A Escada
Sobe os degraus, corre, corre, a torre, meu deus, corre.
O barulho dos passos atrás, próximos, fortes e duros, mais rápido e mais rápido, mais rápido, mais rápido, dizia para si mesma. As botas de couro batendo contra o assoalho, a risada, meu deus, a risada, a gargalhada que vomitava, escorria pela barriga protuberante de anos de comilança, escorria pelo casaco de veludo vermelho aberto para respirar, escorria pelas calças arriadas e escorria, principalmente, pelo vermelho duro e latejante entre suas pernas.
A Porta e o Quarto
A porta, enfim. Abriu e se trancou. Os passos deixaram de soar do lado de fora. Um silêncio tão estarrecedor comprimiu o ambiente, fez as narinas dela se dilatarem e sorverem o ar na busca do perigo. Uma tontura, como uma onda indo e vindo, cada vez mais forte, mais forte, mais forte, meu deus, a janela, meu deus!
A Janela
A janela refletia o quarto. Do lado de fora fazia frio.
Aproximou-se e olhou. Abriu e uma corrente fria entrou, passou pelo seu vestido rasgado, crispou seus pêlos. Não era só a corrente fria que lhe deu um arrepio quando abriu a janela.
Era a multidão parada em fronte.
Maria, mãe de dois, prostituta, pecadora, desgraçada, pega, vadia, mata.
Uma multidão silenciosa que se movia de um lado ao outro da movimentada borges de medeiros, enquanto Maria esquadrinhava a rua assustada pela janela da escola.