quinta-feira, janeiro 04, 2024

Feliz ano novo

Oi!

Esse texto é para você.


Não sei se tu ainda lembra da sua foto mais antiga? Eu estou aqui na casa da minha mãe e entre tantas memórias, tem esse porta-retrato terrível de acrílico com 3 fotos muito interessantes.

Outro dia eu estava pensando sobre isso das imagens, como a gente passou de algo que guardamos por gerações até para o insta-ntâneo. Dá uma filosofia de bar bonita isso e sei que me motivou a comprar uma câmera analógica. Uma específica, Yashica FX2. Não achei nenhuma em bom estado, resolvi arriscar numa FX-3 Super 2000. Foi. Péssima.

Mas resolvi que vou arrumar. Tem um cara lá em Fortaleza chamado Lula, sim, que conserta câmeras assim, já trocamos mensagem e sexta-feira vou colocar no correio, seja o que Deus quiser.

A ideia futuramente é fazer mais partes do processo, como revelar o filme. Vou começar revelando o negativo, que é barbada né, só ter aquele negócio redondo e preto que coloca o filme abertinho no escuro dentro do carretel e joga o químico. Teu pai tinha um, até nos deu uma época que pirei nessa ideia aí. Ficou pra você. Talvez ele tenha dado pra ti, no fim das contas. Também, tanto faz.

Teu pai. Lembra (desculpa?) da vez que ele teve um trócio, eu tava lá no Sol da Manhã. Não sei se alguma vez te contei, mas quase bati o carro depois que você me contou. Fui cruzar uma rodovia e simplesmente atravessei, foda-se. É.

Sei que chegando lá no sítio, peguei o cachimbo e comecei a rezar pelo teu pai. Rezei de verdade. E tu lembra daquele tabaco, era forte aquilo, dava um barato. Em algum momento, era como se eu estivesse falando com o teu pai. Ele falava umas coisas tipo de ter feito a parte dele, que tava cansado, que ia embora. O rezo todo desse tabaco fui eu conversando e explicando como a filha dele ainda precisava dele para outras coisas, que ainda havia muito da vida a ser vivida, e como você valorizava a companhia dele.

Eu chorava e ele chorava também e sei que em algum momento teu pai ficou.

Não sei se alguma vez te contei assim, mas foi assim, e agora tá aí escrito pra você ler quantas vezes quiser ou nenhuma.

 

Mas a história não é sobre o teu pai. 


A gente tava falando das fotos, sim. Tem essa foto, que inclusive deve ter sido tirada pelo próprio, sua bem pitototinha coisa mais linda e fofa. Do seu lado tá minha irmã numa foto criança feliz também e atrás tem minha versão mini banguelinha.

Você tem pensado em filhos?

Eu passei perto recentemente. Estou passando, sei lá. Conheci essa moça nordestina, quer muito. Morar no nordeste? Não sei. Tua mãe é que sabe! Seja como for, já escrevi no passado porque abril estou de volta, oficialmente, com duração até novembro pelo menos. 

Nós não conseguimos manter uma amizade, isso me entristece muito. Digo, somos amigos, né? Só não nos falamos. Tipo, uma vez por ano. E tá tudo bem, não é nem ruim, nem bom. É só o que é. 

Queria que você tivesse viajado mais. Isso tem acontecido? Lembro de ter uma conversa sobre o Tigran, te perguntei de onde o cara era, acho que você comentou algo sobre ele estar na Itália? Depois o editor vai fazer um fact-check aqui quando forem publicar. Eu é que não, já viu como é o negócio aqui né, o que é publicado aqui fica aqui, é o que é. Que nem uma foto analógica. A gente pode ensaiar, medir o fotômetro, se vestir direitinho... na hora tudo pode acontecer e a magia é que só vamos saber depois, bem depois para os parâmetros atuais; e aquela piscada de olho, o chifrinho no colega, a coçadinha no forévis, tudo fica registrado.

Falando em chifrinho. Que situação hein. Quantas crianças não foram marcadas por esse momento para no futuro se tornarem cornas? Ninguém falava disso na época e não vejo tampouco hoje em dia alguma sociedade de acolhimento corno. E todo mundo sabe que a maior parte dos crimes passionais são cometidos por cornos. Diria até que é questão de segurança pública!

Ok, parei.

E a Turca? Meu gato se chama KGB. Isso faz essa vizinhança ser o quê? Diversa né. Eu gosto da tua cachorra. Prometi que se um dia tivesse um sítio, levaria ela pra viver lá, desculpa. O bom pra ti é que tô cada vez mais longe dessa ideia de ter um sítio. Assim, não que eu não fosse querer. 

Seria ótimo. Ter uma base, um local pra chamar de casa, onde ficam minhas coisas e sei que posso sempre voltar. Uma vez achei que a tua casa poderia ser esse lugar. O erro foi podar aquela árvore dos fundos. Lembra quando a gente lavou o veneno dela juntos e deixamos a árvore viva pro terror do telhado? Acho que aquela árvore significava mais do que isso.

Quebrei o telhado da tua vizinha, carreguei uma telha de brasilit sozinho do Nunes até a frente da casa dela. Daí chamei um amigo pra me ajudar a colocar a telha no lugar e arrumar tudo. Ficou top. Ou não?

Top, você vai dizer, seria não ter derrubado um galho na telha daquela vaca. Agora lembrando dos vizinhos, e o americano hein? Vocação pra vizinho mala ou casa na cidade errada?

Com o tempo tendi pra segunda opção. A galera aqui é muito mala, puta que o pariu. Claro, você pode fazer coisas legais, óbvio que pode ter bons amigos, desfrutar da rica cena gastrocultural e voltar pra casa antes da meia-noite, mas, no geral, o porto-alegrense é mala.

É o que é.

Tô pensando em ir pra Argentina, morar lá perto de Córdoba por um ano. Tem vários lugarzinhos massa pra visitar ali ao redor. Tu pode ir, tá convidada. Não vou dizer pra levar o namorado porque sei que tu não vai, quanto mais o cara que nem nunca conheci, então. Mas se aparecer e bater na minha porta vou te receber e oferecer lugar (manda um e-mail antes, se possível).

Vou encerrar por aqui. Bom falar contigo. Gosto muito dos nossos monólogos. Sabe que tem um lugar que sempre vou quando quero estar em paz? É o banheiro da tua casa numa noite em que fizemos um lombinho no forno com suco de laranja e curry. Ok, não é só nessa noite, foram várias, eu fiz isso várias vezes, é assim.

Sentei na privada, cuidando para não deixar meus pés tocarem em mais nada além do tapetinho (nada de frio do piso), os joelhos também não podiam encostar em nada, enfim, tinha que tentar evitar ao máximo qualquer contato do corpo com algo que não fosse o assento da privada e o chão. Isso é para reproduzir essa cena em qualquer banheiro. 

O que eu faço quando quero voltar a esse momento que foi tão bom e me senti tão feliz do teu lado ou que por vezes não foi bom e quis sumir simplesmente, mas seja como for, é um momento no passado para o qual posso voltar, então, o que eu faço para voltar, é entrar num banheiro de uma casa qualquer, me sentar como te descrevi, colocar os dedos nos ouvidos de maneira a evitar qualquer ruído externo e fechar bem os olhos.

Foi isso que fiz aí.

E tem esses momentos que só quero voltar praquele dia e começar tudo de novo. Ir na academia, fazer outro curso, ou cursar jornalismo que nem eu queria lá no começo, viajar, viajar, viajar. Te beijar de novo, puta beijo gostoso.

Então, no banheiro de qualquer outra casa, faço isso aí que descrevi, me concentro, tem que concentrar, e por um momento estou no banheiro da tua casa, nesse dia, vários anos atrás, décadas já. É rápido. Abro os olhos e volto para o banheiro de qualquer outra casa, ainda não desenvolvi o método plenamente. 

É como uma pilulazinha de paz e tranquilidade no meio de um dia atribulado e sou muito grato a tua casa, o teu carinho e o teu amor por me proporcionarem isso até hoje.

Eu te desejo um 2024 extraordinário. Que esse ano seja revolucionário e você exale pelos poros alegria e desejo de viver. Te desejo o friozinho na barriga daquele dia que você lembra qual é e não precisa ser o mesmo que eu lembro. Você é linda, incrível, talentosíssima, brilha. Desfruta!

terça-feira, novembro 14, 2023

Sobre pássaros

A gaiola é uma jaula de concreto com janelas teladas no 3.º ou 4.º andar de um prédio que lembra um banheiro pelos azulejos, algo que foi moda em algum momento e, graças ao bom gosto brasileiro, se abandonou como os tamancos (e quem sabe em algum lugar ainda usam, exatamente como os tamancos).

Os pássaros mantidos em cativeiro vivem mais, pois são bem cuidados. Banho, tosa, vacinas e vermífugos em dia, exercícios e até classes de canto. A perfeição consiste em administrar o tempo, comprar uma casa, ter investimentos.

Administrar o tempo. Não é que o pássaro não saia da gaiola. Ele saí, saí sim, muitas vezes vai mais longe do que se fosse um simples pássaro andarilho. Com datas de chegada e de partida. Airbnb ou booking. Um jantar fora, outro sanduíche no almoço.

Comprar casa e ter investimentos são parecidos. Significa que o pássaro canta bem, tão bem que sobra. Sobra para pensar em sonhos como a casa própria ou em viver de investimentos. 

Ilusões de liberdade que, na verdade, são grilhões. Não há nada de mal nisso. Pássaros em cativeiro vivem mais. É natural que se busque o cativeiro, a referência de conforto e normal.

Talvez não. Só conforme o pássaro envelhece, o talvez vai ficando cada vez mais pianinho e a certeza de uma vida cômoda e prática se torna uma prior[idade]. E a vida não é feita de se, mas de certeza. Por isso é bom ter os dois pés no chão ou duas asas no céu.

segunda-feira, outubro 02, 2023

Minha tia F

Tia F,


eu vim pensando no caminho em como te escreveria essa carta, se deveria começar com um clássico "Querida tia", mas nós dois sabemos que de querida você não tem nada (e possivelmente nunca teve). 

Talvez mais do que para você, essa carta seja para toda sua família, embora você, sim, tenha assumido um protagonismo estratégico e natural. Vou logo colocar em cima da mesa o que eu sei:

Você matou sua mãe.

Vejo essas palavras tocarem sua armadura e serem repelidas quase de imediato. Quase. Você leva um tempo para absorver o que eu disse, quem sabe pensa em outro momento nisso de novo, mas logo esquece. 

O que você toma, tia? São ansiolíticos? Algo para dormir à noite? Ou somente o álcool satisfaz sua pele curtida de crocodilo? Sim, tia. Pele de crocodilo e nem digo pelas rugas que você apaga em sessões caríssimas de botox, peeling e microagulhamento. 

É o seu sangue-frio. Sangue de barata, diria alguém em outra parte.

Nós avisamos. Não só eu, mas primas, irmãs, primos, até agregados, acredito. Você optou pelo silêncio, sempre uma via tão fácil, agindo nas sombras, cochichando aqui e ali. 

Eu sei como funciona. Você me traumatizou na medida certa para reproduzir seu comportamento doente em outros grupos, minar a confiança, ganhar status, poder, dinheiro. 

A vó, a vó. Todos avisaram. Sua opção foi matá-la. Está bem, há muito não estava mais uma dona E ali, apenas um fantasma. É natural que você a quisesse morta. Tem os bens também. Um milhão numa casa, né, entre quatro irmãos. Uma boa viagem à Europa, talvez duas ou três, dependendo do itinerário. 

O desfecho de uma boa vida, bem vivida, regada ao melhor tinto e muito azeite português. Pode ser um mal de família, ou um bem, esse de viajar. Todos gostamos muito.

A diferença é que uns trabalham enquanto outros gastam o trabalho dos outros. Satisfação? Não, não me deve. A vida é sua, a mãe também. Era "só" minha vó. De quem nem sei se guardo tantas lembranças boas assim. De ti sei que não.

Certas pessoas chegam na sua idade e buscam melhorar. Serem mais compreensivas, compassivas, amorosas. Não que se tenha que fazer isso. Mas é comum a crença de que a gente envelhece e se torna mais sábio. 

Você decidiu que isso não fazia sentido e decidiu virar uma filha da mãe. E tá tudo bem com sua decisão. Só queria que você soubesse que dentro da sua armadura não mora ninguém há muito tempo.

quinta-feira, junho 01, 2023

Poema para dizer adeus

Em um dos nossos últimos dias

te olhei e vi intimidade.

Com certeza

a vida foi mais alegre do teu lado

e dizer adeus não foi,

nem é,

fácil.

 

Poderia fazer uma lista

das coisas bonitas

que tu carrega aí dentro.

 

(você diria pára, tímida)

 

Obrigado por tudo.

Que a vida te acaricie sempre

com gentileza e calma.

 



quarta-feira, maio 31, 2023

Chilena

Quando a encontrou a primeira vez o coração disparou.

Aquela sensação de amor adolescente, avassalador. Mas o coração catimbado já não se deixa levar com tanta facilidade.

É necessário esforço. Talvez até demais. Medidas protetivas contra a própria maneira de ser.


No entanto, ali estava como haviam combinado no sonho. Quando foi? 2016?

Nota mental para perguntar sobre a data.


Era no sul da Bolívia. Algo com lhamas, lã e comunidades tradicionais. Talvez não tivessa nada a ver. Mas era ela. Só podia ser. A paisagem.



quinta-feira, janeiro 19, 2023

Diários de uma dona de casa - parte 1

 Limpeza é um trabalho ingrato.


O que as pessoas veem é a sujeira. Ninguém vê limpeza. Você pode sentir limpeza, mas ver, VER mesmo, não. E não venha com exemplo de piso encerado em shopping.

Na casa da mãe existe um negócio mágico que acontece com algumas crianças mimadas chamado "Louça sempre limpa". A magia consiste em depositar qualquer coisa, seja uma xícara suja de nescau ou uma panela queimada de pipoca caramelizada, e, pouco depois, vê-la limpa e pronta para uso dentro da segurança do armário.

Geralmente a criança nesse ambiente leva anos, senão uma vida inteira, para desfazer essa história da sua cabeça. É, sem sombra de dúvida, muito pior do que o Papai Noel ou o Coelhinho da Páscoa. É pior porque exige esforço. O Papai Noel deixa de existir, mas a gente continua ganhando presente. Nem sei se tem alguém que acredita no Papai Noel. Mas na "Louça sempre limpa" tem vários.

E às vezes a pessoa vai se dando conta aos poucos. É um processo de aprendizado lento, doloroso e exige muita paciência da professora (aqui vai no feminino porque infelizmente é a mulher quem normalmente recebe esse papel, mas claro que existem professores de outros gêneros também). 

Existem alguns degraus, como as séries no ensino fundamental, que compõem esse aprendizado.

 

1. Quando ninguém lava a louça e a pessoa tem o primeiro choque de realidade

É um evento traumático na vida de qualquer pessoa. É o fim de toda uma fantasia criada desde pequeno e o começo de uma realidade penosa e de muito esforço irreconhecido.

2. Quando o aluno lava a louça, mas ninguém seca e se acumula no secador / o mistério da pia

Deparado com a dura realidade de precisar lavar os pratos, o vivente até se dispõe a realizar essa árdua tarefa, mas logo percebe que a louça volta a se acumular em outro ponto: o secador de pratos. Geralmente é nesse ponto também que outro mistério surge, o da pia. O que fazer com os restos de comida que ficam acumulados no ralo? Ou com o sabão em cima da bancada?

3. Quando o aluno lava, não seca, mas guarda a louça

Muitas pessoas chegam até este ponto ou param no anterior. Consiste em deixar os pratos secando de um dia para o outro no escorredor para guardá-los depois. Há pessoas que argumentam contra a necessidade de lavar pratos de uso diário, outras que digam passar baratas por cima das coisas durante a noite, entre outras opiniões. É fato comprovado por pesquisas que quem guarda a louça também limpa o ralo da pia.

4.Lava, seca, guarda e limpa a pia até com rodinho

Considerada a graduação do homem hetero adulto, consiste em realizar todas as etapas mencionadas acima com a adição de um instrumento chamado rodinho. O aluno realmente aplicado, que abandonar toda ilusão de ego na tarefa da louça, sentirá uma verdadeira onda de compreensão ao usar o rodinho para remover a água acumulada em cima da pia e desaparecer com todo o sabão e impurezas remanescentes da sua mente/bancada.

5. As especializações

Como todo curso que se preze, há níveis avançados para quem deseja se dedicar à arte da limpeza de pias. Vou citar apenas os dois mais conhecidos.

5.1 O professor

Atingido o grau de maestria ao passar anos lavando louça, muitas vezes o aluno se sente tocado a passar adiante o conhecimento e toda a iluminação advinda dele. A transmissão do conhecimento pode se dar de muitas formas, variando conforme o aluno e o grau de relação estabelecido. Há também professores involuntários, muitas vezes chamados de pais, embora nem sempre tenham parentesco com seus filhos ou nem mesmo idade para serem seus pais. É o caso, por exemplo, de amigos que moram juntos.

5.2 O fã de tecnologia, a.k.a. o preguiçoso

Certas pessoas, mesmo com a esponja e o detergente na mão, optam por ir contra os princípios passados pelos mestres mais antigos e se dedicarem a um novo hábito que consiste no lava-louças. Esse instrumento do sedentarismo permite que o vivente apenas jogue sua louça lá dentro e acione alguns botões para mais tarde reutilizar seus pratos (há quem ainda guarde os pratos depois de secos lá dentro). Existe uma discussão em andamento sobre o grau de degradação que esses aparelhos proporcionam. Embora evidências apontem que a borda dourada de certos pratos não seja esfoliada por jatos quentes e sob pressão, há uma demanda por mais pesquisas por parte da comunidade loucística.




domingo, dezembro 11, 2022

Dias de uma puta - parte 2

 A primeira vez que Samsa a agarrou foi no corredor de um hotel.


Mas vou do começo. Minha mãe.

Mulher alegre com uma dor dentro dela. Era costume seu dizer que a gravidade sempre empurrava para baixo e que a beleza para brotar na vida da gente exigia esforço. Me esforço todos os dias que nem você ensinou, mãe.

Sinto saudades suas.

Tenho essa lembrança, bem pequena, balançar no pneu do parque enquanto você empurrava. Quando a gente fala de ti, dá vontade de chorar. As muriçocas andam com tudo esses dias, mãe, tem que fechar a porta cedo senão elas passam a noite no quarto.