quarta-feira, agosto 01, 2012

Maneira Simples


Nada é mais real
Que aprender maneira simples de viver
Tudo é tão normal
Se a gente não se cansa nunca de aprender
Sempre olhar como se fosse a primeira vez
Se espantar como criança a perguntar por quês?
Vamos flutuar em um balão
Que sobrevoa o amanhecer
Vamos navegar
Entre os navios no horizonte a se perder
Nos lembrar
Que tudo tem sua razão de ser
E afinal eu quero apenas estar com você
Sombras no céu já vem
O anoitecer também com seus milhões de estrelas
Que iluminarão mais uma vez
Com a palidez da sua luz
A imensidão que a gente vê

Almir Sater

Delícia

Quanto tempo faz que não me delicio em escrever essas linhas internáuticas? Delícia sabor chocolate gosto de sorriso. Aprendi a me deliciar pintando. A me deliciar dançando. Me deliciar musicando.

Me deliciar. Simples. Sem preocupação da merda que cai na vertical, o horizonte continua lá brilhando no sol. Não minto quando digo que fui sozinho. E de como senti saudade.

Fui na miração da Ayahuasca até onde consegui na fundeza de mim e sigo sedento. Paro pra respirar. Delícia do ser.

domingo, abril 29, 2012

O Evangelho

Oi mãe,

o lugar aqui é muito interessante. As pessoas se renderam para Deus, largaram tudo que faziam das suas vidas pra formar o Reino Dele. E é uma entrega completa, não existe meia verdade, não é um centro ecumênico misturando todas as religiões, é algo profundo vivendo o dia a dia dessas pessoas. É muito legal, as pessoas são muito amorosas, atenciosas, respeitosas e é verdadeiro, é um lugar onde se pode confiar, porque todos estão buscando o mesmo ideal e estão em torno da mesma idéia, existe uma unidade. Ninguém está se aproveitando de ninguém, não existe pretensão de enriquecer, lucrar em cima dos outros, explorar, ou praticar quaisquer atos egoístas. Claro que ninguém é perfeito aqui, mas todos estão buscando a mesma trilha, bebem da mesma fonte e dessa forma se ajudam mutuamente.

Foi a experiência em comunidade mais transcendental que já tive, aqui realmente existe uma comunidade.. não é cada um buscando seu benefício próprio, mas cada um buscando se entregar uns para os outros através de Deus. A comunidade é mais um resultado da busca deles, dessa vontade de servir ao propósito Divino do que cada um ter a sua família, suas coisas, seu lotezinho de terra, seu dinheiro, seu carro, suas verdades, sua vontade de fazer isso e não aquilo, sua preguiça, sua ira, sua alegria, sua inveja, seu rancor, seus pensamentos, suas emoções, ...

É preciso olhar sem preconceitos. É preciso ouvir de verdade. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, o exercício de ouvir, realmente ouvir, é fundamental, é exigência básica. Se você fica pensando que a bíblia está errada, que não foi Deus quem criou o homem, que o homem é resultado da evolução darwiniana, que não existe UMA SÓ VERDADE, que Deus isso e aquilo, que não existe inferno nem céu, que não há vida eterna, que é fantasia pensar no apocalipse, que ...

então isso significa que você não está ouvindo de verdade. Pra ouvir, ouvir mesmo, é preciso prestar muita atenção. Toda a atenção do mundo. Sem preconceito. Sem idéias. Sem pensamento. Somente ouvir.

Ah, daí você pode dizer que é impossível ficar sem pensamentos, sem julgamentos, que o ser humano é feito disso e daquilo.. bom.. então isso significa que você não está ouvindo de verdade o que acabei de escrever. Porque é tão difícil a gente se entregar e ouvir, OUVIR, o que o outro tem pra dizer? Porque a gente se protege tanto e se agarra com tanta força no que pensamos que é certo?

Existe alguma forma da gente ouvir de verdade sem se entregar completamente?

Eles escutam a mensagem da bíblia, do evangelho e se entregam completamente. Não existe ouvir meia parte. Ah, isso aqui vou interpretar segundo a geografia moderna, isso aqui é um princípio budista, isso aqui tem no xintoísmo.. pronto, já não está ouvindo. Como que você pode escutar alguém enquanto seus ouvidos estão ocupados com seus próprios pensamentos?



Miguel

segunda-feira, março 26, 2012

Segurança

Foi foda e está sendo foda abrir mão da segurança mesmo.. tem vezes que bate uma saudade que quase largo tudo e me mando de volta pra porto alegre, pra ela, pra arca e pro conforto que eu tava. Isso talvez seja o mais forte de se largar: o conforto. Conforto de saber o que vai ser do amanhã, do hoje e do ontem.

Aqui em Floripa tá muito legal, tô cercado de gente boa. Mas, ao mesmo tempo, agora que já tô faz 18 dias, o conforto começa a pesar no cotidiano.

Começo a me chatear com a gente, com o trabalho, com as pedrinhas do caminho. E daí tudo começa a parecer um grande peso.

E eu sei que não tem nada de errado com o mundo! O problema é esse meu jeito que não se ajeita!

Aí é que tá a verdadeira caminhada.

sábado, março 24, 2012

terça-feira, julho 05, 2011

A mesa vazia, as xícaras se acumulando na pia, a geladeira com o iogurte do mês passado, o gato sem comida no pote, as plantas com sede. O quarto empilhado em madeira e roupas sujas. Os sofás cheios de livros.

sábado, junho 25, 2011

Googleplex

Existe um cômodo antigo de madeira. Três gavetas, fotos, anotações, cadernos.
Uma tentativa de saber quem sou eu.

Foram várias. Primeiro o colégio. Os colegas. A namorada, o sexo, dormir de conchinha, o ciúme, a dor. (denovo e denovo).
Escrevi muito aqui. Numa espécie de diário.

Fui zenbudista. Luterano. Ateu. Panteísta. Meio-termo religioso. Historiador, fotógrafo, empresário, jornalista, saxofonista, sexofonista, vagabundo, mesquinho, hippie.

Tentei ser gay e não deu certo. Tento ser hetero, mas não sei direito o que isso significa. às vezes não faz sentido nenhum definir o sexo.

Sexo nunca foi importante. Dinheiro também não. Nem status. Nem tristeza ou alegria.

Fui vegetariano. Hoje sou carnívoro.

Já viajei mais dentro de um apartamento do que a minha vida toda. Esse foi o LSD.

E pensei: meu deus, nunca mais vou tomar isso na vida. Até que tomei Daime.

Durante vários meses o Daime conduziu minha percepção do mundo.


Os homens ficavam de um lado e as mulheres do outro. Cada um ia tomar o Daime quando quisesse. E quanto quisesse. A cor é laranja escura e tem o pior gosto. Vomitei em seguida. Pensei, nossa, isso tem um gosto tão ruim e nem faz efeito.

Sentei na cadeira. O mundo começou a tremer, mas não como num terremoto, mais como se o mundo inteiro estivesse tremendo, o chão, as pessoas, o ar, as velas, Paris, Porto Alegre. A única coisa estática era meu corpo. Pensei que pelo menos ainda tinha meu corpo. Mais tarde ele sumiu e só fiquei com o pensamento.

Não havia outras pessoas - às vezes sim, mas não estavam na mesma época que nós - nem limites materiais. A sala virou uma floresta. Os sons dos pássaros voaram. O chão ficou molhado de terra. E quando tudo ficava escuro eu só pensava "se continuar pensando, continua existindo". Que a existência era só o meu pensamento que mantinha.

Aquele dia tinha pedido ao Daime: quero saber o que é o aqui e agora.


Só que a minha jornada sempre tem sido "quem sou eu?". Essa é a pergunta que gostaria de fazer.

Porque não tenho a menor idéia do que essa pessoa que já foi tantas.

Essa busca me devasta. Vivo num processo de colocar tudo abaixo pra erguer denovo. Erguer sobre os princípios certos. Derrubar sobre os novos princípios certos. Já ouvi chamarem isso de aprendizado. Não é.

Não se trata de corrigir minhas idéias por outras melhores e depois outras e depois denovo...

Não existe nenhuma idéia certa. Não existe ponto algum em ficar corrigindo uma atrás da outra. É como um ratinho correndo na rodinha. Não vai chegar a lugar algum!

E daí o que me vem logo em seguida é essa outra idéia de que... isso também é uma idéia e também vai ser corrigido por outra que pareça melhor. E que não existe ponto em querer que exista um ponto.

Finalmente: não existe verdade absoluta. Essa mesma idéia que me joga denovo na depressão de não realizar nada por não existir verdade absoluta em nada do que faço. E lá vai denovo o ratinho correndo da depressão de "oh meu deus, não existe nada nesse mundo que seja verdadeiro, que devo reverenciar, admirar, me dedicar" pra euforia do "ahh não, existe sim, a explicação X é o caminho!".