quinta-feira, abril 23, 2009

Ela

Perdeu o encanto e a doçura, deixando assim pelo caminho. Dizia que não podia mais se afogar em sentimentos, que não existia mais entrega, que não conseguia ser criança denovo. Deixou de ser inocente e se tornou adulta, fria, preconceituosa, um demônio que dificilmente alguém gostaria de ter ao lado como esposa e, muito menos, como mãe.

No entanto, era o que mais desejava, ser mãe, gerar algo no próprio ventre que não fosse trai-la duas semanas depois, que não deixasse a paixão morrer depois de três meses. Uma pessoa para ser amada e amar como nunca teve.

Freqüentava as mesmas festas que as amigas, gostava do carnaval, sabia até sambar um pouco. Fez isso aos 20. Aos 30. E agora, chegando aos 40, estava um pouco desesperada. As amigas não entendiam direito o que se passava, sempre de mau humor, e no trabalho dava medo aos colegas, certa vez pegou a gravata de um e enfiou pelo triturador de papel. Quando foi chamada à direção da companhia, explicou que o homem teria lhe chamado por algum nome, que nunca ninguém ficou sabendo (nem mesmo o homem).

No auge do desespero foi até uma clínica de inseminação. Mas não se tratava de qualquer clínica, dessas que o médico chefe é o doador de todos os espermatozóides, era uma respeitável. Tinham uma equipe de advogados, psicólogos e ginecologistas prontos para avaliar a situação de cada mulher que passasse por lá, se teria condições de formar uma criança de forma plena. O que obviamente não era o caso dela, solteira, trabalhando como telefonista 10 horas por dia numa empresa meia-boca, com problemas para se relacionar com o mundo (aqui também quis enfiar uma gravata pelo triturador, mas foi detida antes). Mas o pior veio do ginecologista.

Ficou se perguntando por que tomou todos aqueles remédios com 18 anos, se não poderia ter usado camisinha no lugar, e aquela vez que tomou três pílulas do dia seguinte para ter certeza (algo que o ginecologista desaprovou com tanta gravidade que os seguranças arrombaram a porta para ter certeza que a gravata não estava no triturador), enfim, chorou.

Pegou suas coisas e foi para casa. Já naquele dia não ia trabalhar pela primeira vez. Chegando em casa se desfez de uma série de coisas. Do telefone, do computador, da caixa postal. O interfone, como não saia da parede, teve que quebrar. Uma pena, por que não gostava de deixar itens estragados pela casa.

As amigas não conseguiam mais entrar em contato, e, em verdade, não queriam muito. Tentaram algumas vezes pelo telefone, depois e-mails e orkut, mas ela nunca respondeu. Acabaram desistindo, pensando que entraria em contato quando acabasse o mau-humor. Os colegas de trabalho eram os únicos que ainda encontrava. A cada dia ela parecia diminuir um pouco, as maçãs do rosto ficavam mais salientes, os ossos dos braços saltavam mais e mais. Às vezes não ia trabalhar. Ninguém reparava. A mesa dela parecia estar diminuído de tamanho junto, como se sumindo aos poucos. Em dois meses não tinha mais mesa, nem ela, nem lembrança dela.

Ficou quieta dentro de casa, sentada no único móvel que sobrou (doou todos ao mensageiros da caridade), uma cadeira de balanço da sua vó. Depois que não tinha mais forças para se levantar e ir ao trabalho, ficou só lá sentada, se balançando. Olhando para o vazio da sala. No começo ainda pensava alguma coisa, mas incoerente demais para ser colocado em palavras. Depois já não pensava, só se balançava. Se envolvendo pelo nhec-nhec da cadeira.