No reflexo desse vidro fosco a gente acaba enxergando muita coisa.
Inventado e misturado.
Invertido como aquele amor de infância, que jogava pedra enquanto dizia te amo.
Te encontrei no restaurante do trabalho. Magro, pálido, com dois filhos estudando no nosso colégio. Não olhou para mim, nem queria. Depois do que te fiz, nunca mais a gente se relacionou do mesmo jeito.
No verão daquele ano não tinha com quem brincar. Pegava cartas e fazia castelos. Tirei fotos, tenho até hoje pra te mostrar. Li um livro também, quer dizer, pelo menos comecei. Parei quando me masturbei com ele. Engraçado, né, se masturbar com um livro. Foi a primeira vez. Era a história do escritor do Kama Sutra, contada por um discípulo.
Apaguei aquele vidro fosco da mente até hoje. Deve ter sido o terno que atraiu o teu olhar. Ou talvez tu estejas só com tua rouquidão. Só com todos a minha volta me dizendo quão bonita.
Atraiu e fez chover uma água húmida do lado de dentro.
De todos os amores que não deram certo.