Tia F,
eu vim pensando no caminho em como te escreveria essa carta, se deveria começar com um clássico "Querida tia", mas nós dois sabemos que de querida você não tem nada (e possivelmente nunca teve).
Talvez mais do que para você, essa carta seja para toda sua família, embora você, sim, tenha assumido um protagonismo estratégico e natural. Vou logo colocar em cima da mesa o que eu sei:
Você matou sua mãe.
Vejo essas palavras tocarem sua armadura e serem repelidas quase de imediato. Quase. Você leva um tempo para absorver o que eu disse, quem sabe pensa em outro momento nisso de novo, mas logo esquece.
O que você toma, tia? São ansiolíticos? Algo para dormir à noite? Ou somente o álcool satisfaz sua pele curtida de crocodilo? Sim, tia. Pele de crocodilo e nem digo pelas rugas que você apaga em sessões caríssimas de botox, peeling e microagulhamento.
É o seu sangue-frio. Sangue de barata, diria alguém em outra parte.
Nós avisamos. Não só eu, mas primas, irmãs, primos, até agregados, acredito. Você optou pelo silêncio, sempre uma via tão fácil, agindo nas sombras, cochichando aqui e ali.
Eu sei como funciona. Você me traumatizou na medida certa para reproduzir seu comportamento doente em outros grupos, minar a confiança, ganhar status, poder, dinheiro.
A vó, a vó. Todos avisaram. Sua opção foi matá-la. Está bem, há muito não estava mais uma dona E ali, apenas um fantasma. É natural que você a quisesse morta. Tem os bens também. Um milhão numa casa, né, entre quatro irmãos. Uma boa viagem à Europa, talvez duas ou três, dependendo do itinerário.
O desfecho de uma boa vida, bem vivida, regada ao melhor tinto e muito azeite português. Pode ser um mal de família, ou um bem, esse de viajar. Todos gostamos muito.
A diferença é que uns trabalham enquanto outros gastam o trabalho dos outros. Satisfação? Não, não me deve. A vida é sua, a mãe também. Era "só" minha vó. De quem nem sei se guardo tantas lembranças boas assim. De ti sei que não.
Certas pessoas chegam na sua idade e buscam melhorar. Serem mais compreensivas, compassivas, amorosas. Não que se tenha que fazer isso. Mas é comum a crença de que a gente envelhece e se torna mais sábio.
Você decidiu que isso não fazia sentido e decidiu virar uma filha da mãe. E tá tudo bem com sua decisão. Só queria que você soubesse que dentro da sua armadura não mora ninguém há muito tempo.