segunda-feira, setembro 30, 2024

Autobiografia dos últimos dias

Aprendi de pequeno a não falar muito, na verdade, a não falar nada.

Diziam de mim que era tímido.

Lembro quando deixei de falar a primeira vez.

Andava com um bloquinho pra cima e pra baixo

Era nele que escrevia o importante.

 

Teve amizade que durou só o silêncio

Quando abri a boca,

minha voz saiu assim e

De querido, passei a odiado


Já ouvi que sei tudo

e que não sei nada

Mas desconfio

da ironia de quem fala


Me disseram também

não parecer a idade que tenho

É frase de jovem

Velho gosta é mesmo de ser criança


Eu ainda não sei falar

Mas de tímido ninguém me chama

Esses dias brinquei de teatro

Gostei. Gostei mesmo, de repetir.

 

Só é engraçado.

Quem me levou, faz mímica.

E quase não fala.

Ou fala de outro jeito, né.


Ando amando muito

De brilho no olho

Às vezes é por alguém

 

Descobri como achar

quem me procura

pra não viver também

num caldo de amargura

 

Me ensinou foi a mãe

essa que teve a filha

outro dia desses

 

Hoje paro aqui

que já falei foi muito

e deixo aí o verso

do Miguel não mudo

sábado, junho 08, 2024

Celulares

No aeroporto todos usavam seus celulares enquanto aguardavam o avião.

Não estranhei, afinal, o que fazer enquanto aguardamos?

Chegando na casa de amigos, cada um pegou seu telefone para verificar suas coisas.

É natural, temos trabalhos, a saída do final de semana, aquele compromisso mais para o fim do dia.

Na mesa de jantar com minha mulher, ela passou mais tempo no celular do que comigo.

Era para mostrar coisas da nossa conversa. Um quadrinho, um diálogo, uma música, pesquisar uma informação, coisas importantes para construir a conversa.

Mas não sei.


No fim do dia fico com a sensação de que interagimos com o aparelho e não com nós mesmos e a vida real. O virtual permeia até minha intimidade. E isso me faz chorar.

quarta-feira, abril 17, 2024

Atenção

Pensei em ler nossas conversas como se fossem um livro para ver o que encontraria. Perceberia meu padrão de comportamento ao longo de linhas e mais linhas? Veria a repetição infinita de eu te amos?

Era um hábito comum guardar cartas. Hoje ninguém mais as escreve, mas eu ainda tenho algumas guardadas. Memórias de amores e amigos. Nem eu, nem quem escreveu, é mais o mesmo, talvez a gente nem mais se fale. 

Mas a memória, ah.


Quantas pessoas nos amaram, trataram bem, mal, com indiferença ou absoluta devoção. Uma geração antes costumava guardar fotografias, grandes álbuns repletos de fotos de outras épocas.

O equivalente moderno são cartas do WhatsApp e fotos do Instagram. Vídeos do TikTok para quem é mais novo. Por isso o analógico guarda para além da nostalgia um valor de independência. Ser analógico na nossa coleção de memórias é, claro, um privilégio e também revolucionário.

É engraçado que tantas coisas do passado hoje tenham ganhado caráter revolucionário em certos contextos. Ter filho sendo uma mente com inclinações críticas é difícil e deixado para depois dos 35. Uma construção de anos que talvez nunca se edifique. Interessante essa palavra porque é justamente o que tenho sentido falta, construir é estreitar laços, erguer algo na terra dos vivos que dura no tempo.

Como se fixar em algo quando tudo parece tão interessante e atraente? São pesos, algo se ganha, algo se perde, numa eterna lista de prós e contras. Talvez seja a lua em gêmeos que me deixa assim. Tão bom poder culpar os astros.

domingo, abril 07, 2024

Oração é um pedido que se faz ao céu

Oração é um pedido que se faz ao céu


Onde vamos ou deixamos 

Quem deixamos

Soltar para voar não é um hino poligâmico

é realidade concreta


o muro que nos contém

pede para extravasar

lágrimas, secreções várias


Somos areia no deserto

a força constante, bruta

o pulsar insistente da

vida

 

Ela mesma que por si só

faz correr esse rio do tempo

Talvez não tenha nada mais 

lindo que dois rios coincidirem

três, quatro, oceanos imensos

daqueles que a gente não vê a outra

margem

 

A margem que nos limita e aprisiona

essa é a oração do espaço

 

 

Não tenho muito o hábito da poesia, mas é uma linguagem bonita e quem sabe ajude a tornar a minha e a sua vida mais bonitas também

quinta-feira, janeiro 04, 2024

Feliz ano novo

Oi!

Esse texto é para você.


Não sei se tu ainda lembra da sua foto mais antiga? Eu estou aqui na casa da minha mãe e entre tantas memórias, tem esse porta-retrato terrível de acrílico com 3 fotos muito interessantes.

Outro dia eu estava pensando sobre isso das imagens, como a gente passou de algo que guardamos por gerações até para o insta-ntâneo. Dá uma filosofia de bar bonita isso e sei que me motivou a comprar uma câmera analógica. Uma específica, Yashica FX2. Não achei nenhuma em bom estado, resolvi arriscar numa FX-3 Super 2000. Foi. Péssima.

Mas resolvi que vou arrumar. Tem um cara lá em Fortaleza chamado Lula, sim, que conserta câmeras assim, já trocamos mensagem e sexta-feira vou colocar no correio, seja o que Deus quiser.

A ideia futuramente é fazer mais partes do processo, como revelar o filme. Vou começar revelando o negativo, que é barbada né, só ter aquele negócio redondo e preto que coloca o filme abertinho no escuro dentro do carretel e joga o químico. Teu pai tinha um, até nos deu uma época que pirei nessa ideia aí. Ficou pra você. Talvez ele tenha dado pra ti, no fim das contas. Também, tanto faz.

Teu pai. Lembra (desculpa?) da vez que ele teve um trócio, eu tava lá no Sol da Manhã. Não sei se alguma vez te contei, mas quase bati o carro depois que você me contou. Fui cruzar uma rodovia e simplesmente atravessei, foda-se. É.

Sei que chegando lá no sítio, peguei o cachimbo e comecei a rezar pelo teu pai. Rezei de verdade. E tu lembra daquele tabaco, era forte aquilo, dava um barato. Em algum momento, era como se eu estivesse falando com o teu pai. Ele falava umas coisas tipo de ter feito a parte dele, que tava cansado, que ia embora. O rezo todo desse tabaco fui eu conversando e explicando como a filha dele ainda precisava dele para outras coisas, que ainda havia muito da vida a ser vivida, e como você valorizava a companhia dele.

Eu chorava e ele chorava também e sei que em algum momento teu pai ficou.

Não sei se alguma vez te contei assim, mas foi assim, e agora tá aí escrito pra você ler quantas vezes quiser ou nenhuma.

 

Mas a história não é sobre o teu pai. 


A gente tava falando das fotos, sim. Tem essa foto, que inclusive deve ter sido tirada pelo próprio, sua bem pitototinha coisa mais linda e fofa. Do seu lado tá minha irmã numa foto criança feliz também e atrás tem minha versão mini banguelinha.

Você tem pensado em filhos?

Eu passei perto recentemente. Estou passando, sei lá. Conheci essa moça nordestina, quer muito. Morar no nordeste? Não sei. Tua mãe é que sabe! Seja como for, já escrevi no passado porque abril estou de volta, oficialmente, com duração até novembro pelo menos. 

Nós não conseguimos manter uma amizade, isso me entristece muito. Digo, somos amigos, né? Só não nos falamos. Tipo, uma vez por ano. E tá tudo bem, não é nem ruim, nem bom. É só o que é. 

Queria que você tivesse viajado mais. Isso tem acontecido? Lembro de ter uma conversa sobre o Tigran, te perguntei de onde o cara era, acho que você comentou algo sobre ele estar na Itália? Depois o editor vai fazer um fact-check aqui quando forem publicar. Eu é que não, já viu como é o negócio aqui né, o que é publicado aqui fica aqui, é o que é. Que nem uma foto analógica. A gente pode ensaiar, medir o fotômetro, se vestir direitinho... na hora tudo pode acontecer e a magia é que só vamos saber depois, bem depois para os parâmetros atuais; e aquela piscada de olho, o chifrinho no colega, a coçadinha no forévis, tudo fica registrado.

Falando em chifrinho. Que situação hein. Quantas crianças não foram marcadas por esse momento para no futuro se tornarem cornas? Ninguém falava disso na época e não vejo tampouco hoje em dia alguma sociedade de acolhimento corno. E todo mundo sabe que a maior parte dos crimes passionais são cometidos por cornos. Diria até que é questão de segurança pública!

Ok, parei.

E a Turca? Meu gato se chama KGB. Isso faz essa vizinhança ser o quê? Diversa né. Eu gosto da tua cachorra. Prometi que se um dia tivesse um sítio, levaria ela pra viver lá, desculpa. O bom pra ti é que tô cada vez mais longe dessa ideia de ter um sítio. Assim, não que eu não fosse querer. 

Seria ótimo. Ter uma base, um local pra chamar de casa, onde ficam minhas coisas e sei que posso sempre voltar. Uma vez achei que a tua casa poderia ser esse lugar. O erro foi podar aquela árvore dos fundos. Lembra quando a gente lavou o veneno dela juntos e deixamos a árvore viva pro terror do telhado? Acho que aquela árvore significava mais do que isso.

Quebrei o telhado da tua vizinha, carreguei uma telha de brasilit sozinho do Nunes até a frente da casa dela. Daí chamei um amigo pra me ajudar a colocar a telha no lugar e arrumar tudo. Ficou top. Ou não?

Top, você vai dizer, seria não ter derrubado um galho na telha daquela vaca. Agora lembrando dos vizinhos, e o americano hein? Vocação pra vizinho mala ou casa na cidade errada?

Com o tempo tendi pra segunda opção. A galera aqui é muito mala, puta que o pariu. Claro, você pode fazer coisas legais, óbvio que pode ter bons amigos, desfrutar da rica cena gastrocultural e voltar pra casa antes da meia-noite, mas, no geral, o porto-alegrense é mala.

É o que é.

Tô pensando em ir pra Argentina, morar lá perto de Córdoba por um ano. Tem vários lugarzinhos massa pra visitar ali ao redor. Tu pode ir, tá convidada. Não vou dizer pra levar o namorado porque sei que tu não vai, quanto mais o cara que nem nunca conheci, então. Mas se aparecer e bater na minha porta vou te receber e oferecer lugar (manda um e-mail antes, se possível).

Vou encerrar por aqui. Bom falar contigo. Gosto muito dos nossos monólogos. Sabe que tem um lugar que sempre vou quando quero estar em paz? É o banheiro da tua casa numa noite em que fizemos um lombinho no forno com suco de laranja e curry. Ok, não é só nessa noite, foram várias, eu fiz isso várias vezes, é assim.

Sentei na privada, cuidando para não deixar meus pés tocarem em mais nada além do tapetinho (nada de frio do piso), os joelhos também não podiam encostar em nada, enfim, tinha que tentar evitar ao máximo qualquer contato do corpo com algo que não fosse o assento da privada e o chão. Isso é para reproduzir essa cena em qualquer banheiro. 

O que eu faço quando quero voltar a esse momento que foi tão bom e me senti tão feliz do teu lado ou que por vezes não foi bom e quis sumir simplesmente, mas seja como for, é um momento no passado para o qual posso voltar, então, o que eu faço para voltar, é entrar num banheiro de uma casa qualquer, me sentar como te descrevi, colocar os dedos nos ouvidos de maneira a evitar qualquer ruído externo e fechar bem os olhos.

Foi isso que fiz aí.

E tem esses momentos que só quero voltar praquele dia e começar tudo de novo. Ir na academia, fazer outro curso, ou cursar jornalismo que nem eu queria lá no começo, viajar, viajar, viajar. Te beijar de novo, puta beijo gostoso.

Então, no banheiro de qualquer outra casa, faço isso aí que descrevi, me concentro, tem que concentrar, e por um momento estou no banheiro da tua casa, nesse dia, vários anos atrás, décadas já. É rápido. Abro os olhos e volto para o banheiro de qualquer outra casa, ainda não desenvolvi o método plenamente. 

É como uma pilulazinha de paz e tranquilidade no meio de um dia atribulado e sou muito grato a tua casa, o teu carinho e o teu amor por me proporcionarem isso até hoje.

Eu te desejo um 2024 extraordinário. Que esse ano seja revolucionário e você exale pelos poros alegria e desejo de viver. Te desejo o friozinho na barriga daquele dia que você lembra qual é e não precisa ser o mesmo que eu lembro. Você é linda, incrível, talentosíssima, brilha. Desfruta!

terça-feira, novembro 14, 2023

Sobre pássaros

A gaiola é uma jaula de concreto com janelas teladas no 3.º ou 4.º andar de um prédio que lembra um banheiro pelos azulejos, algo que foi moda em algum momento e, graças ao bom gosto brasileiro, se abandonou como os tamancos (e quem sabe em algum lugar ainda usam, exatamente como os tamancos).

Os pássaros mantidos em cativeiro vivem mais, pois são bem cuidados. Banho, tosa, vacinas e vermífugos em dia, exercícios e até classes de canto. A perfeição consiste em administrar o tempo, comprar uma casa, ter investimentos.

Administrar o tempo. Não é que o pássaro não saia da gaiola. Ele saí, saí sim, muitas vezes vai mais longe do que se fosse um simples pássaro andarilho. Com datas de chegada e de partida. Airbnb ou booking. Um jantar fora, outro sanduíche no almoço.

Comprar casa e ter investimentos são parecidos. Significa que o pássaro canta bem, tão bem que sobra. Sobra para pensar em sonhos como a casa própria ou em viver de investimentos. 

Ilusões de liberdade que, na verdade, são grilhões. Não há nada de mal nisso. Pássaros em cativeiro vivem mais. É natural que se busque o cativeiro, a referência de conforto e normal.

Talvez não. Só conforme o pássaro envelhece, o talvez vai ficando cada vez mais pianinho e a certeza de uma vida cômoda e prática se torna uma prior[idade]. E a vida não é feita de se, mas de certeza. Por isso é bom ter os dois pés no chão ou duas asas no céu.

segunda-feira, outubro 02, 2023

Minha tia F

Tia F,


eu vim pensando no caminho em como te escreveria essa carta, se deveria começar com um clássico "Querida tia", mas nós dois sabemos que de querida você não tem nada (e possivelmente nunca teve). 

Talvez mais do que para você, essa carta seja para toda sua família, embora você, sim, tenha assumido um protagonismo estratégico e natural. Vou logo colocar em cima da mesa o que eu sei:

Você matou sua mãe.

Vejo essas palavras tocarem sua armadura e serem repelidas quase de imediato. Quase. Você leva um tempo para absorver o que eu disse, quem sabe pensa em outro momento nisso de novo, mas logo esquece. 

O que você toma, tia? São ansiolíticos? Algo para dormir à noite? Ou somente o álcool satisfaz sua pele curtida de crocodilo? Sim, tia. Pele de crocodilo e nem digo pelas rugas que você apaga em sessões caríssimas de botox, peeling e microagulhamento. 

É o seu sangue-frio. Sangue de barata, diria alguém em outra parte.

Nós avisamos. Não só eu, mas primas, irmãs, primos, até agregados, acredito. Você optou pelo silêncio, sempre uma via tão fácil, agindo nas sombras, cochichando aqui e ali. 

Eu sei como funciona. Você me traumatizou na medida certa para reproduzir seu comportamento doente em outros grupos, minar a confiança, ganhar status, poder, dinheiro. 

A vó, a vó. Todos avisaram. Sua opção foi matá-la. Está bem, há muito não estava mais uma dona E ali, apenas um fantasma. É natural que você a quisesse morta. Tem os bens também. Um milhão numa casa, né, entre quatro irmãos. Uma boa viagem à Europa, talvez duas ou três, dependendo do itinerário. 

O desfecho de uma boa vida, bem vivida, regada ao melhor tinto e muito azeite português. Pode ser um mal de família, ou um bem, esse de viajar. Todos gostamos muito.

A diferença é que uns trabalham enquanto outros gastam o trabalho dos outros. Satisfação? Não, não me deve. A vida é sua, a mãe também. Era "só" minha vó. De quem nem sei se guardo tantas lembranças boas assim. De ti sei que não.

Certas pessoas chegam na sua idade e buscam melhorar. Serem mais compreensivas, compassivas, amorosas. Não que se tenha que fazer isso. Mas é comum a crença de que a gente envelhece e se torna mais sábio. 

Você decidiu que isso não fazia sentido e decidiu virar uma filha da mãe. E tá tudo bem com sua decisão. Só queria que você soubesse que dentro da sua armadura não mora ninguém há muito tempo.