Larguei a chave na mesa. Perguntei:
- Então, o que vamos fazer?
- Não sei, mas queria esperar um pouco até secar minha calça
Me deu vontade de rir, a situação com a calça estava digna de várias piadas, mas não podia fazer nenhuma àquela hora. Caminhei pra sala, puxando ela pelo braço. Me desanimei no caminho e sentei no sofá como que largando o peso do mundo dos meus ombros. Lá fora tinha um céu lindo, azul forte com nuvens muito brancas em formatos grandes e irregulares passando. Pensei em Deus, por quê Ele não falava pra mim que existia? Que vontade de morrer me bate às vezes, saber o que tem depois, se é que tem depois. Talvez seja um motivo original pra um suicídio, mas o mais provável é que não.
Ela sentou do meu lado do mesmo jeito que eu, largando o mundo dos ombros e fitando o céu. Joguei as almofadas pro lado e deitei com a cabeça no colo dela, tudo que precisava era de um bom cafuné, fechar os olhos e deixar de pensar que tava fodido. Lá pelas tantas, pergunta:
- Tu tá com sono?
- Não
Respondi seco de propósito, apesar de estar com os olhos fechados não estava com sono? Então que foi? Se deitou do meu lado, a cabeça na minha, me encarando com aqueles olhos verdes tão lindos. Que dor me bate quando penso que aqueles olhos verdes podem deixar de estar ali por mim. São daquele tipo que batem em alguma profundeza, que refletem o céu mesmo no breu absoluto. Quantas coisas ainda tenho pra aprender com essa garota, penso pela primeira vez que talvez queira realmente passar a vida com alguém. Me pergunto se vou aprender por uma vida inteira, não sei. Não é um pensamento realmente sério, não acho que vá passar a vida inteira só com uma. Ela:
- Tu tá chateado com essa história?
- Tô
- Eu também tô um pouco
É. Uma história fodida. Tu é a garota agora, só tu. Eu preciso de ti. E tenho que aprender um negócio pra lá de difícil. Algo que não aprendi a vida toda, que é me concentrar na vida. Puta que pariu, não converso com ninguém mesmo, não toco mesmo, não faço nada mesmo. É tudo fingimento, é tudo uma sombra do que sou, nunca estou presente na minha vida, estou sempre com a vida dos outros ou tão dentro de mim que esqueço que estou em mim. E o que essa garota aqui na minha frente com olhos verdes lindos tá me pedindo é isso, me pedindo. Pedindo que eu esteja aqui na frente dela, que respire com vontade, que ande com vontade, que fale com vontade, que viva com vontade e à vontade. E não é só ela que me pede, sou eu também, estou aqui implorando pra mim mesmo que comece a viver logo, que acorde.
A questão não é um problema com ela, quer dizer, sofrerei se ela me deixar por causa disso, mas é muito mais profunda, esses olhos verdes me vêem por dentro e refletem o que sou. Ela deixa de ser ela, passa a ser algo meu, falhar com ela não é assim algo simples, é de uma dimensão muito maior, é falhar comigo mesmo, falhar com o que quero.
E como falar tudo isso pra uma garota sem parar pra pensar muito e sendo coerente? Qualquer outra garota fugiria de mim quando comecei, mas essa ficou. Ela acredita e gosta de mim. Se esforça pra entender o que eu nem mesmo disse ainda ou mesmo o que não vou dizer. Quer abstrair o meu ser, não acho que somos simples namorados, me sinto tão unido, uma conversa nossa exige apenas poucas palavras, todo o significado do que queremos passar é passado por todos os outros meios possíveis.
Acabo de explicar o que me acontece, ela me acolhe. Pergunto como vai fazer para me ajudar, sentindo uma vontade imensa de pedir pra me sacudir sempre que eu dormir e ela responde, justamente, que não vai fazer isso, não por me querer mal, apenas por quê não lhe bate com os princípios e, apesar de relutante, concordo. Também não me bate com os princípios.
De pronto lhe prometo a mudança.
Me prometo a mudança.
Obrigado.