quinta-feira, maio 19, 2011

Fábrica Psicopática

A maior parte do tempo preciso vestir um personagem que anda, fala, respira idêntico ao original, mas não pensa igual ao original. Enquanto sou todo sorriso e o mais amável possível com o resto da humanidade, por dentro me corrói um sentimento de ódio e mágoa que cria um fogo intenso dentro da minha cabeça expelindo imagens de bombas, gás lacrimogênio, tacos de beisebol e espadas samurai.

Meu casaco, minha camiseta, minha cueca, minha calça, a cadeira, o computador, a cuia, o livro, o desodorante, a água, a comida, o prédio, a rua, a luz, o semáforo, o parque, meus pais, meus avós, minha namorada, meus amigos, caminhar, ouvir música, tocar um instrumento, saúde, drogas, álcool e tudo mais que englobe o mundo foi, está e vai ser explorado.

Toda a vida é explorada para satisfazer algo que não está e nunca estará ali. Toda vida trabalha com sua riqueza, sua imensidão, sua originalidade e é expropriada pela exploração. Não se pode dizer: meu trabalho vale tanto. Trabalho não é mensurável monetariamente, quando se diz que o trabalho vale ALGO que não é trabalho, está acontecendo um roubo.

Só resta perguntar pra onde se caminha quando o caminho não é de graça?

terça-feira, maio 17, 2011

denovo a mesma coisa

Hoje tampei meus ouvidos com as mãos, fechei os olhos, tirei os pés do chão, calei a boca e tranquei a respiração. TUDO pra me sentir fora desse mundo.

Queria ser tipo o RAIDEN do Mortal Kombat. Eletrocutar TODO MUNDO. Virar relâmpago e sumir da porra do banheiro onde me tranco pra pensar que quando abrir a porta, vou estar em outro lugar, OUTRO PAÍS QUE SEJA, ONDE NÃO TENHA EMPRESAS, ONDE NÃO TENHA EXPLORAÇÃO, ONDE AS PESSOAS SE IMPORTEM E SE RESPEITEM.

Mas aí abro a porta depois de toda essa divagação e tenho.. essa porra me esperando.

"vamos combinar um valor justo, não vamos te pagar pouco".
"o lucro é quase nulo, pois temos os custos de alimentação, transporte, hospedagem, putaria e cerveja"
"a empresa está no começo, então temos que arcar com certos custos. TUDO BEM SE O CLIENTE DEMORAR DOIS MESES PRA PAGAR E ATRASAR O ALUGUEL DA CASA"

é sempre a mesma coisa.

Ah, tu trabalha com algo muito subjetivo, não tem como quantificar esse tipo de trabalho. Ok. FAÇO PNEUS, QUANTIFICA PRA MIM. Ah sim, o chefe ganha 3 milhões pra SENTAR A BUNDA NO CAFOFO.

E é justo.

quinta-feira, maio 12, 2011

Cretinagem

O mundo anda tão cretino. Não dá pra confiar em ninguém.

Antigamente não dava também. Mas pelo menos a gente era criança e acreditava em todo mundo.

segunda-feira, maio 09, 2011

Capitalismo Selvagem

Hoje derramei lágrimas nem sei bem porquê. Vivo de forma bem confortável, apê próprio, dividido entre três, internet, água, luz, ... No entanto, parece que não me basta ganhar 500 reais por mês. Enquanto ganho 500 reais, sei que a empresa na qual trabalho ganha 25 mil reais. E, ainda por cima, isso é considerado um trabalho barato. Quem dera eu fizesse esse trabalho barato de 25 mil! Imagino o que é o trabalho em conta. 100 mil? 200? 500? 1 milhão?

Imagino além. Ganhando 100 mil por mês... em um ano teria mais de 1 milhão, o que é o suficiente para render 10 mil na poupança por mês. Puxa vida. 10 mil por mês. Dá pra comprar uma casa, um carro, um jornal, várias viagens, móveis pré-montados, bilhetes da megasena, ... e sem se preocupar, porque no próximo mês mais 10 mil vão vir.

Então a pergunta é. O que fazem essas pessoas que já acumularam o suficiente? O que faz alguém que ganha mais de 100 mil por mês? Enfia no cu? Compra uma lancha de ouro? Compra outras pessoas? Pra QUE continuar ganhando? Qual é o sentido? Passa a bola adiante! Deixa oportunidade de mais alguém ser rico.

Rico. E ser rico pra que? Digo, depois que tu passa da parte pagar as contas e ter um pouco de lazer (duas vezes no cinema, teatro, música e circo), o que resta é tão insignificante. Ser rico pra ter um porsche? Uma harley davidson? Ser rico pra esnobar? Pra montar uma fundação? Pra comer pampacats? Sabe..

O NEGÓCIO É AMAR. Do fundo do coração. Todos os seres. Parar com essa idéia de que a gente é mais do que um inseto ou um outro ser humano. E amar tudo e todos.

Eu tive uma irmã quando tinha -89527253895 anos. Digo, ela nasceu quando meu pai tinha 21 e quando eu nasci, meu pai tinha 34. Faz o cálculo.

Ela nasceu com o coração do lado errado, virado pra direita, tá ligado? E a cirurgia na época custava 10 mil reais (hoje dizem que custa uns 38 mil), não tinha plano de saúde e meu pai e a mãe dela não tinham grana pra pagar ou financiar. Ela morreu dois ou três meses depois de nascer. A mãe dela entrou em depressão, desenvolveu diabetes e morreu no mesmo ano.

Enquanto isso, tinha o dono do hospital, o dono do banco, o dono da padaria, o dono e o dono e o dono de tanta coisa ganhando tanto. E comprando lá o carro do ano, viajando pra não sei onde, fazendo gato e sapato. Esse cara roubou o dinheiro da minha irmã e matou ela.

O capitalismo mata. Isso é um exemplo doido de algo que aconteceu comigo e certo que tem uma calharada de gente com exemplos muito piores. A questã é por quê? pra que a gente trata tão mal quem tá do nosso lado? quem é humano com(o) a gente?

sexta-feira, maio 06, 2011

Superman II

Look at the stars, Kelly.

Who do u see there?

quando a gente fica muito tempo parado encarando o céu, parece que ele gira em torno da gente.
Que a gente na verdade tá numa ilha. Uma ilha de céu azul pra todos os lados. E tem a sensação de que existe algo. Não lá longe. Nem dentro da gente. Mas algo logo ali em seguida, ali saindo da nossa pele.

A minha energia sai como canivete através da pele e chega. Chega no teu rosto. mas já não te atravessa que nem canivete.

queria ter acabado esse texto. mas não dá. não tenho mais vontade. canivente não sai mais pra fora da pele, sai pra dentro mesmo.

sexta-feira, abril 29, 2011

Superman

Às vezes me olho nas minhas fotos e vejo aquele garoto tímido que mandava cartas de amor na 4a série e tinha medo de se confessar. Naquela festa que a gente se encontrou - quando foi? só lembro que era a primeira vez que ia até a tua casa - tua irmã me falou que hoje era minha grande chance. Falei baixinho para meu amigo, de forma que ninguém fosse ouvir, que hoje era o dia.

O dia do que? De levar ela para cama, claro. Nem sabia o que era levar alguém para cama. Tinha ouvido num filme e me pareceu extremamente apropriado falar isso naquele momento. Não lembro quem ouviu, ou se meu amigo falou pra alguém que falou pra outro alguém e assim foi indo até voltar aos ouvidos da irmã dela.

A irmã dela chegou extremamente irritada, me encarou e disse Quer dizer que tu só quer trepar com ela? Hoje poderia responder alguma outra coisa, na hora nem sabia o que era trepar e só me ocorreu ficar mudo encarando de volta. Não tive meu primeiro beijo naquela dança. Tive meu primeiro ciúme, quando ela dançou agarrada no meu colega. A gente nunca mais conversou. Nunca mais mandei cartas.

Uma vez fui até a casa dela com o meu pai. A gente ficou parado dentro do carro durante muito tempo. Eu morri de vergonha. Meu pai perguntou porque não ia até lá tocar na campainha. Falei Só vim olhar a casa e saber como é. Tinha umas crianças jogando bola na rua e não queria que elas soubessem que eu estava ali, então me encolhi no banco de trás. Conseguia vislumbrar o teto da casa dela e o céu. E o meu pai falando comigo.

Aconteceu uma vingança punitiva. Entre eu e as mulheres. Entre eu e meu pai. Entre. Da minha vergonha para mim mesmo. Pensei Nunca mais quero passar vergonha na frente de alguém. Mexi nessas engrenagens que movem os meus pensamentos, nessas que influenciam o pensamento dos outros, nessa coisa que existe antes do Eu, antes do Nós.

Deixei tanta coisa pra trás. Pra virar sombra. EXISTE UM VÉU PODEROSO QUE COBRE A MINHA EXISTÊNCIA. ME SUFOCA E ME TIRA A VERGONHA DE EXISTIR COMO SER HUMANO - ME PROTEGE DA VERGONHA DE SER HUMANO. DA VERGONHA DE PENSAR. DE TER IDÉIAS. ME TIRA A VERGONHA TIRANDO O QUE TENHO DE MAIS VERDADEIRO.

VIDA.

Passo meus dias me consumindo. Sugado pelo computador, trabalho, família, relacionamentos, preocupações, E TRALALALA.

E toda vez que lembro desses momentos em que poderia ter passado vergonha me dá uma vontade imensa de chorar.
E toda vez que lembro desses momentos em que poderia ter sido eu mesmo me dá uma vontade imensa de chorar.

Então quando esse eu. esse assassino. cria problemas. minha sombra vem pra resolver. Na praia defendeu um garoto que mal conhecia. Dos marisqueiros. Os marisqueiros vieram com dez marmanjos que perguntaram Porque vocês mandaram nosso amigo se fuder? Porque ele tava implicando com nosso amigo. E na hora do soco. a sombra. resolveu que não ia levar o soco. Então a pessoa que mais amava, meu melhor amigo, leva. Nunca mais fala comigo. Nunca mais partilhamos emoções, nunca mais saímos juntos, nunca mais nos encontramos. Me perguntou no outro dia Porque tu não apanhou também?

Porque eu não tive coragem de apanhar. Porque sou um covarde que não passa vergonha. Que tem MEDO DE SER. E POR ISSO te peço desculpas. Queria ter sido um amigo muito melhor do que fui. E é uma pena que só venha a te dizer isso depois de anos. E que na hora que precisava ser sincero contigo, tudo que pude fazer foi contar uma mentira deslavada que meu ego e minha vontade de não passar vergonha queriam te dizer.

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Ontem li as orelhas de um livro (Ribamar - José Castello):

"Esse menino sofre dos nervos", é um Sampaku, "alguém incapaz de ter uma reação adequada ao perigo", os seus olhos estão desviados, apontam para cima; tem olhos, o menino José, de peixe morto, mas o médico dos olhos diz que está tudo bem e, sim, está tudo bem e tudo mal; a semelhança com os olhos do pai é isso: a única maldição que desejamos, o desejo que mais amaldiçoamos.

O hipnotizador não endireita os olhos do menino, não lhe tira o sofrimento dos nervos; a lâmina não torna o nariz mais discreto, a coisa não resulta com a faca - mas há isto: a sensação de que o nariz não está bem, de que os olhos erram, de que a posição no mundo não é a correta - está a tímida peça de xadrez perdida no tabuleiro de um outro jogo.

Carta ao pai que acompanha a carta ao pai de Kafka. Kafka, o escritor minhoca; escreve como se rasteja e poderemos pensar que em parte é isto: trata-se de ver se os traços que o nosso rastejar deixou atrás conseguem ser decifráveis, se foram transformados ou não num livro ou se são, afinal, como os gatafunhos ilegíveis do velho demente de Ribamar, que é cego e por isso não precisa de escrever nada que se entenda.

Em Ribamar aproveita-se uma queda para avançar; rastejar não é afinal assim tão mau: é o avanço de alguém que caiu e não quer, ou não consegue, levantar-se. O golpe que o derrubou foi demasiado forte - e nascer é um pouco isto: um golpe que por vezes só recuperamos muitas décadas depois.

E ainda a visita à tia louca que imita as galinhas e talvez escreva no chão sim; sim que é, apesar de tudo, uma das mais belas palavras, mesmo que não tenha destinário ou assunto, mesmo que não haja questão prévia. E é isso mesmo: à distância, do síto de onde conseguimos ver, o que parece que Castello escreve no chão é um sim, e este sim talvez seja dirigido ao pai, um sim que também aparece depois de pergunta nenhuma. Trata-se em Ribamar, escreve Castello, de "tomar posso de meu pai", como se o pai fosse "um cargo público ou um pedaço de terra". Não se trata de entender, de retomar ou reconstruir "as ruínas que ferem mas não assustam", trata-se apenas de dizer um sim, que não é de obediência, um sim que não vem de lado nenhum mas ali fica. Quando o menino José se sentava entre as plantas, para que não o vissem - esse sentar era também já um modo de dizer sim.

Ler é expor-se - como se escreve nos capítulos Kafkas - mesmo na leitura mais privada. Ribamar é pois uma coisa que nos interpreta. Este livro, que insiste em nos querer ler, altera então a ordem natural das coisas. Quem escreve está a entrar na nossa intimidade; como sabe ele tanto dos nossos? E talvez por isso nos emocionemos.

E sim, rasteja-se, mas em Ribamar também se avança, passo a passo, muitos metros acima do solo. Também isto, portanto: serenidade na caminhada. Como um funâmbulo que tivesse a certeza de que vai chegar ao fim, e se fosse capaz de suportar a tentação do quero descer; funâmbulo que avança, tranquilo, sabendo onde está e quanto falta (I2/i8, I3/I8, I4/I8).

Isto, portanto: o máximo de pontos sobre o solo (rastejar) e omínimo de apoios no solo (o avançar do funâmbulo). Entre os dois momentos, antes ou depois - a queda, sempre.

Não basta fazer, é necessáro salvar o que se fez - alguém escrever. E, de certa maneira, é isto que todos os que fomos lidos por este livro exigimos - o impossível, claro: que quem nos fez nos salve.

Gonçalo Tavares.