quinta-feira, setembro 03, 2009

Crônica

Olha que bonito isso que meu pai escreveu para a escola da minha irmã pequena:

A vida desativou meu tempo


As ruas eram nossas linhas telefônicas. Tudo era mais pessoal e direto no meu tempo. A gente ia a pé pra escola, voltava, almoçava, fazia os temas e ia pra rua. Nossa zona era muito legal. O que chamo zona era o triângulo formado pelas ruas Benjamin Constant, 16 de julho e Zamenhoff. No corner superior ficava a nossa pracinha. Não tinha nada lá, nem bancos, nem balanços, nem goleiras. Só um pouco de capim nos cantos. Era ótimo, porque não era nada e podia ser tudo. Um dia virava um lugar para jogar taco, outro dia, bolinha de gude, ou futebol. Era também lugar pra festas. No dia de São João, tinha fogueira que nós mesmos montávamos, tinha pinhão, pipoca e quentão. Tudo grátis, porque como não tínhamos telefone, passávamos de casa em casa pedindo contribuição pra festa, que podia ser em dinheiro ou em milho, pinhão, etc. Ninguém tinha cara de dizer que não. Sincronizávamos as informações diariamente, na hora da pracinha, depois dos temas, ou seja, das 15h30 até as 18h30. É isso mesmo, tínhamos no mínimo 3 horas de brinquedo por dia!. Dá pra acreditar? E não tinha nada disso de recreacionista. Nos aniversários, nós mesmos decidíamos do que brincar.

E não dava briga? De vez em quando dava, mas nós mesmos é que tínhamos de segurar a barra. Ninguém tinha coragem de chamar a mãe e ser chamado de manteiga derretida. Uma vez meu irmão brigou com o Paulo por causa de uma falta no jogo de futebol. Ele levou um soco que doeu em mim. Mas a regra era não se meter, respeitar a briga. A não ser, claro, quando alguém ficava maluco, como aconteceu com o irmão do Bichoclau (apelido do Cláudio). Ele apanhou numa briga e ficou tão furioso que voltou em casa pra pegar um facão. Bom, aí foi preciso uma ação coletiva pra tirar aquilo dele e levá-lo pra se acalmar em casa. Era assim a zona. Também ninguém se metia nas nossas ruas. Aqueles tempos eram muito tranqüilos, dava pra caminhar na Dom Pedro II de madrugada. Eu fazia isso com 14 anos. Hoje, nem pensar.

Dinheiro só virou uma coisa importante pra mim depois dos 12 anos, quando comprei minha primeira calça Lee. A gente quase não precisava de dinheiro pra brincar. Brinquedos comprados nós só ganhávamos no natal e no aniversário. O legar era fazermos os próprios brinquedos: pandorga, carrinho de lomba, forte apache, funda, taco, mesa de botão, espada, casa na árvore, coleção de tampinha, etc. Lembro que teve um ano em que todos pediram autorama de natal. Depois juntamos todos os autoramas numa só pista, na casa do Xande, aquele cara que agora toca num bar chamado Sergeant Pepper’s. Até cinema a gente tinha de graça. O padre da Igreja Sagrado Coração de Jesus passava filmes na Rua do Beco (Travessa Engenheiro Alfredo Mayer Waldeck), que ficava a duas quadras da nossa zona. A projeção era na rua e os filmes tinham sempre motivos religiosos, como Marisol, Marcelino Pão e Vinho e outros que não lembro. Da Igreja só lembro que fui reprovado no teste para o coral e que no dia da primeira comunhão a óstia grudou no céu da minha boca. Ah, lembro também das confissões, quando era pecado ter maus pensamentos.

É, naquele tempo, acho que grana só se tornou uma coisa importante quando comecei a ocupar cada vez mais meus pensamentos com garotas. Aí era importante usar coisas da moda, como calça Lee, que eram importadas e comprávamos de contrabando nos fundos de uma casa na Rua América, perto do Hospital Militar. Antes disso, uma parte das minhas roupas era feita pela minha mãe. Meu avô era alfaiate. Aprendeu o ofício em Aveiro, Portugal, de onde veio antes da Segunda Guerra Mundial. Trabalhou muitos anos nas Lojas Guaspari. Andava sempre elegante, de terno e gravata. Minha mãe aprendeu com ele a fazer camisas e calças. Meu pai era muito conservador naquele tempo, nos obrigava a cortar o cabelo estilo militar, o que complicava muito a aparência junto às garotas. Assim que esse poder afrouxou, lá pelos meus 13 ou 14 anos, eu e meu irmão viramos cabeludos, o que durou muitos anos.

Bom, eu tinha também uma madrinha naquele meu tempo, que de vez em quando me dava brinquedos caros, como a bicicleta em formato de moto, que meu primo Aguinaldo destruiu no próprio dia do aniversário. De vez em quando ela me dava dinheiro, minha avó também. Em geral eu usava pra comprar gibi. Mas uma vez eu percebi que tinha já um bom dinheirinho acumulado. Acho que era lá pelos meus 8 ou 9 anos. Tinha uma livraria na Benjamin Constant onde meus pais compravam material escolar. Eu tinha visto ali uma miniatura de DKV Vemag e passava dias pensando como seria bom brincar com aquele autinho. Até que tomei a decisão de comprar. Foi minha primeira grande compra. Mas o brinquedo durou apenas uns dois dias, logo quebrou uma das rodinhas. Quando meu pai viu que eu tinha usado meu próprio dinheiro sem pedir licença, ficou furioso. Me obrigou a ir na loja devolver o brinquedo e pedir o dinheiro de volta. A dona da loja se recusou a devolver, porque o carrinho estava estragado. Me custaria uma vida entender o efeito do dinheiro sobre o desejo.