A garrafa de úisque no quarto me chama, provocante.
Só afogar tudo em grandes goles num desses copos de requeijão. Os únicos que sobraram inteiros aqui em casa. Me sinto ridículo tomando úisque nesses copos, mas a outra opção são as xícaras de plástico do inter, o que não me atrai nem um pouco; o úisque merece ser tratado com o mínimo de dignidade.
Hoje senti vontade de fumar no cinema, estava com uma sensação horrível, misto de ridículo - denovo, não por acaso, essa palavra - e nervosismo. Pensei naqueles cinemas parisienses (os sonhadores) que as pessoas fumam à vontade na sala. Ia ser ruim voltar pra casa com cheiro de noite alternativa, lavar as roupas e tudo o mais três vezes. Mas.
Ainda voltei de táxi pra casa. A noite agradável, implorando pelos meus pés e uma conversa pós-filme; não. Táxi, silêncio, uma sensação estranha. Depois, copos de requeijão.
Num sonho ruim quebro todos eles. Jogo pela janela, encho a calçada ao redor do edifício, ninguém mais entra, nada mais sai. Ninguém pra me perguntar como foi o dia, o que tem sido a minha vida, o que vai acontecer no final de semana. Nada pra sair, nem uma palavra pra chamar.
No fim, o desespero. Ia pular pela janela e me arrebentar nos cacos, buscando aliviar essa mão dentro da minha garganta, que me sufoca desde sempre e me dá medo, muito medo, de me levar um dia. O úisque iria entrar direto, sem ter que passar pela boca, pela garganta sufocada, pelo estômago enjoado. A embriaguez completa, enfim; buscada desde o primeiro gole, ainda na cadeira do computador.
Sem ressaca. Sem responsabilidade. Só o alarme tocando no outro dia pra me trazer de volta.