O trem passou e continuei. Queria seguir ela, não, ela desceu e continuei.
Começou a chover forte. Então desci, caminhei um pouco pela estação são pedro, sentei num banco. O vento começou a me molhar, junto de um cheiro agradabilíssimo, lembrando a grama recém cortada pelo vô na praia.
O vô insistia em manter as pedras do jardim sem grama, sem limo, sem nada. Limpas num bonito xadrez verde e preto. Que nem eu, anos depois, ia limpar. Criar denovo aquela época do céu azul com grama verde, das flores plantadas no jardim dos fundos, do maracujá com gosto ruim florescendo, da bola caindo no vizinho, da família entrando na água salgada e fria. Cuidando da criança, não indo fundo, montando castelinhos de areia, correndo de um lado pra outro numa imaginação fértil de faroeste.
Quando a família se separasse, quando o pai batesse, quando a água afogasse, ia restar essa lembrança bonita e boa de algo que nunca mais existiu e que o medo ensinou a nunca mais deixar existir.
Éramos tão juntos. Sabe qual foi o peso daquele tapa?
Hoje sento num banco e fico encharcado. Tu não entende por que faço esse "tipo de coisa". Eu até hoje não entendo o peso daquele tapa, que ainda me dói. Qual é o peso?