quinta-feira, maio 17, 2018

Sobre objetos

Um objeto é descartável.

Pode ser usado uma vez ou um milhão, pode ser feito de uma infinitude de materiais, ser recente como uma caneta que escreve no espaço ou antigo como argila vermelha na parede da caverna.

Quando se pega um objeto, um telefone, por exemplo, se dá um uso. Uso o telefone para ligar. Depois de um tempo, talvez o telefone não funcione mais ou talvez os meios de comunicação sejam outros. Então o uso é ressignificado, passa a ser item de decoração, de nostalgia, se retiram seus componentes e são utilizados para outros objetos, até que, em última instância, o telefone vai parar num canto esquecido pela humanidade.

Um objeto é descartável. O descarte é o esquecimento, é colocar aquele objeto longe das vistas de tudo e de todos, de preferência em alguma mina abandonada em El-Dorado. Entulhamos as minas com nossos esquecimentos até um ponto que não podem receber mais esquecimentos. É preciso novas minas para novos esquecimentos.

Mina, no popular, é mulher. É gente. Uma frase de propagada num aplicativo de relacionamentos poderia dizer "encontre hoje alguém em quem depositar seu esquecimento". Afinal, são precisas novas minas para novos esquecimentos.

Dirão que é impossível seguir no ritmo atual, que em breve não haverão mais minas onde colocar os esquecimentos e teremos que lembrar de tudo. Talvez seja bom lembrar e não morrer de Alzheimer. Mas que difícil deve ser, anos depois, ver aquele mesmo telefone com quem você conversava até altas horas da madrugada, intocado pelo tempo no fundo de uma mina.

Mais difícil ainda quando aquele telefone tem nome, tem voz, tem até mesmo sentimentos. Difícil quando todo aquele sentimento estagnado ao longo de dezenas de anos soterrado por toneladas de outros esquecimentos vem à tona. E vem pra lembrar, quem sabe, de não esquecer agora.

Oi, tudo bem, não sou objeto. Somos gente.

Recorda que até uns anos atrás quem estava na câmara de gás era tu, não eu que recebo tuas balas.
Recorda quando brigou com teu pai e tua mãe, teu filho agradece.
Recorda de todo privilégio pra chegar esse momento na frente de uma tela, enquanto outros passam fome.

O esquecimento é o talento com os objetos, mas não com a gente.