Hoje no consultório brincavam duas crianças de tez muito clara e cabelos loiros. Uma nostalgia estranha arrepiou meu peito enquanto as observava. Virei a cabeça para a porta e evitei o olhar carinhoso dos pais. Plantas cresciam no bordado do tapete para limpar os pés; de dentro para fora.
De repente percebo que não lembro mais de quando minha bisavó morreu. Busco outras mortes da família para testar a memória e lembro do meu vô e suas faces encovadas buscando me dar um abraço; meu medo de que aquele homem fosse a própria morte e a vergonha desse pensamento até hoje. E o dia em que morreu, quando minha prima e eu saimos a correr e brincar no cemitério. Enquanto todo o resto da família chorava e lamentava ao redor do caixão do meu vô. Aberto e de pé, vestido em um terno elegante.
Os cemitérios têm muitos andares. Os cadáveres não são mais enterrados (ia escrever plantados) a sete palmos; são colocados em gavetas. Devem seguir a mesma lógica das habitações dos vivos. Enfim, depois de subir uns sete andares e chegar sem fôlego, percebo que minha prima não está atrás de mim. Certamente não sentia o mesmo prazer em correr escada acima.
Crianças saem correndo porta afora e o doutor chama.