sexta-feira, novembro 22, 2024

Rascunho I

Desconfio que ele não tenha ideias próprias.

Tudo acha bom, tudo concorda,

num eterno copia e cola. 


Também quando fala

não era a hora

não era do jeito

não eras

 

Diz que sabe, mas não sabe

que esse rio

é só mais um grão de areia

como qualquer outro

nem mais

nem menos

 

Mantra

 

Se é pra falar conceito

a indiferença é o contrário do amor

 

Mas isso não é tão bonito quanto o blasé

de Sartre sarapiando com seu existencialismo

é o apelo do apaixonado


sexta-feira, novembro 15, 2024

Um pássaro

Encontrei um pássaro na rua

assustado, não sabia se havia algo errado

Peguei nas mãos


Ó seu pássaro

o que você tem

perguntou a criança


E o passarinho piu

piupiu piu piu


Levei pra casa

dei banho, cuidei

o passarinho se aninhou na cama

e dormiu


No dia seguinte, acordou bem

o rosto radiante, a alegria de viver

de volta no sangue

 

Sabe o que é,

me disse ele,

fazia tempo que eu não via o céu


E voou, voou, voou

De Fortaleza até

São Paulo

 

É pássaro migratório

o tempo passa só o necessário,

mas também se perde

no contar das horas cinzas

 

Gosto do verbo que aprendi desse amigo

passarinhar;

é o ato mais bonito

e também dos mais difíceis.

quinta-feira, novembro 07, 2024

Val

Me disseste que gostavas

quando te chamava de

Val


É tão raro as pessoas se encontrarem

se entenderem

e continuarem caminhando juntas


Recentemente fui apresentado ao conceito de

sinceridade brutal


Não é sobre tratar mal os outros

É de escolher um dos olhos pra sustentar

essa ponte que vai até o fundo da outra pessoa


Talvez eu não seja o cara mais interessante, esperto,

ou mesmo bonito, 

mas essa ponte me atrai


Eu quero andar nela curioso

te encarar e explorar esse território

 

Nem todo mundo sustenta essa verdade

Eu tampouco, acabei de começar

 

É uma declaração de amor, não por ti,

mas pela ponte. E nesse texto vira manifesto,

da política do dia a dia até a de Brasília

 

Precisa treino, pois não sabemos mais nos olhar

alguém vai chamar de Zazen, outra de Yoga Nidra,

não importa muito, de verdade, o nome,

só que você faça até dormindo


Assim, antes do fim do mundo, 

pelo menos alguma coisa

vai fazer sentido nisso tudo.

terça-feira, novembro 05, 2024

Pai

A parede era caiada de branco, o chão daquelas pedras e estávamos bem próximos da porta. Não havia carros e tampouco muita gente passando ali por perto. Era um dia quente de sol pleno.

Estou procurando esse lugar tem algum tempo, pai, mas só tenho essa lembrança quase fotográfica de como é o espaço. Talvez daqui a uns anos, com o avançar das suas questões de memória, você lembre. 


Não sei nem se tomamos esse café no século XIX ou XVIII. Éramos brancos e, dado o contexto colonial, será que éramos boas pessoas?


Fui a Minas Gerais acreditando que era lá, ainda acho que é, procurei por cima, achando que talvez o lugar fosse me procurar também. Não achei. Também procurei pelo mesmo gosto do café, afinal, foi ele quem me trouxe pra essa memória na mesa da sua casa tantos anos atrás. O Bourbon Vermelho. Foi outra coisa que não encontrei.


Tirei essa foto em Tiradentes só pra te dizer isso.

quarta-feira, outubro 30, 2024

Sem título I

Não posso dormir sem dizer que

todos estamos loucos

Você que me lê, 

não, não é especial,

eu não sou especial


Nenhum de nós

Camilaaa

Ooo

 

Éééé contigo que eu tô falando

Quem mais vai entender essa bobagem aqui?

Bom, cá estamos, nesse espaço privado


Para onde vamos?

Escreveu no papelzinho

Nunca consegui brigar sem chorar


Ou rir. Rir é horrível, falta empatia. 

A solução é assumir

Sim, estamos e somos. Completamente pirados.


Impressiona é que você não

 

Qual é a sujeira de casa que você

só pra ressurgir de novo

como quem foge 

pra se encontrar


A foto é da casa dele

Fiquei triste quando ouvi

Queria lembrar o nome



domingo, outubro 27, 2024

Gritar

Quero falar bem alto 

repetir e que você

me escute


A


Nem que seja pra dizer Adeus

receber um minuto da sua atenção

através de uma grosseria


AA


Vou chamar a sua mãe

convocar os seus amigos

Digam, digam


AAA


QUEM é você

O QUE você está fazendo

Mas não quero saber por quê.

Isso não faça comigo.


Deixe pra responder

num sussurro desses

que quase se perdem no som da cidade,

mas são altos o suficiente para se ouvir


Eu não te amo. Na verdade,

nem gosto de você.

Seu olhar me causa asco

sua insistência me enche


Por que tu não foste embora

quando bati a porta na tua cabeça?

Que teimosia é essa

de querer gostar de mim


Pois grito: VÁ, SUMA

Minha paz ninguém encosta

E não, não sinto muito.

quarta-feira, outubro 23, 2024

Esboço II

Se soubesse, teria gasto o filme contigo.

Mas essa não é uma história de amor.


A câmera tava com um problema, o fotômetro inventou de não funcionar mais. Tirei várias fotos no feeling, como diria uma antiga namorada. Algumas bati sem querer, até queimei umas fotos, depois entendi que a gente passa o filme só antes de bater, nunca depois.


É que às vezes a gente esbarra no botão e bate uma foto sem querer. E tem até foto sem querer bonita, mas a maioria é quando a tampa da lente tá posta, e foto de tampa nunca é bonita.

 

Se eu caminhar 6 horas por dia, são 138 dias até Belém. Sem passar por São Paulo é quase uma linha reta. Saindo amanhã, chego dia 11 de março de 2025. Mas que exagero, quem que faz 26 quilômetros em um dia? Sejamos realistas. 15 quilômetros por dia. São 244, bota 250 dias, 1º de julho.


Andando de costas pro tempo passar de trás pra frente é só sair em janeiro que te encontro em maio. Não que fizesse diferença, não faria, seria só pra bater mais foto. Poderia levar a máquina com a pilha não estourada. E também um filme melhor do que esse Ilford PB grosseiro.


Acho que nunca te convenci que não era amor. Tudo bem, também tenho dificuldade de convencer a mim mesmo. É que esse limite, do que é, e não é, nunca foi claro na minha vida. E nos últimos tempos ando sem vontade de limites.


Consigo imaginar um amigo rindo e dizendo em deboche: "É a crise da meia-idade". Eu ri. Mas um Porsche 73... em Belém, saindo da praça da República e acelerando pela Nazaré, cruzando todo semáforo, é de noite, não tem ninguém na rua, só o motor roncando Pará adentro.


É uma onça de metal comendo asfalto e gasolina pra ver se engole a angústia do mundo e sua delírios de amor por todos os poros; EU TENHO SEDE DE VIVER 


O tremor do Jambu é mais forte do lado de dentro e ando desconfiado de que foi o Pará quem me comeu e não o contrário, quem mandou gostar do Norte, deve ser o mercúrio no peixe que deixa a gente assim, querendo passar o filme antes de bater a foto.