirava, naquelas mesas que não eram bem mesas com cadeiras que achavam que eram gente. Foi tudo assim, de sopetão, eu não entendia, minha pele ficava de marfim. Não se mexia, não falava, só ouvia. Os elefantes tinham cruzado a sala e a gente, que tava ali pra não sei bem, olhava e olhava e pedia e pegava. Umas asas de marfim, que vinham não sei bem donde, uma coisa meio elefante assim. E a gente pensava e pensava. E um dia acordava.
Num dia de trabalho.
Numa sala.
Numa mesa.
Como quem nunca tinha falado assim.
Como quem é assim.
O computador ali.
A gente aqui.
E a gente trabalhava.
Em novembro ou fevereiro, a gente conseguia.
Conseguia.