sexta-feira, março 23, 2018

Gilmar

Hoje saí do trabalho e decidi que ia parar no bar se tivesse ao menos uma pessoa conhecida, mesmo que não fosse sentar com ela.

Passei, não vi ninguém conhecido, decidi entrar, comprei lá uma bebidinha que a muito custo consegui desconto (trocadalho do carilho) e vi dois conhecidos. Não sentei com eles.

Fui pra rua e me sentei numa cadeira de plástico, onde fiquei tomando meu goró. Apareceu um rapaz de pantufas, me pediu um gole, dei um pouco, não muito, porque não tinha dinheiro pra tomar muito e queria, quem sabe, tomar muito.

Então apareceu Gilmar. Do meio da multidão, cambaleando, com aquele cheiro de quem não toma banho faz uns quantos dias, veio, me viu, sentou do meu lado.

No começo demorei pra entender, a língua enrolada, a ânsia por dizer algo pra alguém.. sei lá. Não nos entendemos no começo. Ou melhor, eu não entendi ele. Porque ele estava atento a tudo que eu dizia.

"Faz tempo que tu mora na rua?"

Vim pra rua com doze anos.

Nisso Gilmar começou a cantar, muito bêbado mesmo, coisas que no começo fiquei constrangido e até o outro morador de rua amigo dele quis fazer parar, mas aí comecei a ver que Gilmar tava me contando uma história.

Ele tava no quarto e a mãe dele chamou, pegou nos cabelos, olhou nos olhos e disse "filho, que Deus te acompanhe. O mundo é teu".

Dia 26 de dezembro Gilmar fez 42 anos. Me disse que no dia anterior, natal, era aniversário da mãe dele e que não foi porque 1. Não pode beber lá; 2. O padrasto fica enchendo a cabeça dele. Que decidiu comemorar na rua.

Olha só.

Um amigo deu uma garrafa de cachaça de presente, outro trouxe um espetão com salsichão, carne, tudo; outra veio até com uma torta! E no fim teve champagne.

Tudo isso de amigos da rua.

Gilmar conserta sapatos. Em um dia, se tu tem um tênis que tá abrindo a sola, ele conserta pra ti, só precisa levar a linha (fio encerado), ele tem a agulha (um cabo de guarda-chuva) e a técnica. Já convidaram pra trabalhar numa sapataria, mas vai fazer o que lá trabalhando?

Falei que era meu aniversário. Me deu os parabéns, ficou feliz por mim. Depois de alguns cigarros que se fumaram sozinhos e mais cantoria, nos despedimos. Disse que sou uma pessoa boa e que vai estar sempre comigo.

Obrigado Gilmar por passar meu aniversário comigo.

sexta-feira, março 09, 2018

segunda-feira, janeiro 22, 2018

Conversas Lacradoras

Tem gente que gosta de lacrar, sabe? Quando faz aquele comentário que todo mundo fica calado porque soa como uma verdade universal.

Tem gente que não aprendeu a brincar sozinha. Já viu aquela criança que o pai vive botando a Pepa e a Galinha Pintadinha? Pois deixa de conhecer o fantástico mundo dos prendedores de roupa, da roupa molhada no varal, das caixas de areia onde se pode criar formigas.

Algumas pessoas não sabem falar. Não que as palavras não saiam, só não sabem o que falar mesmo. É um mutismo extraordinário que tem relação direta com as lacradoras. Se for pra responder, que seja lacrando, porque se abrir pra uma conversa é se abrir pra outro mundo.

E quem nunca se aventurou na própria imaginação acaba tendo muito medo.

Algo. Novo. Original.

Nem pensar.

domingo, maio 28, 2017

Conselhos para uma Poupança

Vós me pedistes por conselho, pois sentai vossa divina bunda e lede.

Não sois perfeito, melhor que outros. Usai vosso divino cérebro para observar: o que vos parece muito pequeno para outro é mui grande, o que vos parece muito grande para outro é mui pequeno.

Vede as criancinhas. Para elas, vós sois un monstro, entretanto, para vós, uma estrela Gospel. Não vos quero ofender, mas assim é e assim foi. Se nem Buda, o Iluminado, foi poupado de vossa crítica, se até mesmo Cristo, filho de vosso Deus, foi crucificado por vós, que direis de vosso irmão chafurdando na lama? Afundai logo sua cabeça e afogai.

Tende que mudar vossa atitude. O crucificado vos disse para amar o próximo como a vós mesmo. Não vos posso confiar o mesmo, pois sequer amai a vossa pessoa. Aprendei sobre amor.

sábado, maio 13, 2017

Carta

Hoje tive vontade de te escrever uma carta de amor, mas eu te amo não resolve as coisas instantaneamente. engraçado que na minha mente, de alguma forma, como um mantra, se falado verdadeiramente e com um quê até devocional, resolveria, seria o suficiente para deixarmos diferenças de lado, para aceitarmos o que o tempo fala e nos entregarmos ao novo momento, talvez se não tivesse te entupido os ouvidos com minha indolência, preguiça e mentiras, também não te peço mais desculpas, não é minha culpa, nem tua, passei um bom tempo refletindo tuas palavras. Não é amor. Queria um cartaz, não é amor, andei com esse slogan na testa, não que te faça diferença, mas já que mais falo comigo mesmo do que contigo, andei, não é fácil receber críticas, ainda mais quando saem da boca de quem a gente (ama). Dói. Mas tudo bem, como dizem, aceita que dói menos, aceitei tudo calado concordei e estou te esperando, te esperando olhar pra trás, ver o que tem depois das nuvens e também não é fácil esperar e eu sei que as coisas estão falando contigo, são várias e estão todas ao teu redor, preenchem os cômodos da tua casa, as frestas entre um pensamento e outro, como uma composteira maturando lentamente toda e qualquer coisa. Não vai ser instantâneo.

domingo, março 05, 2017

Cilada

Uma vez te segurei forte fora da entrada do supermercado, não lembro direito o motivo, lembro de tu me pedir pra soltar porque estava te machucando.

É uma das primeiras memórias que tenho de agredir outro ser vivo. Mas pra ser justo, talvez a primeira mesmo tenha sido com o gato ou a gata em casa, não me lembro bem, que segurei pelo pescoço. Enxerguei as pupilas incharem e ficarem prestes a saltar pelas órbitas. Percebi que mais um pouco, poderia matar. Aí soltei.

Muito tempo depois matei mesmo. Um lagarto apareceu na porta de casa, ferido, mal se mexia. Cortei a cabeça dele com o facão. Na mesma casa, armei ratoeiras que mataram e aleijaram ratos, os quais encontraram o martelo ou o facão depois também.

Quando criança tinha um passatempo que era matar moscas, gostava muito. Às vezes na ausência de um mata-moscas plástico, ia com a mão mesmo. Lembro uma tarde que matei uma centena num clube.

Outra vez dirigindo, um cachorro atravessou a estrada, matei. Esses tempos também ajudei a matar uma vaca. Já matei aranha, bicho-cabeludo, mosquito, besouro, barata, pra falar alguns.

Matei também frangos, porcos, outras vacas e bois, peixes, ovelhas e javalis, comendo carne.

E isso só o que lembro.

O mais marcante dessa seqüência foi a última que participei diretamente, a vaca. A vida foi embora devagar. Não vou detalhar, porque sei que não leria mais a partir daqui. E eu quero que você leia até o fim.

Diretamente creio que nunca participei da morte de outro ser humano. Mas agredi e agrido vários.

Uma época andava me perguntando qual o sentido de tudo? De tomar o ônibus por duas horas até o trabalho, fazer algo sem sentido, voltar, dormir, repetir. No final de semana pegar o papel sem sentido e gastar em coisas sem sentido.

Poucas pessoas entendiam essa pergunta e a resposta do sem sentido das suas vidas. Como sem sentido? As pessoas buscam ser felizes, um trabalho com significado (que pode muito bem ser somente o dinheiro), sair com os amigos, se divertir, conhecer gente nova, viajar, ter experiências fantásticas, gozar muito.

Eu tentei. Mas então o trabalho não pagava o suficiente, os amigos não eram tão amigos como gostaria, a diversão sempre acabava, as pessoas novas sumiam ou decepcionavam, as viagens davam saudade de casa, a casa dava vontade de viajar, o desejo por sexo depois de satisfeito dava lugar a um vazio, vazio que às vezes se preenchia de mais desejo.

Nada é o suficiente.

E isso machuca. Meu amor por ti não é o suficiente? O que faço não é o suficiente? Quem eu sou não é o suficiente?

Quanta gente magoada. Por não ser você, por ser você, por ser nova, velha, bonita, feia, grande, pequena, azul ou preta. Nunca satisfeito, nunca em paz, buscando a felicidade sempre no virar da esquina, no banco do ônibus, em outro país, nesse país.

É uma Cilada. Armadilha do não-amor.
Não é amor. Não é amor. Isso não é amor.



Irônico que depois de tanta morte, tristeza, mágoa e ódio, me dê conta de que o sentido, de tudo, talvez só pra mim, é o amor.

E amar tem sido suficiente. Aqui, agora, do exato jeito que as coisas estão e são.
É engraçado isso de amar. Sempre tive na mente uma idéia boba do esforço em amar os outros. Aí não é amor. Amor brota naturalmente. É espontâneo e é por tudo e por todos. E, cuidando bem, só cresce.

E a partir dessa certeza que o amor brota e cresce, sei que um dia vai chegar aí e que aquele coração radiante vai crescer e pintar dentro de você também.