Era comovente, não, era chocante, a impiedade, a falta de tato, a busca pelos prazer fugazes.
Se tratava de um rato, fumante passivo de ciganas no centro. Dia sim, dia não, faziam-lhe um agrado e lhe contavam seu futuro olhando para suas mãos. Uma brilhante carreira como jornalista, psicólogo, médico, maratonista, cineasta, ator, biólogo, farmaceutico, mas, gostavam de enfatizar, somente se largasse seu vício.
Um rato poderia ser viciado em queijos, álcool, drogas, sexo, festas, e muitas outras coisas que seriam possíveis de listar, mas tornariam o texto enfadonho.
Não, dizia-lhes o rato. E era um não sincero. Permanecia calado o resto do dia, meditava sobre o que deixava passar e o que ganhava em troca. Olhava seus colegas no balcão do bar, todos acima dos trinta anos, acabados, com roupas surradas daquelas que ganharam anos atrás. Olhava o outro extremo, os crentes fervorosos todos os dias na igreja da esquina de sua casa. Às vezes lhes fazia companhia, mas seu objetivo lá era muito diferente e longe Dele.
O rato olhava para um lado e para o outro.
De um.
Para o outro.
Não compreendia que, entre os dois lados poderia haver um meio. Ora ia à igreja, ora ia ao bar. Não ia à igreja rezar, não ia ao bar beber.
Era muito pior o que fazia.
Sentia-se impelido ao vício. Pensara certa vez se o fazia por vontade própria, mas chegara à conclusão de que só poderia ser um vício genético. Não sabia de outro caso na família, mas era forte demais para não se reconhecer uma, como se diz, predisposição? ao vício.
O rato era um colecionador, ora, um colecionador pode colecionar muitas coisas, selos, moedas, notas de cem, cds do america online. Mas não era nada disso.
Se tratava de um colecionador de pessoas.
Continua.