Chegou muito cansado em casa. Era noite já. Sentou na cama, mas não durou muito nessa posição. Acabou se deitando, virado para a sacada. Conseguia ver a luz dos postes lá fora e um grande ipê roxo que balançava ao vento. Não tinha vontade de se mexer.. estava num daqueles momentos que duram para sempre. Como naquele dia do Majestic. Aquele dia da Palavraria. Aquele dia da volta da praia. Entre outros dias mágicos.
Mas a magia sempre acabava. Na verdade, não acabava. Acabavam com ela. Ir pra casa, pro trabalho, tomar banho, estudar, comer, encontrar fulano e beltrano, ... E iria acabar com a magia dessa vez também. Precisava pôr um pijama, tirar os tênis, dormir. Dormir cedo, acordar para a aula das 8.30.
Suspira, levanta e vai tomar um banho. Enquanto tira as roupas, tocam a campainha. Abre a porta só de calças e com a toalha na mão. Não tem ninguém. Saí para o corredor. Ninguém à vista. Olha as escadas, mas está tudo vazio. Pára na porta e pensa um pouco. Queria que tivesse alguém do outro lado da porta. Uma pessoa especial. Que ficasse ali, conversasse. Comessem uns bifes ao alho e óleo enquanto tomavam uma cerveja. Que rissem juntos. Mas esse tipo de gente não caí na nossa porta, pode cair na dos outros, mas na nossa não. Por quê sentia, precisava, alguém assim?
Era um grande carente, essa é a verdade.
Riu de si mesmo. A primavera é muito boa, mas depois dela vem o verão. E essa é a parte que não gosta.
Podia não existir verão. Podia? Não, não podia. Precisamos do verão.