Não é de ontem que pessoas se queixam que não conseguem amar. Mas o que é esse amor que a gente parece desejar? É uma dessas criações da nossa cabeça. A gente pega um balão, enche ele de idéias sobre como a pessoa é e do nosso futuro ou passado juntos e o balão começa a voar. Mas aí, é óbvio, as idéias, que são extremamente inconstantes, mudam. Mudam por qualquer motivo. Não precisa ser aquele cliché: a pessoa não corresponde ao que pensava.. é bem possível que ela corresponda exatamente ao que você imaginou; o problema está em idealizar algo diferente.
Existe essa sede por idealizar pessoas (ou coisas) diferentes, então mesmo quando a expectativa é atingida, isso nos leva a refazer tudo e destruir aquilo que temos e poderia ser tão bonito. Deve ser uma questão "biológica", a idealização de outras pessoas produz determinadas substâncias no corpo e estamos viciados nelas, portanto não conseguimos nos desvincular dessa ânsia por idéias diferentes.
Enfim, pra amar é necessário um esforço contrário do que estamos acostumados. Não vamos encher balão algum. A questão está em aceitar as coisas como são, não estimular idéias em cima das ações dos outros, somente aceitar. E isso pode ser muito difícil, talvez por causa dessa questão "biológica" de estarmos viciados, ou, mais provável e aliado a essa questão, por não querermos amar ao outro.
Não querer amar o outro é ter medo de olhá-lo como ser humano e, principalmente, como parte de nós. Sempre é muito fácil enxergar os problemas dos outros, criticá-los e mesmo odiá-los. Só que essa idéia do que é o outro, é apenas isso: uma idéia. E sendo uma idéia, é nosso, nós que dizemos "isso é assim", está dentro da nossa cabeça.
Parando para olhar nossos sentimentos, percebemos que todos são baseados em nós mesmos, nada é externo. São idéias que temos das pessoas e a partir daí desenvolvemos algo. Tudo dentro de nós. Às vezes aconteceu algo "ruim", o pai bateu na mãe, às vezes não, o pai ligou o carro e foi trabalhar. A idéia que fazemos dessas duas ações pode ir para qualquer lado em qualquer momento, por que é, como escrevi, inconstante. Então a mera ação do pai ir trabalhar pode ser terrível, levar toda uma carga a partir de um raciocínio. Ou o pai bater na mãe pode ser algo maravilhoso. Talvez a gente queira que a mãe apanhe mesmo em algum momento.
A questão é perceber que todas as coisas que sentimos partem de pensamentos sobre o mundo. E como esses pensamentos estão mudando de forma toda hora, os sentimentos não possuem uma base estável e oscilam o tempo todo.
Portanto, o amor baseado na não-idealização, não-julgamento, não-eu, possui uma base forte. Por mais que você pense horrores ou maravilhas sobre determinado objeto ou pessoa, aquilo vai continuar a ser o que é. Você estará aceitando e amando.
Não quero dizer que por causa do não-julgamento então não devemos reagir diante ações maléficas, sob o pretexto de que é assim que as coisas são. Pelo contrário, podemos direcionar ou reverter essas ações de forma muito mais clara e precisa, estando consciente do que é a ação, de onde se origina e como pode ser solucionada. Por que direcionar, já que as coisas são assim? Por que fazemos parte do presente e fazemos as coisas serem do jeito que são também.