Existe um cômodo antigo de madeira. Três gavetas, fotos, anotações, cadernos.
Uma tentativa de saber quem sou eu.
Foram várias. Primeiro o colégio. Os colegas. A namorada, o sexo, dormir de conchinha, o ciúme, a dor. (denovo e denovo).
Escrevi muito aqui. Numa espécie de diário.
Fui zenbudista. Luterano. Ateu. Panteísta. Meio-termo religioso. Historiador, fotógrafo, empresário, jornalista, saxofonista, sexofonista, vagabundo, mesquinho, hippie.
Tentei ser gay e não deu certo. Tento ser hetero, mas não sei direito o que isso significa. às vezes não faz sentido nenhum definir o sexo.
Sexo nunca foi importante. Dinheiro também não. Nem status. Nem tristeza ou alegria.
Fui vegetariano. Hoje sou carnívoro.
Já viajei mais dentro de um apartamento do que a minha vida toda. Esse foi o LSD.
E pensei: meu deus, nunca mais vou tomar isso na vida. Até que tomei Daime.
Durante vários meses o Daime conduziu minha percepção do mundo.
Os homens ficavam de um lado e as mulheres do outro. Cada um ia tomar o Daime quando quisesse. E quanto quisesse. A cor é laranja escura e tem o pior gosto. Vomitei em seguida. Pensei, nossa, isso tem um gosto tão ruim e nem faz efeito.
Sentei na cadeira. O mundo começou a tremer, mas não como num terremoto, mais como se o mundo inteiro estivesse tremendo, o chão, as pessoas, o ar, as velas, Paris, Porto Alegre. A única coisa estática era meu corpo. Pensei que pelo menos ainda tinha meu corpo. Mais tarde ele sumiu e só fiquei com o pensamento.
Não havia outras pessoas - às vezes sim, mas não estavam na mesma época que nós - nem limites materiais. A sala virou uma floresta. Os sons dos pássaros voaram. O chão ficou molhado de terra. E quando tudo ficava escuro eu só pensava "se continuar pensando, continua existindo". Que a existência era só o meu pensamento que mantinha.
Aquele dia tinha pedido ao Daime: quero saber o que é o aqui e agora.
Só que a minha jornada sempre tem sido "quem sou eu?". Essa é a pergunta que gostaria de fazer.
Porque não tenho a menor idéia do que essa pessoa que já foi tantas.
Essa busca me devasta. Vivo num processo de colocar tudo abaixo pra erguer denovo. Erguer sobre os princípios certos. Derrubar sobre os novos princípios certos. Já ouvi chamarem isso de aprendizado. Não é.
Não se trata de corrigir minhas idéias por outras melhores e depois outras e depois denovo...
Não existe nenhuma idéia certa. Não existe ponto algum em ficar corrigindo uma atrás da outra. É como um ratinho correndo na rodinha. Não vai chegar a lugar algum!
E daí o que me vem logo em seguida é essa outra idéia de que... isso também é uma idéia e também vai ser corrigido por outra que pareça melhor. E que não existe ponto em querer que exista um ponto.
Finalmente: não existe verdade absoluta. Essa mesma idéia que me joga denovo na depressão de não realizar nada por não existir verdade absoluta em nada do que faço. E lá vai denovo o ratinho correndo da depressão de "oh meu deus, não existe nada nesse mundo que seja verdadeiro, que devo reverenciar, admirar, me dedicar" pra euforia do "ahh não, existe sim, a explicação X é o caminho!".