Eu não costumo pedir comida por tele-entrega.
Achava desagradável, perda de dinheiro, tinha medo de me relacionar com o atendente no telefone, quanto mais com o motoqueiro.
E nessa última semana, por algum motivo ainda esquisito, tudo que eu mais quero é comida chinesa na caixinha, entregue em casa.
Agora, que já comi a tele-entrega, yakisoba de vegetais (com excesso de molho shoyo), me dei conta.
Quando coloquei a caixinha em cima da mesa, senti a tua falta. E a falta daquele programa (horrível, mas nosso até no nome "A Praça é Nossa"). E a falta daquelas tardes e noites intermináveis, cheias de bonequinhos, histórias milaborantes, banho naquele chuveiro esquisito, conversas com aquele tio mais esquisito ainda...
Ai pai. Por que tu se foi? Sabe, agora tu não é mais essa figura que tá na minha cabeça. Mesmo que estivesse na tua casa, o yakisoba tu não ia comer. De hashi então, muito menos. A gente ia ter que comer naquele corredor que tu chama de cozinha, não no quarto assistindo sbt no fim da noite. Tua mulher ia implicar com alguma coisa, óbvio. Minha irmã mais nova ia ocupar quase todo o tempo que tenho só contigo na cozinha. O resto dele tu ia ocupar falando da crise, do governo atual, do teu colega no banco e de qualquer problema socio-político-econômico-cultural-psicológico do teu interesse.
Tu ainda brilha um pouco quando fala do passado. Mas isso já é tão raro, que acabo te encarando como um fantasma de quem era o meu pai. Vagando por aí, dando pitacos extremamente inteligentes, mas não indo mais a lugar algum e sem escutar coisa alguma.
Agora como sozinho a porção de dois, assistindo a um filme qualquer que passa na tv. E choro a saudade.